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  • João Bornhofen

ARTIGO: ABRIL DESPEDAÇADO (2001) e como quebrar o ciclo da reinvenção pragmática.

Atualizado: Abr 26

Um dos melhores filmes nacionais de todos os tempo? Não! Um dos melhores filmes de todos os tempos.


Queria começar aqui fazendo um apelo à você, fiel leitor, ou fã de cinema, independentemente do grau da sua avidez: Por favor assista esta obra prima. Prometo que muitas projeções falaciosas sobre a qualidade e autonomia do nosso cinema irão ser dispersar. Estamos aqui com uma das melhores obras da sétima já feitas. Eu prometo que você terá, no mínimo uma catarse do mais puro teor sentimental e subjetivo , que somente as obras mais refinadas poderiam proporcionar.

Tendo dito isso, gostaria de falar sobre o filme dirigido por Walter Salles (Central do Brasil, Terra Estrangeira, Diários de motocicletas, Linha de passe), com roteiro adaptado de Karim Aïnouz ( Madame Satã, O céu de Suely, A vida invisível), e fotografia do mestre visual Walter Carvalho ( que fotografou obras irretocáveis como Carandiru, Lavoura arcaica, Amarelo manga, entre tantos outras), cuja história narra a saga de um jovem nordestino Tonho ( Rodrigo Santoro - em uma das melhores atuações de sua carreira), cuja hereditariedade lhe forçou ao manto vingativo, pela morte do irmão, ocasionada pela família rival, em pleno início de século XX.

A família rival, conhecida como os "Ferreiras", já disputa honra e notoriedade com a família de Tonho, os "Breves", há gerações o código de Hamurabi ( Olho por olho, dente por dente) é aplicado dentre as relações das famílias rivais, e é exigido de Tonho, que cumpra sua parte no contratualismo de sangue.

O personagem de Santoro então, realiza o desejo cíclico da família e retira da existência ,inóspita e ociosa do sertão, um membro da família Ferreira, para vingar a morte de seu irmão mais velho. Tonho possui um irmão caçula, aqui apelidado de "menino", pois sabe-se que outrora estará morto, então entende-se a falta de necessidade de apelidá-lo com um nome. O garoto, porém, enxerga um mundo além do meio devastado por um ciclo infinito de vingança, sendo imaginativo ao ver que a luz ao fim da imensidão nordestina seca e precária , também há de iluminar um amanhã possivelmente melhor do que o agora.

Impossível não fazermos entrelaçamentos para com a obra regionalista de Graciliano Ramos, "Vidas Secas", onde a narrativa gira em torno de uma família de retirantes que atravessam o sertão nordestino.

Todos estão fugindo da miséria e da seca e em busca de uma vida melhor, possuindo um narrador onisciente, e explicitando as mais profundas mazelas sociais brasileiras.

Um fator comparativo interessante entre as duas obras: enquanto a família Breves está fixada no mesmo local há gerações, continuando com uma linhagem miserável, porém honrosa para com vínculos sanguíneos, a família de retirantes presentes na obra de Graciliano estão sempre em constante mudança geográfica, porém não possuem mais instintos coletivistas, estão atrás apenas da sobrevivência, e o fato de estarem vivos para respirarem mais um dia significa que ainda há esperança, enquanto que para a família Breves, estar vivo pode significar inércia perante desonra familiar.

Vive quem está vivo para contar o quão inepto foi? Ou na morte a glória familiar pode evocar um alivio, desde que momentâneo e breve , para manter o ciclo de sangue e morte? Quiçá ter a oportunidade de viver mais um dia para conseguir buscar uma nova e última oportunidade nesse que pode ser seu último respiro.

Seriamos nós, todos escravos das tradições? Seja ora pela tradição escravocrata que adquirimos de nossos antepassados, ou porque nunca tivemos outro objetivo na vida sequer o caminho cíclico pragmático? E que esse caminho nos leve ao , enfim, fim do ciclo, seria ele a única chance de rompermos com a falsa reinvenção de valores que acordamos hereditariamente presos?

A partir do momento que Tonho encontra um tesouro perdido nos arredores do Sertão, ele começa a refletir sobre o valor que sua vida tinha até então. Ele não tinha nada além do pragmatismo cíclico vingativo, então dessa forma nunca cogitou pensar no que poderia haver além dos horizontes áridos donde mora. Tal tesouro perdido foi o amor que sentiu ao encontrar uma artista cênica, que trabalha em um circo móvel.


Tonho a partir daí tinha uma razão para quebrar o ciclo, não apenas seguir com suas reinvenções, mas sim quebrá-lo, ir e não olhar para trás. Vou evitar entregar aqui spoiler, pois quero muito que você, caro leitor(a), tenha essa experiência por sua própria conta.


A moral que o filme reside em sua essência é de certa forma, um otimismo, seja para Tonho, seja para seu irmão menor, e para as mais diversas almas que ainda estão perdidas nos mais infinitos ciclos pragmáticos que nos habitam, sejam nas grandes metrópoles, nas imensidões inóspitas do Sertão, ou até mesmo nas masmorras mais intrínsecas e subjetivas de nós mesmos.


Nunca é tarde para quebrar o ciclo. Seja em Tonho buscar um lugar longe da escravidão no ciclo em que originou-se, seja no sonho da família de retirantes da obra "Vidas Secas", do sofrimento enfim, acabar, e permanecendo em todos os membros , a esperança de encontrar melhores oportunidades. Enquanto houver esperança há de se haver um amanhã possivelmente melhor que o de hoje.


(...)O que indignava Fabiano era o costume que os miseráveis tinham de atirar bicadas aos olhos de criaturas que já não se podiam defender. Ergueu-se, assustado, como se os bichos tivessem descido do céu azul e andassem ali perto, num vôo baixo, fazendo curvas cada vez menores em torno do seu corpo, de Sinha Vitória e dos meninos.

Sinha Vitória percebeu-lhe a inquietação na cara torturada e levantou-se também, acordou os. filhos, arrumou os picuás. Fabiano retomou o carrego. Sinha Vitória desatou-lhe a correia presa ao cinturão, tirou a cuia e emborcou-a na cabeça do menino mais velho, sobre uma rodilha de molambos. Em cima pôs uma trouxa. Fabiano aprovou o arranjo, sorriu, esqueceu os urubus e o cavalo. Sim senhor. Que mulher! Assim ele ficaria com a carga aliviada e o pequeno teria um guarda-sol. O peso da cuia era uma insignificância, mas Fabiano achou-se leve, pisou rijo e encaminhou-se ao bebedouro. Chegariam lá antes da noite, beberiam, descansariam, continuariam a viagem com o luar. Tudo isso era duvidoso, mas adquiria consistência. E a conversa recomeçou, enquanto o sol descambava.

— Tenho comido toicinho com mais cabelo, declarou Fabiano desafiando o céu, os espinhos e os urubus.

— Não é? murmurou Sinha Vitória sem perguntar, apenas confirmando o que ele dizia.

Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato. Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois para uma cidade, e os meninos freqüentariam escolas, seriam diferentes deles. Sinhá Vitória esquentava-se. Fabiano ria, tinha desejo de esfregar as mãos agarradas a boca do saco e à coronha da espingarda de pederneira. (...)


Vidas Secas - Capítulo XII ( A Fuga).