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  • Bruno Madeira

COLUNA: A AMBIVALÊNCIA NA OBRA "MAUS HÁBITOS".

Atualizado: Abr 9

Muitas vezes me pego assistindo um filme sem a mínima das pretensões – algo que de fato não é ruim – apenas incumbido de me entreter e apreciar uma boa peça cinematográfica; longe daquele sentimento – que por mais satisfatório que também seja – se é completamente direcionado, de quando me proponho dês do início a escrever ou dissertar sobre uma obra como crítico que por vezes considero-me ser. Esta seria minha experiência com MAUS HÁBITOS (ou pelo menos era pra ser): puro entretenimento e despretensão. Mas bem, aqui não me encontro escrevendo atoa; creio que assim como eu, muitos de vocês certamente sabem do potencial, das habilidades, e mesmo das peculiaridades deste fantástico diretor que é o Almodóvar, capaz de influenciar e mudar as ideias de qualquer um que o aprecie em poucos minutos de obra. E assim foi comigo. Eu que de princípio apenas procurava uma distração para acompanhar o almoço, me vi inteiramente encantado a trama, deslumbrado pelos personagens, e mais uma vez eternamente apaixonado por este distinto diretor espanhol.

Costumo nessa parte do texto dizer "a trama é simples..." e então descrevo de forma rasa um tipo de sinopse criada por mim. No entanto, este não é o caso, aqui a trama não é nem um pouco simples (flertando com o surrealismo, o realismo fantástico e a própria psicodelia), se apropriando ainda de diversos recursos subconscientes para nos propor um diálogo que jamais é dito, mas apenas subentendido. Sendo assim, prefiro não expor a quem jamais viu o filme todas as suas facetas, e nem a quem já viu reafirmar seus ocorridos. Irei além, tentarei por meio desses combinados de letras chamado palavras, refletir um pouco sobre o que em si Almodóvar tende a dizer ao meu ver em sua obra, e desse modo traçar uma discussão que transcende a arte, e adentra a vida.


Se tem algo que somos facilmente capaz observar, seja na sociedade, nos filmes, na vida e em tudo que nos cerca; certamente é que nada nesse mundo é univalente. Nada é uma coisa só. O preto não é só preto, o branco não é só branco, o mau não é só mau, nem o bom é somente bom. Mesmo nos extremos dos extremos, sempre há uma linha tênue que nos faz mais do que arquétipos singulares. Todos nós sabemos disso – consciente ou inconscientemente – por mais que tentemos negar. Mesmo quando prezamos por seguir um caminho que pareça único, sempre terá desvios, sempre haverá bifurcações. Nos é impossível querer estar sempre pesando somente a um lado da gangorra – ainda que queiramos –, ao fim o balanceamento sempre vem ao nosso encontro: A vida nada mais é do que isso – um eterno balanceamento –, por vezes caímos, por vezes levantamos, no entanto sempre buscando um tipo de estabilidade no equilíbrio.

As freiras (aqui me referindo a um senso geral) podem facilmente ser vistas como um símbolo sagrado; seres iluminados que abdicaram do mau e se apossaram de um eterno encargo de não se desvirtuarem. Já as "putas" (e uso esse termo chulo propositalmente) claramente são vistas como a escória da sociedade; aquelas que negaram qualquer dádiva da vida e se rebaixaram ao imperdoável status de pecaminosas. Sendo assim, tanto as freiras quanto as putas, elas sim são o yin yang do mundo: a coexistência quase fatal do extremo "bem", e do extremo "mal" que muitos se negam a misturar, mas que somente existem dependendo uma da outra.


Neste incrível filme de 83, podemos ver um dos conventos cristãos mais saudáveis moralmente, mais atrativo, e mais contraditório á aqueles que não concebem o equilíbrio do mundo. Aqui as freiras são assassinas, drogadas, pecaminosas, erógenas, homoafetivas e muito mais. O padre é um assíduo fumante, se apaixona por devotas, vive despojado e em vida devassa. Todos aqui tendem para um lado onde os moralistas certamente repreenderiam, e segregariam veementemente da suposta moral cristã – como que negando esta coexistência mais que natural de nosso mundo, onde nada se é na verdade, o que é dito realmente ser. E a verdade é que não há verdade notória, todos nós possuímos nossos ideais e nossas peculiaridades, e por mais que tentemos nos manter fies a esses estigmas, sempre precisamos de um refúgio – de uma pausa. Nem só de celibato vivem as freiras, e nem só de frenesi vivem as putas, em todos e em todas existe uma bela miscigenação de aspectos que nos torna quem nós somos: essa unidade particular e insubstituível que compõem o nosso ser.

Em certo momento da trama, "madre superiora" – uma de nossas protagonistas, diz: "Deus não morreu na cruz pra salvar os santos, e sim pra redimir os pecadores". Não há porque reafirmamos estigmas falsos de univalência e moralismo, isso é hipocrisia. Libertemo-nos; sejamos de fato essa bela vitamina miscigenada de variados aspectos que nos preenchem. Pecaminosos que se salvam, e anjos que pecam. A vida é muito curta para tentar se ser só uma coisa; sejamos o mundo todo num corpo só.