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  • João Bornhofen

ARTIGO: CORRENTE DO MAL (2014) E O PAVOR DO ÍNTIMO À ESPREITA.

Atualizado: Jun 16

Quando a introspecção fala mais alto do que os rugidos sociais.


"VIVEMOS EM TEMPOS LÍQUIDOS. NADA É PARA DURAR". - Zygmunt Bauman, Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos" (2003).


Há uma máxima do filósofo polonês Zygmunt Bauman, quando discorre sobre a atual fragilidade das relações humanas , correlacionando o amor líquido como sendo mais um produto da modernidade líquida, período no qual ele abrange um inconsciente coletivo confuso, que não está em paz e conforto consigo mesmo. O espaço que nos cerca tende a provocar mais desilusão para com nossa introspecção, dificultando ainda mais o desenvolvimento de relações sociais saudáveis, afinal se o indivíduo não está pleno com seu relacionamento interno, quiçá com terceiros. Segundo o autor, as relações esporadicamente estão ficando mais superficiais, existe contato, há intimidade, mas não há relação sendo desenvolvida. Definida como "Relação que escorre entre os dedos".

E qual seria a causa desse nosso atual desprendimento para com as emoções verdadeiras? Medo. Pura e simples aflição de se relacionar intimamente com o outro. Bauman afirma sim, que as pessoas buscam afeto, porém há o pavor do desenvolvimento profundo, em um mundo em constante movimento e em eterna cobrança para com nossos anseios interinos. Dessa forma a mobilização interativa plena, segundo o autor, é praticamente inviável. As relações humanas hoje são entrelaçadas por redes, e não mais em comunidades.


O medo da intimidade é afinal, assustador.

Como paralelo é importante ressaltar que a "doença do século", como a psiquiatria mundial reporta, pode ser consequência desses novos moldes das relações sociais. Nunca se vendeu tanto antidepressivo, e a crescente (à níveis exponenciais) valorização de seu uso é no mínimo preocupante, já era muito antes da pandemia e hoje está alarmante, que dirá pós pandemia, visto que medicamentos como Rivotril, para ficar aqui no exemplo mais óbvio, demandam uso contínuo, dificilmente alguém simplesmente cessa o uso do dia para noite. Quisera fosse simples assim.

Hoje mais do que nunca estamos querendo evitar, de todas as formas, o sofrimento, buscamos a privação das emoções, e a razão disso aparentemente é por medo, seja de uma futura decepção, ou de carecer de inteligência emocional necessária para que o relacionamento funcione, e claro existem indivíduos que necessitam de auxílio medicinal, seja de Frontal, Lexotan, Valium, meu questionamento aqui vai para o seu uso indiscriminado e sem consentimento médico, e até mesmo ao "protocolo padrão", de sempre adotar uma metodologia de primeiro medicar, para em seguida ver como se dará a sucessão do tratamento. Remédios são necessários, porém por vezes a medicina pode se tornar pior do que a enfermidade em si. É importante termos em mente que vivemos num mundo demarcado pelas relações comerciais, então há sempre a expectativa de que para cada avaria, haverá uma solução disponível para a aquisição, dessa forma nossos medos se transformam em anseios, que viram potenciais mercados consumidores, e assim a indústria farmacêutica cresce em níveis estratosféricos, junto com o número cada vez maior de pessoas ou viciadas nos medicamentos, ou aptas para se tornarem.

Existe uma sinergia muito interessante quando dissertamos sobre o medo dentre as relações subjetivas e interpessoais e a percepção social perante ao jovem. Caso haja liberdade sexual, então há um preceito de libertinagem, porém caso haja um certo conservadorismo então logo se supõe um certo distúrbio. Fica claro a hipocrisia que aderimos quando o assunto engloba o que considera-se como a consequência do nível máximo de intimidade atingido, o sexo.

Sexo ocorre, em teoria, no conjunto íntimo máximo atingido entre os membros, sendo refém de uma ótica mais ortodoxa quando então se dispõe somente para o prazer finito do momento. Havendo exacerbação da libido perante exclamações pessoais, aliado à ideias retrógradas e estruturais, sob o espectro da atual visibilidade simultânea digital, tem-se então a retomada do debate arcaico sobre a exploração do próprio corpo, e com ideias moralistas debatem-se meios de conter a proliferação sexual nas faixas mais jovens. Porém não seria esse mesmo moralismo e julgamento, que estaria indiretamente criando um desconforto coletivo nos pilares familiares? Há o medo de se conversar sobre desejos e anseios pois entende-se que há carência de educação sexual, tanto pública quanto familiar, então mal se tem conversa. E caso haja propostas de debates públicos, o diálogo cai numa dicotomia entre intervenção estatal sob a infantilização, e a total inércia familiar de tratar o assunto, ocasionando traumas e mazelas sociais diversas. E nisso vemos um debate que soa mais como disputa por ideologização do que como enfrentamento da problemática, ou no caso, vontade para se combater a problemática.

Se há uma obra recente que explorou de forma muito precisa o grupo social que mais fica nesse "fogo cruzado" entre disputas no debate público, foi o longa de 2014, IT FOLLOWS, Escrito e dirigido por David Robert Mitchell. Na película de terror, camadas góticas e cinzentas assolam uma pequena cidade no estado de Michigan, onde nossa protagonista Jay, uma jovem universitária, após uma noite de sexo com o namorado, se vê perseguida por uma entidade nefasta sem nome. Toda pessoa que se relacionar sexualmente com Jay será perseguida e morta por essa criatura, assim como era com o namorado de Jay, antes dele "passar" a maldição. Importante frisar que o filme possui um elenco de protagonistas inteiramente jovem, e propositalmente, evitando assim um diálogo não condizente com as aflições para com seus personagens. Apesar de haver mil e uma figuras de linguagens presentes na obra, ela entende e sabe para qual público deseja se comunicar.

Após descobrir a maldição que carrega, Jay e seu grupo de amigos, passam a viajar pelo estado Michigan, sem rumo aparente, apenas fugindo, sem ter um objetivo fixo à vista.

O filme possui um interessante tom anacrônico, não sendo atrelado a nenhuma época específica, claro sabemos que estamos no século XXI, mas nunca é determinado especificamente a temporalidade do filme , o que enriquece a mensagem, do medo, das descobertas, das apreensões e fobias. Elas não passaram a existir hoje, e não deixarão de existir amanhã. Se hoje temos uma maior compreensão da existência e das consequências é mais uma razão para falarmos sobre. Seja por medo ou fragilidade emocional, seja por falta de discernimento educacional, ou até mesmo por um possível histórico familiar conturbado, nunca é cedo demais para falarmos sobre. De preferência que comecemos o diálogo para com nós mesmos, para que assim possamos levar mais a sério a inteligência emocional que tanto carecemos no atual cenário sócio-cultural.

E assim como Jay e seu grupo de amigos, talvez por hora só tenhamos como opção seguir em frente, hora ou outra necessitando fugir, mas sempre atento que a "coisa" pode estar mais próxima do que o esperado. Novamente, nunca é cedo demais para falarmos de certos assuntos, porém existem sim vezes no qual tratar um tema pode ser tarde demais.


Que ainda tenhamos tempo então... Para sentir, conversar, nos decepcionarmos, evoluirmos, chorarmos, e começar tudo de novo. Um eterno ciclo, porém sem jamais estar carecido de emoções verdadeiras. Já diziam os poetas : Antes sofrer do que jamais ter sentido.



“Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado para o mundo.”

ZYGMUNT BAUMAN



FONTES DAS INFORMAÇÕES TRAZIDAS NESTE ARTIGO (VALE A PENA A LEITURA):



https://infograficos.estadao.com.br/focas/tanto-remedio-para-que/checkup-5.php


https://vejario.abril.com.br/blog/manual-de-sobrevivencia-no-seculo-21/o-perigo-da-tarja-preta-durante-a-pandemia/


https://noticias.r7.com/saude/brasil-consome-566-milhoes-de-caixas-de-calmantes-e-soniferos-03072019


https://science.talknmb.com.br/industria-farmaceutica-ascensao/



Livro Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos (2003) - Zygmunt Bauman.