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  • Bruno Madeira

COLUNA: A VILA, E A LIÇÃO DE PERDÃO NO CINEMA.

Atualizado: Abr 8

Dentre as ações sociais e de convivência humana existentes, há um tipo de comportamento extremamente prezado e necessário a nossa civilidade que muito raro se adquire. Comportamento esse que dificilmente se reverte, porém que muito se pesa ao traçar um rumo digno e ideológico a nossas vidas. De fato um comportamento essencial: o perdão.

A VILA, filme de 2004 de M.Night Shyamalan, definitivamente propõe um amplo diálogo e amplo questionamento dos quais tentarei me aprofundar durante o texto. No entanto, seu principal diferencial em minha experiência como espectador, foi a capacidade de me gerar a distinta e tão prezada semente do perdão ao assisti-lo. Semente essa, que me fez especificamente perdoar o próprio filme em suas falhas, ou mesmo em supostas falhas. Uma semente que me fez ressignificar momentos de profunda decepção quanto a obra, ou mesmo me questionar sobre o como eu via cada um dos assuntos abordados - cada cena, cada fala, cada plano e cada elemento. Que demos início ao enredo!


Como disse, A VILA é uma obra de vasta camada dissertativa - certamente tendo como se obter ao menos dúzias de densos questionamentos gerados pelo filme - no entanto, a trama em si é bem simplista, prezando pelo minimalismo e uma abordagem que por vezes se torna até clichê. De forma básica, o enredo conta a história desta vila cercada por uma floresta, onde todos vivem a base da simplicidade; da lavoura, do trabalho doméstico, dos sindicatos, dos tradicionalismos, e também do constante medo de supostas criaturas residentes da floresta, possuidoras dum questionável pacto de paz com os moradores, os poupando de atrocidades contanto que eles não atravessem a floresta e se mantenham apenas na vila. Simples e direto. É claro que o pouco que já descobrimos dessa sinopse, logo no início do filme, já nos concede suficiente pano para manga, onde qualquer espectador meramente atencioso já pode fazer ligações entre: os costumes sociais, as vestimentas padronizadas, o estilo educacional e as tradições comemorativas: a uma clara alusão (crítica) as religiões, a religiosidade, os dogmas, ou mesmo aos tipos de cultos e sociedades baseada nos medos e nas repressões. Sim, isso nos fica bastante claro como uma primeira impressão durante toda a metade do primeiro ato do filme. Nos fica claro, porém a abiu direção e roteiro acaba sendo tremendamente eficaz em transformar essa nossa possível certeza, em uma leve e gostosa dúvida: Seria esse filme mais voltado para realmente uma mitologia de ar fantástico e ficcional - com aquela pontada alegórica ao fim de tudo, como de costume na filmografia de Shyamalan? Ou seria este apenas um filme que se usa dos artifícios ficcionais criado pelos personagens, para mostrar a perversidade e total falta de fantasia perante o enredo - como um real discurso de crítica e engajamento a tal comportamento? Não se tem como dizer e esse é o interessante perante o inicial decorrer da obra; quanto mais o primeiro ato avança, mais a construção dos acontecimentos vão gerando infinito pano pra manga. Logo uma crítica que era direta a "religiosidade" e suas órbitas, passa rapidamente a se tratar do poder e as diversas facetas da ignorância; o povo é domesticado, o povo é atormentado, o povo é alienado e com isso ele logo se torna ignorante. A ignorância, conforme acompanhamos na construção conceitual do filme, claramente se dá como um comportamento completamente calcado nas restrições e imposições alheias. Um comportamento que somente a base de terceiros é capaz de existir, sem essas restrições jamais um ser livre seria ignorante, pois a necessidade de respostas nos motiva a questionar, e o questionar logo nos motiva a buscar - isso podemos ver claramente na cena escolar; a jovem que impõem seus questionamentos, caso não houvesse sido contida, logo em breve já estaria a buscar por suas respostas.

Maravilhoso, perfeito, o segundo ato se inicia e logo as coisas começam a mudar um pouco (indo de mau a pior); a trama parece sofrer de certos lapsos comunicativos repentinamente, e vez por outra o tema parece se perder, o filme parece não saber pra onde quer ir mais, tão pouco o que quer falar. Os discursos que eram pertinentes - porém não impositivos - acabam por perder sua validade, e em meio a certos acontecimentos específicos - como a verdade sobre as criaturas, e os motivos todos daquela sociedade - o que havia de mais precioso em A VILA; a subjetividade diante dum discurso tão forte e bem construído; subitamente some, e antes que eu pudesse perceber lá estava eu: as margens do terceiro ato, revoltado com as escolhas do filme, decepcionado com o sumiço de um potencial tão grande que se vinha construindo em mim e fortemente intrigado.


Minha intriga não era em vão. Nem um pouco. Apesar dos rumos não se traçarem como esperado, ainda havia o que se deleitar. Ainda havia se formando na trama a nova faceta dum ideal de utopia que se mostrava presente, junto a vertentes leninistas que nos proporcionam perguntar: até que ponto uma privação social em nome dum bem maior é aceitável ou não no espectro duma maioria? Eu podia ter perdido uma das minhas principais empolgações ao ver o filme: a sempre genial atuação de Joaquin Phoenix; no entanto, ainda me tinha aquela pitada de questionamento que fazia-me vidrar os olhos a obra, e ainda sempre ressignificar. Ressignifica-la por inteiro. Como disse mais cedo, havia um motivo para perdoar, e de fato era um ótimo motivo. O cinema é uma das muitas artes da ficção capaz de iludir, e ainda uma incrível arte sobre o enganar, possível de atingir todos os sentimentos de nosso interior; sendo assim, Shyamalan cumpriu perfeitamente seu trabalho. Além de me enganar; mostrando que o filme não era sobre uma alegoria ficcional, sobre uma mitologia fantástica, sobre a critica religiosa, ou ainda sobre as variantes duma anatomia da ignorância; ele me pôs aos prantos numa narrativa primorosa, mostrando que o filme é sim sobre tudo isso. Tudo junto e ao mesmo tempo. Mas principalmente sobre o ego humano e nossa falsa concepção de ideal. Nenhuma pessoa é feita só de um pensamento, nenhuma sociedade é apenas feita de um ideal, nenhum filme possui apenas um discurso.

A VILA me ensinou a perdoar a própria obra A VILA. Me fez aprender a perdoar os filmes e não me prender jamais a uma visão univalente de mundo. Aliás, o cinema nada mais é do que o reflexo do mundo interno e externo em nós mesmos.


Perdoe!