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  • João Bornhofen

ARTIGO: A CEGUEIRA (intencional) NOSSA DE CADA DIA.

Uma análise dissertativa sobre o filme Entre Abelhas (Ian SBF,2015) e o livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.



José Saramago é o tipo de autor que podemos considerar, no mínimo, como alguém detalhista, preciso, quiçá cirúrgico. O romancista, poeta e agricultor português, começou sua carreira artística enquanto ainda era funcionário público, com o lançamento de seu romance A Terra Do Pecado, que publicou em 1947, e 5 anos depois começou a fazer traduções de obras de autores de renome como Tolstói, Hegel, Baudelaire, e assim seu acervo editorial começa a lhe abrir portas, ele começou a trabalhar escrevendo crônicas para jornal Diário de Notícias (DN), e em seguida no Diário de Lisboa.

Não demorou muito para que editoras internacionais abrissem à Saramago oportunidade para que suas histórias fossem contadas para além do limite geográfico português.

Ensaio sobre a cegueira, livro que publicou no ano em que nasci, 1995, curiosamente sendo seu primeiro livro ao qual obtive acesso, narra a história de indivíduos, sem nomes, apenas definidos por suas funções sociais trabalhistas, que passam , pouco a pouco, a adquirirem uma cegueira coletiva, para que assim sejam internados todos no mesmo manicômio.

A obra, assim como grande parte da bibliografia do autor, não carece de simbolismos, o texto é carregado de alusões e figuras de linguagem, fazendo com que a narrativa seja onipresente e atemporal, inclusive fica a dica caso você ainda não tenha lido: Ensaio Sobre a Cegueira é uma das melhores obras já lançadas no século passado, tamanha sua relevância é comprovada com a verossimilhança absurda que o texto entrega para com nosso dia a dia, em pleno século XXI.

Tamanha alusão para com a cegueira coletiva na qual nos habituamos a enxergar, serviu de inspiração para Ian SBF e Fábio Porchat escreverem um roteiro (levando 10 anos para ser finalizado), que buscasse tratar desse realismo fantástico, sobre um personagem que perde, gradualmente, a visibilidade das pessoas à sua volta. Entre Abelhas (Ian SBF,2015) conta as desventuras de Bruno (Fábio Porchat, na melhor atuação de sua carreira), um editor recém divorciado, e que voltou à morar com a controladora mãe. Após uma ida à balada na tentativa de esquecer a ex (Giovana Lancelloti), Bruno começa a parar de enxergar pessoas ao seu redor. No início são somente pessoas aleatórias, porém com o tempo pessoas cada vez mais próximas começam a sumir da vida de Bruno, tanto figurativamente, como fisicamente também.

Vou evitar entregar spoilers aqui, até porque o filme é muito interessante, assim como o livro de Saramago (Um dos melhores livros que li, sem sombra de dúvidas, fica a dica) que inspirou a obra, porém não é explicitar muito o subtexto ao dizer que ambas as obras tratam da invisibilidade social como forma de dissertar sobre a nossa própria forma de nos enxergarmos, e tudo e todos ao nosso redor.


A obra de Saramago é narrada por um ser onisciente, de forma , em terceira pessoa, a presentear o leitor com detalhes angustiantes da pós "cegueira branca", como também utiliza o arquétipo de funcionalismo social presente em cada personagem ( que não possuem nomes), para criar um subtexto sobre como nós, indivíduos, presentes num "manicômio" que chamamos o espaço urbano que nos obriga a conviver, mesmo contra nossa vontade, com tudo e todos, estamos tão cegos que passamos a esquecer quem vemos todos os dias no espelho. Há um personagem singular no livro, chamado de Escritor, que mesmo após adquirir a doença, e não sendo mais capaz de produzir suas obras, ele continua escrevendo, continua respirando o que ama. Escrever é seu oxigênio, ele não faz pensando somente em terceiros, não quer mudar o mundo com suas dialéticas. Ele apenas quer continuar a produzir, porque é o que ele ama, é o que ele sabe, é o que ele não consegue deixar de fazer, mesmo sem poder ler o que continua a dissertar, é mais importante o fim, do que os meios. Seria então, sua personificação, uma antologia ao artista egocêntrico e megalomaníaco? Creio que não. Saramago quis demonstrar, o quão dependente nós somos do alvará de aprovação social, como a sociedade está tão intrínseca em seu próprio individualismo, que ao pararmos de enxergar o todo, paramos de nos enxergar. O livro precisa ser escrito, a história precisa ser contada. Quem há de ler? Ninguém. Mas para se viver, exige-se então que haja complacência dos arredores? o Escritor não conseguiria viver sem que houvesse um livro a ser escrito por ele. Então há de haver um livro sendo escrito. O importante não é que ele seja consumido, e sim que ele continue a ser feito. O personagem sabe que não irá provocar alarde com seu trabalho, mas isso não é sobre o todo, é sobre ele, sobre sua subjetividade, sua matriz vivaria.

Constantemente temos uma certa prepotência, oriunda de projeções egocêntricas, em que somos obrigados a virmos ao mundo para justamente sermos a mudança que nossos antepassados esperavam ver, sendo necessário criar a maleabilidade para a solução de tudo, no tom mais imediatista e idiossincrático possível. E não. Definitivamente não. Não somos obrigados a carregar correntes sociais que sistemas arbitrários impuseram sobre nossas escolhas e gostos. A partir do momento que nossa epifania psicossomática enxerga o eu, o eu próprio, do querer, da paixão, do tesão, da escolha, é quando estamos nos projetando, e mais importante, nos vendo como força matriz, não respondendo à uma ode social falsa coletivista, não sendo submissos à demandas parentais que deveriam ser inexistentes, evitando nos submetermos para com a digitalização humana, sob efeito de manada, estando assim, apto a encarar o nosso próprio reflexo, e não uma mera encomenda visual.

Estamos afinal, nos vendo sob o reflexo, ou estamos, de fato, nos enxergando?

Ao fim da obra Entre Abelhas, nos deparamos com um final aberto, porém convicto de seu propósito: questionar o tipo de abelha que cada um de nós é, se tornou, ou por obséquio escolheu ser. Nietzsche discorre sobre a liberdade individual em diversas obras, sempre alegando que o ceticismo é deveras, a melhor das respostas: "NÃO HÁ FATOS ETERNOS, COMO NÃO HÁ VERDADES ABSOLUTAS".

E assim como o personagem Cego Da Contabilidade, da obra de Saramago, que já era cego antes da epidemia, então se habituou a não enxergar mais o mundo à sua volta, adaptando-se à sua maneira, fica aqui a metáfora para convergir ao lúdico aqui retratado : "Se podes olhar, vê. Se poder ver, Repara" (José Saramago, Ensaio sobre a cegueira). Estaríamos então, já habituados à cegueira alheia, à filiação para a "colmeia" em que nascemos, como Bruno (Fabio Porchat), que em sua depressão passou, pelo isolamento, a enxergar quem de fato estava em volta dele: si mesmo. Infelizmente pra isso ele precisou perder de vista todos ao seu redor. Gostaria que não fosse o caso conosco, afinal "AQUILO QUE SE FAZ POR AMOR ESTÁ SEMPRE ALÉM DO BEM E DO MAL" (Frédéric Nietzsche). Então que tenhamos mais amor pela pessoa mais importante na vida de cada um de nós: nós mesmo.


"...Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos mas então deixará de ser humanidade." ( José Saramago, Ensaio sobre a cegueira).