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  • João Bornhofen

COLUNA: CAFARNAUM X CARAMELO.

Atualizado: Mar 24



POR JOÃO GUILHERME F.B.


O Gigante acordou... E com ressaca e enxaqueca.


Façamos aqui uma retrospectiva. Eram meados de 2013. Era o assunto das redes. Era o plantão Globo diário. Era a razão por trás dos memes políticos de veracidade duvidosa. Era afinal, por 20 centavos. Era para tirar o PT do poder. Era por conta das pedaladas. Era pelo fim da corrupção. Era pelo bem do futuro do Brasil. Acima de tudo, era por um Brasil digno, autônomo e consciente. Não custa lembrar um ponto de coercitividade: de fato não era pelos 20 centavos. Caso fosse estaríamos em histeria, com um reajuste atual de 237,4 por cento (sim, eu contei) do que tínhamos de preço de passagem em 2013. Mas não estamos em histeria, não é mesmo? Talvez estejamos com falta de motivos.


Dilma foi golpeada, com facadas intensas e pontuais de uma mídia alarmista, a insurgência cada vez mais gritante de movimentos ultra conservadores mundo afora e um congresso muito disposto a atender às demandas empresariais, seja de banqueiros sonegadores ou até mesmo neoliberais ofegantes pelas monetizações do Youtube.


À cargo disso faço questão de deixar um necessário alívio cômico para manter a atenção do ouvinte: O pedido de impeachment foi aberto por autorização do hoje preso e na época presidente da câmara, Eduardo Cunha. Essa é a piada. Ao menos o hit “Show das poderosas” foi lançado no mesmo ano. Além disso tivemos obras oriundas desse período, que num futuro não tão distante virarão piadas entre os professores de história. Não vai ter golpe, documentário do grupo liberal, até então sem intenções partidárias (Risos), que se denominava pró Brasil: MBL (Outra piada que seria hilária se não fosse trágica), a ficção alucinante disfarçada de documentário de Petra Costa, Democracia em Vertigem e indo pro lado da ficção para realista tivemos Policia Federal: A Lei é para todos... só que não.


Fato é esse período conturbado da recente história tupiniquim serviu como marco social, mas acima de tudo como marco cultural. A sociedade demarcou para si própria, com a eventual ajuda de certos maniqueísmos empresariais e midiáticos, lados. E cada lado passou a adotar o livro de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, como bíblia.


E qual meu ponto com esse início muito convidativo aos amantes de Frontal e Rivotril? Que todos nós vamos morrer. De preferência uns antes do que outros, torcendo pela certeza Darwinista. E para darmos um necessário vislumbre positivista começaremos falando, claro, de Cafarnaum, filme de 2018, da libanesa Nadine Labaki, que também é atriz, escritora e produtora, além do vasto prestígio na academia internacional, nada à toa, vale lembrar.


Nadine antes de tudo, sabe trabalhar de forma exímia o micro espaço, e faz isso não ao isolar o macro, mas sim ao pensar o quanto o meio afeta o microscópico. Na trama , nosso pequeno de idade mas de gigante senso crítico, protagonista, Zain, com brilhantismo do ator de mesmo nome, decide abandonar a sua moradia e família, após ver sua irmã forçada a se casar. Ele por escolha adentra a miséria de sua região, ao ponto que tal escolha o distingue das demais crianças que ele encontra mazelas adentro. Em determinado momento o pequeno protagonista é condenado à prisão pelo esfaqueamento de uma pessoa. Ele decide então processar seus pais, por o terem colocado nesse mundo.


Note que o estado libanês, retratado aqui com um frieza quase documental, nos seus excessos de planos fechados, que lembram fotografias de Sebastião Salgado em sua fase mais intimista, e uso de planos longos e angustiantes , não surgem e não terminam com a jornada do protagonista. Toda a pobreza, a mazela, as estruturas desgovernadas da miséria aqui tratada irão perdurar anos após a conclusão dessa fase da vida de Zain.


Temos aqui o brilhantismo de Nadine, em não criar falsos paralelos entre o intimismo do personagem, com a problemática subjetiva do meio. Muito antes de Zain vir ao mundo o Líbano já era uma região desgraçada, e mesmo após a “libertação” do protagonista ao final , nada em si é alterado. A diretora não foge da exposição, porém ela sabe muito bem dosar a intensidade, nunca permitindo que o filme se torne um pornô de miséria. As imagens aqui presentes são fortes. São intensas. Mas acima de tudo, acontecem. Estão acontecendo agora inclusive. O filme em seu tom cinzento e soturna ilustra isso muito bem. O anacronismo do local se baseia em um mundo habitado por personagens complexos, independente de idade, que assim como na vida fora das telas possuem camadas cognitivas. Se em sua obra, O Cortiço, máxima do naturalismo brasileiro, Aluísio Azevedo decide propor reflexões sobre como o meio afeta o subjetivismo individual, aqui Nadine faz o contrário. Como o subjetivismo individual afeta a nossa percepção do meio. Toda a pureza de um arquétipo (a criança miserável) é desconstruída, e a partir dessa desconstrução passamos a sofrer dessa desconstrução, e com isso a nossa percepção não passa a ser somente com os olhos do protagonista, mas acima de tudo com o sofrimento. Não somente o sofrimento dele, mas o sofrimento. Nos colocamos à disposição da melancolia, nunca gratuita, mas sempre intensa e contínua. Em conjunto com um tom seco, quase morto, como o introspectivo dos personagens, e uma paleta de cor assustadoramente específica em sua solidão.


Cafarnau não é um filme extremo ou radical. Pelo contrário, ele muitas vezes cria uma desproporção da real gravidade, não só da situação do Líbano, como de qualquer região carente de estruturas político-sociais. Ele mostra até o limite do necessário narrativo. Acontece que aqui a narrativa é bruta e descomunal com o cinema tradicional, então há choque. O filme tem sim muito a dizer, e muito do que é dito incomoda. Porém engana-se quem analisa de forma puramente clássica-narrativa, e vê na obra apenas retratação do choque pelo choque.


Estamos sendo convidados, à uma distância não tão longínqua, a ver, ver o podre, ver a vastidão da mazela que permitimos atingir seu atual ápice. Troque o Líbano pelos Sertões Nordestinos, pelas regiões até então protegidas pela falecida Funai, ou mesmo pelas comunidades dos subúrbios cariocas. O que incomoda não é ver. O que incomoda é o filme acabar e a história, e tantos personagens como Zain , continuarem a terem suas narrativas vivenciadas. Nadine se nega ao escapismo. E quem não se comove ou credita a obra como irrelevante, como exposição gratuita, está de certa forma se negando a compreender. Infelizmente a maioria das pessoas não consegue enxergar além do que os olhos veem.


Retomo aqui a provocação solta no início do texto. Há tempos temos normalizado o absurdo. Hoje se algum individuo é esquartejado no centro da cidade temos a certeza que não faltarão celulares para registrar, porém pouquíssimos olhos, de fato, enxergarão o que está acontecendo. Se vivêssemos em um país minimamente sério faríamos um feriado ou nomearíamos como dia de luto nacional, em prol do falecido cidadão. Mas não. Balanço geral, Cidade Alerta, Brasil urgente e tantos outros não podem perder os altos pontos que atingem diariamente. De fato, nós perdemos a noção do absurdo. Quantos escândalos de corrupção aconteceram só nesse último trimestre? Quantos aconteceram somente aqui no município do Rio? E quanto irão acontecer até o final do ano? Pelo visto a meta anda sendo mirar nas estrelas e na eventual nota de 500 reais.

Talvez esteja nos faltando um olhar mais micro sob o macro. Olhamos o todo e com isso não olhamos nada.


Peguemos um cenário específico. O personagem Gigante, introduzido à nós no clipe “Minha Alma”, da extinta, porém jamais esquecida banda Rappa, produzido há 21 anos atrás.


O clipe em preto e branco já estabelece o paradigma social que a música busca ilustrar. Temos uma criança, negra, moradora de comunidade carioca. Claramente ele não entende os acontecimentos que de desenrolam durante o clipe. Mas ele não está ali para entender. Ele ainda não entende.


Quem faz as projeções somos nós. Nós sofremos por ele. Nós levávamos o peso da consciência social normativa. Fazendo isso estamos de certa forma limitando a nossa própria projeção do futuro dele. Assim como em Cafarnau, o meio não surgiu a partir da inserção do protagonista nele. Temos um garoto, que tem toda uma vida pela frente. Ainda lhe falta discernimento, noção de mundo. Ele já sofre com o caos, porém ainda não faz parte dele, apenas está inserido, de forma apenas passiva. Quando temos compaixão ou melancolia, ao pensarmos num possível futuro para Gigante, estamos automaticamente nos projetando como indivíduos, conscientes e empáticos perante a situação do garoto, de certa forma egoísta.


É ótimo desejarmos para ele um futuro digno, um futuro onde ele possa vir a ser pró ativo na luta contra a marginalização das diversas camadas sociais. É lindo imaginar o menino como um grande defensor dos direitos humanos, seguindo carreira jurídica ou atuando na área política, que sempre o enxergou como individuo à margem social.


Mas dessa forma estaríamos projetando nossos desejos na vida do menino. Não faz mal nenhum desejar o melhor, mas quem somos nós para definirmos que tipo de futuro o nosso alheio merece? Gigante pra mim hoje não vive num mundo perfeito. Ele não vive num mundo ideal, e possivelmente seus netos também não viverão. Não há lógica na idealização de um amanhã melhor, se para cada um o amanhã é uma especificidade. Se é possível me adentrar em um vislumbre de positivismo para a fictícia vida atual de Gigante, eu adoraria vê-lo integro, acordando todo dia buscando um amanhã melhor do que o dia anterior, tendo todas as possibilidade de ser feliz, e nunca lhe faltando ímpeto para seguir a sua felicidade. A sua própria felicidade.


Seja ela aqui para com o social, seja ela introspectiva e de caráter subjetivo. Seja fazendo o bem para seus semelhantes, seja sendo verdadeiro consigo mesmo e não buscando agradar outros para preencher certo vazio interno. Onde eu espero encontrar gigante hoje? Eu espero encontrá-lo, e poder trocar um segundo de olhar com ele, e num milissegundo saber que ele está na eterna busca. Seja ela qual for. Que ele nunca para de ser a sua própria bussola da felicidade. Talvez estejamos com as respostas certas, para as perguntas erradas.

A essa altura cair no piegas e consequentemente na galhofa já não me traz mais tanto desgosto. Afinal, estamos falando e analisando obras que nos agraciam com o coração de seus realizadores abertos. Não faria sentido não fazermos o mesmo.


Porém para terminar com um ar mais gracioso e com um certo ar comendativo gostaria de trazer novamente à luz da reflexão um filme anterior de Labaki: Caramelo.


A julgar pelo nome fica nítido a certeira escolha de arquitetar a obra de 2007 como algo doce, sutil e singular. E sendo bem honesto não menciono isso de forma pejorativa. Não mesmo. O exato oposto. É interessante pensar que a linguagem de análise do micro perante o macro é uma identidade narrativa da diretora, que aqui também atua, de forma precisa e sem invencionismos. Na trama acompanhamos as crônicas de cinco mulheres libanesas, cada uma com suas desventuras que se desenvolvem no decorrer do longa, narradas em seus encontros num salão de beleza, localizado em Beirute, porém a geografia nada afeta de forma intensa o desenrolar da trama.


Nadine novamente retrata um flerte com o anacrônico, com o atemporal. Se em Cafarnau havia a vastidão global da pobreza e da miséria, que por fins narrativos era contada no Líbano, mas que em nada centralizavam a trama num nicho geográfico, o mesmo acontece aqui. Porém trocamos a falência da sociedade pós moderna, por um tom de feminilidade, mas nunca se restringindo a narrar a história por conta de gênero. É um filme sobre adultos, feito por adultos e para adultos.


Isso não quer dizer que é um filme pré ingestão de Ritalina, pelo contrário, o tom do filme é sutil, gostoso de assistir, com um humor pontual, mas nunca distrativo, e atuações que de tão espontâneas beiram a expectativa promocional de uma possível franquia do salão retratado. A genialidade da obra é tratar seus personagens com dignidade. Sem filtrar um ou outro núcleo como mero recurso narrativo, as cinco mulheres não estão expostas como manivelas de juízos de valores. Elas são pessoas, e o roteiro as trata como tal, e a direção certeira garante que a feminilidade nunca se torne o requerido para a compreensão, apenas a característica singular, que propõe uma nova perspectiva, um outro jeito de nos olharmos, como indivíduos, e acima de tudo, sem maniqueísmos estéticos.

O tom sépia contribui ainda mais para a perda de especificidade temporal.

O quinteto composto por Layane, Nisrine, Rima , Jamale e Rose tratam dos mais diversos temas que acercam suas histórias. E apesar das diferenças ideológicas e como cada uma foi impactada e como impacta no meio à sua volta, elas nunca omitem eventuais desabafos e ensaios, sempre com uma verborragia que dá inveja à Woody Allen.


Há uma economia na distribuição do que é dito e mostrado, sempre mantendo uma gradativa crescente narrativa, que torna o carisma de cada uma das personagens mais evidente. Obviamente teremos a nossa empatia maior por personagem x ou y, porém duvido muito que o ouvinte tenha desgosto por alguma delas. O filme nunca exige que concordemos com tudo que é conversado, mas nunca cria juízo de valor perante o comportamento das personagens. São mulheres, que vivem perante o eterno choque cultural e geracional, e como cada uma enxerga o mundo à sua volta implica em como cada uma transforma os seus arredores, ao mesmo tempo que a convivência mútua implica na própria diversificação social.


Nadine tem em seu salão o micro espaço necessário para trabalhar o macro. Cada uma das personagens são por si só, um espaço macro, perante o salão, porém são micro perante Beirute. O salão agrupa os mais diversos cenários, por compor em sua atmosfera micro um agrupamento do coletivo, e não como forma de reducionismo narrativo, mas justamente como forma de amplitude demográfica. O roteiro implica na ideia de que a sociedade se torna, de fato, mais madura e responsável, não quando dissertamos com nossos compadres ideológicos, mas sim quando conversarmos com nossos opostos. A cor nunca muito saturada e jamais sobreposta, sempre mantém uma constante serena, diversa, e específica para cada personagem. Nadine disserta não sobre a massificação social, mas sim sobre a conjunção das mais diversas camadas. A subjetividade não se perde perante o meio, apenas se transmuta. e dessa transmutação podemos almejar um futuro menos extremista, e mais pluralizado.

Termino aqui minha dissertação concluindo então, sobre inconclusividade popular: Muito agrada quem pouco se manifesta.


Trato disto porque a diretora hoje aqui abordada incomoda. Seja pela compreensão da necessária verossimilhança em suas personagens, seja pela exposição do podre, sem medo de expor o que a aflige. Que continue a incomodar. É necessário e quase que obrigatório nos dias de hoje. Artistas sempre proveram do desgosto popular, porém nunca faltou incitação provocativa. E nunca poderá faltar. Tratando os que aqui, optam em seguir uma vida de silêncio, seja ele figurativo ou aplicável, confesso crer se tratar de uma assinatura do contracheque de estadia permanente no limbo intelectual, se limitando a dialogar apenas com a permissividade ortográfica. Nada além.


Caso eu morra por omitir dialéticas contraditórias perante o meio, seja ele do gado bolsonarista ou da lacração idiossincrática, ao menos não haverá lamentações no meu funeral figurativo. Vivo é quem morre almejando o limite da sua própria liberdade, e não se contentando em ser peça escravocrata do rugido popular. Gigante não é aquele que grita em aglomeração onde todos compartilham o mesmo ódio, e sim aquele que entende a força que seu som reverberado tem.


Maquiavel já dizia: “Como é perigoso libertar um povo que prefere a escravidão”.


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