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  • João Bornhofen

COLUNA: CIDADE INVISÍVEL (NETFLIX, 2021)

Atualizado: Abr 8

E como o essencial continua sendo invisível aos olhos, até porque a maioria das pessoas não enxerga além do que os olhos veem.



"Invisible City" é para os fracos. Me recordo muito bem da máxima do contrário ser sempre usada à exaustão: Sempre tínhamos um nome em português e sempre falávamos em inglês para referenciar a obra gringa. Não mais! Temos finalmente uma série de alcance nacional, em que de fato há nobreza em suas intenções nacionalistas. Carlos Saldanha (Saga Era do Gelo e Rio) honra o legado das nossas raízes ,não em trabalhar o típico "enlatado" Brasil/EUA, como fez em Rio (2011), mas em exaltar o significado da presença das mais diversas figuras místicas oriundas da miscigenação brasileira, e entender que para cada indivíduo que cresceu ouvindo histórias da Cuca, Iara, Curupira, Saci e cia, cada personagem possui seu significado inteiramente subjetivo. É Cidade Invisível. É nosso! Feito pela gente para a gente. Só por isso já valia a apreciação, mas Carlos, como produtor executivo, vai além do previsível e nos entrega uma das melhores obras que o Netflix já produziu.


A plataforma nunca foi estranha às nossas produções seriais : tivemos a excelente Samantha!(2018), o instigante Mecanismo (2018), até como propostas mais experimentais como Onisciente(2020) e apostas ousadas como 3% (2016), que inaugurou a safra de conteúdos nacionais na plataforma, porém há em Cidade Invisível um notável esforço em, não somente transpirar cultura brasileira como mera consequência de excessos ,à exemplo da tediosa série dramática "nacional" Coisa Mais Linda (2019), mas em abraçar o que faz dessas figuras tão importantes para o contexto em que foram criadas.

A série, dividida em capítulos, mas que no panorama geral soam mais como um "longo" longa metragem, visto que a série mantém um foco muito específico em seu protagonista, Eric ( Marco Pigossi), e na busca por sua desaparecida esposa, enquanto figuras mitológicas começam a flertar com seu espaço, levando nosso protagonista a questionar tudo e todos ao seu redor. A sinopse é sim das mais genéricas, porém isso pode servir como convite aos mais desatentos.

O roteiro é muito eficaz em sua contingência narrativa, entregando uma leva de reviravoltas muito interessantes, tendo como grande mérito não usar as figuras folclóricas apenas como plano de fundo fantástico, mas integrando-as diretamente com a história e com o protagonista, dando espaço para que cada personagem brilhe em toda a sua forma, e a cada nova apresentação é garantido um banho de nostalgia.

Chega a ser incrível a nuance criativa perante a inserção das criaturas folclóricas vivendo no nosso meio urbano, seja a Cuca gerenciando uma boate, ou o Saci como jovem malandro de bom coração, nunca nos questionamos sobre a falta de verossimilhança, porque de fato há uma contextualização sutil mas muito incisiva perante às razões nas quais cada ser fantástico age, sempre havendo respeito para com o material original, mas jamais sendo tradicionalista em excesso.

Não importa como você cresceu imaginando Saci, Curupira ou Iara. Todos eles possuíam características singulares a ponto de atraírem a atenção do público infanto-juvenil , mas com variações regionais suficientes a ponto de exaltarem brasilidade independentemente de como cada criança imaginava-os. É um deleite vermos tais criaturas tão bem representados, tanto na escolha certeira do casting, como também na inserção que cada personagem possui na trama principal, nunca sendo subutilizado a ponto de personagem x ou y serem apenas um cameo ou easter egg, assim como a trama nunca gira em torno do saudosismo tedioso.

Existe uma trama muito bem amarrada que mantém o foco do inicio ao fim, mesmo havendo eventuais momentos que o ritmo acaba desacelerando em prol da apresentação do lore ou de eventuais sub-tramas, que começam parecendo desnecessárias, até que entregam seu complemento no plano geral da história.

Os 7 episódios deixam um gostinho pesado de "Quero-Mais" quando os créditos finais nos alcançam, seja pela vontade de vermos mais deste universo fantástico e quais criaturas Carlos Saldanha e sua equipe guardam para nós, ou no quão rápido os episódios de média 35 minutos passam, consequência de uma edição de ritmo tão ágil quanto suas micro narrativas.

De qualquer forma o gosto que fica ao final do dia é que estamos voltando de um sítio no qual visitávamos muito quando éramos crianças, mas que perdermos o contato e repentinamente fomos convidados a voltar, depois de anos de ausência e quase de completo esquecimento da existência do sítio. O que posso dizer à vocês, caros leitores: como é bom estar de volta, quisera eu nunca ter deixado de visitar o bendito sítio, mas sorte à nossa agora termos, mais do que nunca, a melhor das razões para voltar.



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