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  • Jonathan Freitas

COLUNA: A CINEMATECA BRASILEIRA E A IMPORTÂNCIA DE SE PRESERVAR.

Atualizado: Ago 4

“O medo do esquecimento dispara o desejo de lembrar, ou é, talvez, o contrário?”

Andrés Huyssen..


Foto por: Rovena Rosa/Agência Brasil.


Durante sua trajetória em sociedade, o ser humano protagonizou uma batalha dinâmica entre o poder do esquecimento e a potência da memória. A cada segundo que se passa, o nosso presente se torna passado, e, simultaneamente, acionamos uma válvula para que, no futuro, possamos esquecê-lo. Neste exato instante, o fato de eu praticar a atividade de redator -e você a de receptor- das palavras que escrevo já é uma construção temporal de um momento que já se foi.


No decorrer de nossas vidas, a cada segundo que se passa, brincamos sobre a gangorra daquilo que chamamos tempo. O tempo vai e volta, passado e futuro, futuro e passado. Seu movimento é semelhante aos dos belíssimos e clássicos “relógios cuco”. Em meio a tudo isso, temos o presente, e, dentro desse espaço temporal, nos tornamos pessoas cada vez mais fascinadas por um lado dessa gangorra: o passado.

O passado encontra-se cada vez mais presente em nosso cotidiano, e, por vezes, já nos acostumamos a ver o antigo se tornar o novo. No setor artístico, por exemplo, seja na moda, no cinema ou em qualquer outra área, releituras do antigo tornam-se objetos contemporâneos de apreciação.


Todo esse fenômeno temporal vem sendo consolidado com o passar do tempo, abrindo mais espaço para que possamos questioná-lo. Afinal, esse fascínio e deslumbramento seria o principal fator para constantemente recorrermos ao passado?


No livro “Seduzidos pela Memória”, assinado pelo professor de literatura alemão Andreas Huyssen, encontramos uma ótima ferramenta para analisar esse fenômeno. Em um de seus ensaios, denominado “Passados presentes: mídia, política, amnésia”, o autor analisa o impacto sofrido pelos discursos sobre a memória a partir do Holocausto, ocorrido na Segunda Guerra Mundial. Huyssen discorre acerca do ritmo ganho por esses discursos a partir do ano de 1980 (quando ocorreu uma virada de chave), fazendo com que a atenção fugisse dos futuros presentes e focasse nos passados presentes. Durante o capítulo, Huyssen reforça como somos uma sociedade com medo do esquecimento, levando-nos a pensar em como precisamos relembrar o valor de lembrar, visto que, sem o passado, nos tornamos reféns de um futuro vazio.


“As próprias estruturas da memória pública midiatizada ajudam a compreender que, hoje, a nossa cultura secular, obcecada com a memória, tal como ela é, está também de alguma maneira tomada por um medo, um terror mesmo, do esquecimento.”

Andrés Huyssen em “Seduzidos pela Memória – Passados presentes: mídia, política, amnésia”. (Pág 19)


É de suma importância que não nos descuidemos diante do poder do tempo e da memória, pois podemos correr o risco de cair em um perigosíssimo limbo, o qual não permitirá que nos debrucemos sobre ambos. Isso pode vir a nos afetar tanto no âmbito psicológico e introspectivo, fazendo-nos criar um “luto” sobre algo extremamente valioso em nossa vida pessoal, quanto no âmbito social, tornando-nos em uma espécie incapaz de realizar uma autocrítica diante dos erros cometidos e aprimorar os acertos concretizados. Ou seja, ficamos limitados para assim moldarmos o nosso futuro, que até então é inexistente.


Uma famosa frase do filosofo George Santayana complementa bem o que estamos abordando.


"Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.”

George Santayana.


A partir desses pontos, conseguimos obter uma melhor reflexão acerca da importância da preservação da memória audiovisual. Sem esse ato, como iriamos resgatar as imagens do nosso passado? Uma parte gigantesca de nossa história em telas estaria fadada a cair no esquecimento. Um exemplo desse perigo pode ser identificado a partir de uma pesquisa realizada pela cineasta Fernanda Pessoa, que se dedicou a explorar a relação entre a censura da ditadura militar e a pornochanchada, um gênero cinematográfico que obteve bastante sucesso durante a década de 70 do século XX. A pesquisa da cineasta veio a gerar alguns projetos e um deles foi sua exposição “Prazeres Proibidos”, realizada em março de 2016. Em uma entrevista cedida à revista Vice, Fernanda conta como foi reunir o material para concretizar seu trabalho, verbalizando algumas falas que chamam nossa atenção.


“Só o que acontece é que muitos desses produtores não tinham muitas condições para catalogar essas películas, ainda mais que o material delas é uma coisa muito complicada de estocar. E a nossa história do cinema não tinha a noção de que era importante guardar isso para o futuro. São filmes difíceis de achar: não consegui encontrar nem metade do que eu tinha na minha lista. Alguns filmes, o Canal Brasil digitalizou; outros, consegui diretamente com o produtor. Porém, existem filmes inteiros que foram perdidos. Foi uma pesquisa muito longa e trabalhosa que durou quatro anos para reunir o que queria. Primeiro, tive de juntar todos os filmes que consegui achar. Uns, peguei na cinemateca do RJ; outros, no YouTube, já que teve gente que gravou alguns filmes que passaram na televisão e subiram lá.”

Entrevista de Fernanda Pessoa, cedida a Revista Vice e Realizada por Marie Declerca. Disponível em: https://www.vice.com/pt/article/d7gkkz/prazeres-probidos-fernanda-pessoa-pornochanchada-brasil.


As palavras da cineasta refletem bastante o assunto abordado até aqui: o perigo de nosso passado ser apagado. Só de pensarmos na possibilidade de uma obra cinematográfica deixar de existir, devemos automaticamente levar em consideração a importância do ato de preservar, até porque, devido à chacina cultural realizada pelo atual governo, vivemos tempos sombrios em relação a esse tema no Brasil. Nesse sentido, é extremamente necessário termos um olhar mais sensível às pessoas que dedicam suas vidas para cuidar desses patrimônios, pois elas são responsáveis pela sobrevivência de milhares de artefatos audiovisuais.


Esses trabalhadores, infelizmente, sofreram e sofrem até os dias de hoje com a imensa desvalorização de seu trabalho. Nesse sentido, é notável que ainda há um grande desconhecimento acerca da importância de se preservar, provavelmente porque essa atividade é algo recente na história da humanidade, tendo início por volta do final do século XIX. No Brasil, por exemplo, como apontado pela Preservacionista Audiovisual Ines Aisengart em seu excepcional texto “O profissional atuante na preservação audiovisual”, a ideia de se preservar foi tratada como piada em seus primórdios.


“No Brasil, a iniciativa pioneira provavelmente foi a criação de um setor para arquivamento de filmes educativos por Edgard Roquette Pinto em 1910, a Filmoteca Científica no Museu Nacional. Contudo, segundo Carlos Roberto de Souza (2009: 15), tal evento não pode ser confirmado, o que talvez se trate de um indício da falibilidade em preservar nossa própria memória insitucional. O mesmo autor (2009: 42) localizou o termo “cinemateca” na nota “Um Conservatorio de Films”, publicada na revista “Eu Sei Tudo”, em 1923. A consciência da importância da preservação e da criação de uma instituição de guarda é registrada em editorial da revista “Cinearte” em 1929, sobre o então recém-criado Museu Cinematographico nos Esados Unidos, com o comentário de que esta iniciativa no Brasil seria recebida com gargalhadas (Cinearte, 1929).

Ines Aisengart, em Museologia & Interdisciplinaridade v. 8 n. 15 (2019): Dossiê: Cinema, museu e patrimônio. (pág 87)


E esse é apenas um dos diversos problemas que nossos profissionais precisam enfrentar. Temos, ainda, uma imensa falta de infraestrutura, que se torna uma complicação redobrada em um país com uma densidade demográfica como a do Brasil. Além disso, possuímos uma escassez de espaços para a distribuição de conhecimento da área e vivenciamos uma série de impactos econômicos negativos sobre o setor audiovisual.

Tudo isso compõe apenas uma pequena fatia do imenso bolo de dificuldades impostas aos nossos guerreiros. Infelizmente, ao vermos os trabalhadores da Cinemateca Brasileira ficando meses sem receber salários e todo o desmonte que vem sendo realizado sobre a nossa principal entidade de preservação audiovisual, fica mais nítido como algumas cruas e tristes realidades se perpetuaram com o tempo.


Precisamos dar muito valor à Cinemateca Brasileira e a todos que a compõe, pois ela é responsável por receber e preservar quase todo o material que compõe a nossa trajetória audiovisual até aqui. Lá, tudo é preservado, desde a película do filme até os subprodutos que se relacionam com a filmografia nacional - como, por exemplo, cartazes, notícias de jornais, entrevistas, informações sobre as obras e muito mais. Pode-se acrescentar que seus cuidados vão além do setor cinematográfico, pois obras televisivas e publicitárias também são armazenadas na Cinemateca Brasileira.


E isso é apenas um pequenino resumo de suas inúmeras funções. Tudo acervado nesse local é o registro de uma época, do ontem e do hoje, e como Huyssen nos levou a refletir, não podemos permitir que nossa memória caia no esquecimento. Uma obra audiovisual carrega consigo conceitos, auras e identidades, quanto maior for nosso cuidado sobre ela, melhor suas ideias vão sobreviver ao tempo - sejam ideias positivas para agregar ou negativas para aprendermos com os erros. Além disso, a preservação impede que o tempo destrua as nossas grandes criações, que merecem ser apreciadas por todas as gerações que estão por vir. Arquivar é muito mais do que simplesmente guardar um rolo de filme sobre uma prateleira, e as cinematecas são a alma que mantém isso de pé. A Cinemateca Brasileira é nossa, do nosso povo, e é um templo da nossa cultura, que merece ser reconhecida e valorizada por todos.


Abaixo, deixarei alguns links para os que desejam se aprofundar no assunto e acompanhar a atual situação da Cinemateca Brasileira, juntando-se a essa batalha pela resistência do nosso cinema.



Para entender a atual situação da Cinemateca Brasileira:


Cine Limite – A preservação audiovisual no Brasil e a crise da Cinemateca Brasileira: O elo perdido na cadeia do audiovisual. – Escrito por Ines Aisengart Menezes.

https://www.cinelimite.com/post/a-preservacao-audiovisual-no-brasil-e-a-crise-da-cinemateca-brasileira-o-elo-perdido-na-cadeia-do-audiovisual


Manifesto – Cinemateca Brasileira – Patrimônio da Sociedade.


Manifesto dos trabalhadores da Cinemateca Brasileira.

https://www.instagram.com/p/CNkWm4-gK-Z/



Para acompanhar a atual situação da Cinemateca brasileira:


Instagram @soscinematecabrasileira.

https://www.instagram.com/soscinematecabrasileira/


Canal “Cinemateca Acesa”.

https://www.youtube.com/channel/UCfdfykXGIrqTGJuZ9uxTi6Q



Sobre a história da Cinemateca Brasileira:


História da Cinemateca.

http://cinemateca.org.br/historia/


Curta-Metragem: Cinemateca Brasileira - Dirigido por Ozualdo Candeias



Texto por: Jonathan Freitas.

Revisão por: Laura Bloise.

Foto de capa por: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Um agradecimento especial para a professora Katy Navarro.


FONTES:


Seduzidos pela memória - Passados presentes: mídia, política, amnésia, – Escrito por Andreas Huyssen.

https://cei1011.files.wordpress.com/2010/08/seduzidos-pela-memoria-andreas-huyssen.pdf


Super Abril – Frase da semana: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. – Escrito por Tânia Vinhas.

https://super.abril.com.br/blog/superblog/frase-da-semana-8220-aqueles-que-nao-conseguem-lembrar-o-passado-estao-condenados-a-repeti-lo-8221/


Vice – A exposição ‘Prazeres Proibidos’ revisita a censura dos filmes de pornochanchada durante o regime militar brasileiro, – Escrito por Marie Declercq.

https://www.vice.com/pt/article/d7gkkz/prazeres-probidos-fernanda-pessoa-pornochanchada-brasil


Museologia & Interdisciplinaridade v. 8 n. 15 (2019): Dossiê: Cinema, museu e patrimônio. – O profissional atuante na preservação audiovisual – Escrito por Ines Aisengart Menezes.

https://periodicos.unb.br/index.php/museologia/article/view/24668/21845