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  • Isabela Faleiro

CRÍTICA: A BRUXA (2015)

O contexto histórico escolhido para retratar tão fielmente a cultura do medo e o fundamentalismo religioso não poderia ter sido idealizado, escrito e executado com precisão mais cirúrgica do que nesta obra extraordinária. Eggers destrincha os mais profundos e piores medos da família -os horrores do colonialismo, emigração, fome, caça às bruxas, patriarcado, puberdade, culpa, repressão, luto, isolamento e paranoia-, e nos conduz desde a germinação do problema até seu inevitável e inquietante desabrochar, sempre armado de um olhar tocante e perspicaz.



Mas como todo bom filme de terror, “A Bruxa” não se sustenta apenas com rios de sangue ou tecnicalidades de som, e sim de sua habilidade singular de viver permanentemente na memória de quem o assiste, seja através das performances brilhantes, da cinzenta e solitária atmosfera capturada pela belíssima fotografia ou da sensação persistente de estar sendo vigiado.


Desde o princípio do filme, me chamou a atenção como a sensação de solidão se mantém presente mesmo quando os personagens não estão sozinhos. Ainda que juntos, estão sempre distantes. Apesar de se amarem e de morarem sob o mesmo teto, falta na família uma qualidade inerente de qualquer relação humana: vulnerabilidade. Não se pode verdadeiramente sentir ou expressar nada que não se encaixe no que foi estabelecido por “Deus” e sua palavra incontestável.



Para entender verdadeiramente a internalização de estar sendo observado, devemos mergulhar de cabeça e nos afogarmos nas crenças dos personagens. Cada dificuldade, cada dia, cada detalhe, tudo deve ser interpretado como uma prova de lealdade ao ser invisível que vigia, presenteia e castiga: nem sempre nessa ordem, nem na mesma intensidade.


Os personagens tratam e o diretor (genialmente) retrata a nova casa da família como a “terra prometida”. Apesar das lentes românticas e a família ajoelhada em louvor, pode-se ver que não passa de um terreno baldio. Seco, isolado, estéril, amaldiçoado, assim como todo fruto dali. Acompanhamos a vida monótona e infrutífera que o isolamento voluntário e cego proporciona à família, com um foco suave na filha mais velha, Thomasin.


A desconstrução lenta e excruciante do relacionamento de Thomasin com o restante de sua família, até que inevitavelmente todos se voltam contra ela, faz com que ela sucumba ao desespero e a torna passível de influência. É desconcertante e triste, mas não exatamente surpreendente. Desde o princípio é clara a inquestionável lealdade da família à Deus antes de qualquer pessoa, mesmo um dos seus. É insuportável vê-la chorar por ajuda e não apenas ser ignorada, mas ter sua honra e fieldade questionadas a cada momento.


Ela é podada, calada, manipulada e rechaçada, depois de anos de submissão e serviço silencioso, fazendo com que finalmente exploda e demonstre qualquer coisa que não submissão. Pela primeira vez, Thomasin manifesta sua raiva, indignação e decepção, e paga o preço por isso. A conhecida dor feminina de se expressar e de sentir o peso esmagador do estigma: louca, exagerada, sem sentido, emocional demais, bruxa. Sua atualidade é alarmante.


A impressão que tenho é de que Thomasin é pura e genuinamente impressionável, fiel, carinhosa e devota a família, e acima de tudo, uma menina. Uma criança, que sozinha carrega nas costas a culpa e a responsabilidade que vem com tornar-se uma mulher aos olhos de sua família. Uma menina, que ao fim, encontra-se sozinha: sem família ou amigos. Não há ninguém que possa ajudá-la fora dali. Qualquer tentativa de procurar por ajuda resultaria em sua morte.



O único disposto a estender a mão para a menina é o próprio Mal do qual seus pais tanto a aterrorizavam sobre. Porém, ele, ao contrário de sua família, reconhece e demonstra compaixão pela menina; oferece e permite-a a pseudoliberdade que jamais teve. Claro que ele é o responsável pela desgraça toda, mas o que há de se fazer? Não há escapatória. Ela apenas saiu de uma gaiola para entrar em outra: mais espaçosa, confortável, deliciosa, mas ainda uma gaiola.


Tento entender a razão do recrutamento estritamente feminino –até mesmo em relação às crianças. Se Deus é o Patriarca e o Diabo é seu absoluto oposto, me pergunto por que a submissão feminina é comum a ambos. Ao que me parece, o Diabo alicia mulheres para ele próprio, enquanto Deus submete-as à vontade dos homens. De joelhos, complacentes, obedientes. Será por isso Ele o escolhido e o outro rejeitado?


Nos takes finais, Thomasin caminha nua pela floresta à noite, com sua companheira: a Lua. Iluminada pelo símbolo da feminilidade; que nasce, cresce, nutre, deita e morre, apenas para nascer novamente no mês seguinte. Ao que parece, a menina tem uma nova família. Ela ri e voa. Está finalmente livre. Ou pelo menos é o que pensa um pássaro que só conhece como é viver em uma gaiola.



Texto por: Isabela Faleiro.