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  • Jonathan Freitas

COLUNA: CINEMA E FUTEBOL, O ESCAPISMO ENTRE AS QUATRO LINHAS DA SÉTIMA ARTE.

Atualizado: Abr 2

A poesia com os pés sobre as linhas do campo formula os traços do sorriso de uma nação. O futebol e o povo brasileiro formam um casamento inseparável, constroem juntos uma união que transcende o que podemos considerar como paixão. Entre o suor que escorre em campo e os gritos ensurdecedores da arquibancada, entre o choro dos derrotados e o sorriso dos campeões, é simplesmente uma mistura de sentimentos complexa, incontornável e, em muitos momentos, inexplicável.


Entre o passado, o presente e o futuro, o futebol se tornou o piloto número um da espaçonave que guia a cabeça dos brasileiros para outro planeta. Neste universo, os problemas de milhões de vidas desaparecem quando o árbitro assinala o início da partida e o objetivo se torna apenas um: ser a avalanche que irá empurrar o seu time do coração rumo a vitória.


Diante de um fenômeno tão grandioso como esse, seria impossível sua beleza, suas peculiaridades e suas reflexões fugirem dos olhares e das lentes da sétima arte. Afinal, ao combinarmos futebol e cinema, temos uma magnífica pintura de uma arte que, por muitas vezes, é escapista, registrando o escapismo proporcionado pelo futebol


Viajemos no tempo até o ano de 1962, quando houve o lançamento mundial do clássico “Garrincha, Alegria do Povo”, dirigido pelo brilhante Joaquim Pedro de Andrade. No filme, o cineasta documenta o auge e o cotidiano de um dos maiores futebolistas que já pisou neste mundo, o eterno e maior ídolo da história Botafogo, Garrincha, o Anjo das pernas tortas.



A magia reproduzida pelos seus dribles desconcertantes é encantadora, sua simplicidade ao jogar descalço uma simples pelada sobre o chão de barro é cativante e seus movimentos dentro de campo eram a arte em sua mais pura essência. Acompanhar esse lindo pedaço da trajetória desta lenda é de preencher de felicidade o coração dos amantes futebolísticos. Porém, obviamente, um filme conduzido e enquadrado pelo mestre Joaquim, não iria nos entregar apenas uma belíssima válvula de escape. A professora de comunicação visual Maria do Socorro Silva Carvalho nos entrega uma excelente percepção sobre a obra no livro “História do Cinema Mundial” de Fernando Mascarello.


“Esse documentário era um pretexto para mostrar o povo brasileiro em sua variedade de rostos, expressões, gestos e sentimentos proporcionados pelo futebol. O elogio à simplicidade e ao talento do jogador estende-se ao Brasil, visto principalmente pela qualidade de seu povo. As cenas finais acompanham as pessoas saindo do estádio – torcedores, ambulantes, policiais – até deixá-lo vazio. A seguir, vê-se a multidão enfrentando trens cheios para chegar aos subúrbios, distantes locais de moradia do povo pobre que lota os estádios a cada jogo. Logo, tudo recomeça. Novo jogo, outra vez as pessoas dirigindo-se às arquibancadas, o estádio cheio, as satisfações e angústias do jogo, as esperanças depositadas nos ídolos. Assim, o torcedor reabasteceria suas forças a cada domingo, para conseguir repetir na vida diária o ritual da ida ao trabalho para garantia da sobrevivência. O filme sugere que o futebol é, na verdade, uma fuga dos dramas cotidianos ou, ainda, uma manifestação da "desesperada alegria do povo brasileiro", como afirmou Glauber Rocha (1963, p. 124).”

Maria do Socorro Silva Carvalho, em História do Cinema Mundial de Fernando Mascarello (Pág 295).


É nítido que, em nossas vidas, o escapismo se tornou um vício devido a todo o caos que enfrentamos diariamente. Hoje, é extremamente difícil imaginarmos uma sociedade que não venha a formular suas próprias formas de fugir da realidade. Como já dizia o pai da psicanálise, Sigmund Freud, é impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem nenhum mecanismo de fuga.


Diante deste contraste sensorial - entre o flutuar nas nuvens dos nossos prazeres e o pisar sobre o nosso inferno cotidiano - temos o cinema acompanhando estas relações e nos apresentando esses fenômenos através de diversos olhares e histórias.


Se dermos um salto em nossa linha temporal e formos até 2006, encontraremos o lançamento de uma das maiores obras da trajetória de nossa filmografia nacional, “O Ano em que Meus País Saíram de Férias”, dirigido por Cao Hamburguer. O filme busca retratar o ano de 1970, durante o qual nosso país se encontrava preso nas garras da monstruosa e sanguinária ditadura militar brasileira.



Nesse longa, o futebol funciona como uma exímia ferramenta narrativa e muito do que já foi dito nessas linhas é retratado durante a trama. Em determinado momento do filme, observamos os membros do Partido Comunista Brasileiro dentro de seu “esconderijo” comemorando em êxtase as vitórias conquistadas pela lendária seleção brasileira daquele ano.

É interessante como, pelo menos naquele breve instante, a paixão pelo esporte foi tão ensurdecedora que os corações e mentes que habitavam aquele local se deslocaram de suas atmosferas e voltaram todas as suas energias e olhares para a telinha da televisão.

Porém, a cruel realidade batia constantemente na porta de cada um deles e o filme faz questão de deixar isso nítido, quando em poucas cenas após essa citada, esses mesmos seres-humanos que vibravam com os gols de Pelé são reprimidos, espancados, expulsos daquele ambiente e, consequentemente, presos pelos militares.

Outra ocasião na qual esse choque se mostra bastante impactante acontece no desfecho da obra, quando Mauro – o protagonista do filme – vai até a lanchonete de seu bairro assistir à final da copa do mundo. No estabelecimento, vemos um belíssimo clima de festa, principalmente quando a seleção brasileira amplia o resultado da partida ao marcar o segundo gol. Enquanto o garoto celebra com sua melhor amiga, vemos como a camisa canarinho tem o poder de espalhar os mais sinceros e espontâneos sorrisos naquele espaço.

Infelizmente, essa alegria fantasiosa não representava a realidade que o nosso pequeno protagonista viria a enfrentar. Ao sair do local que, talvez, seria o palco do dia mais feliz de sua vida, o jovem volta ao “mundo real” e caminha pelas ruas em direção ao inesperado reencontro com sua amada mãe. Após esse momento de grandes emoções, o jogador Carlos Alberto Torres, mais conhecido como Capita, levanta a tão cobiçada taça da copa do mundo, fazendo com que o povo brasileiro comemore em todos os cantos do país. Enquanto isso, Mauro prepara-se para ser o próximo exilado de sua terra natal.


Pensando nestes aspectos que abordam a obra de Cao Hamburguer, é interessante questionarmos até onde esse escapismo é saudável e não perigoso. Não podemos nos esquecer que a copa do mundo de 1970 foi utilizada pelos militares como uma ferramenta para tentar legitimar o regime militar e propagandear o ufanismo. Afinal, seria impossível arrancar essa memória de nossas cabeças, já que a ex-secretária da cultura do governo Bolsonaro, Regina Duarte, fez a barbárie de minimizar a ditadura de 1964 e cantou, em rede nacional, o tema da copa de 1970 (denominado de “Pra Frente Brasil”), debochando das mortes ocorridas durante aquele período de trevas e assinalando que não devíamos olhar para o passado.



Talvez, se não utilizarmos o conceito de “Estetização da Política” -elaborado pelo filósofo Walter Benjamin- em sua totalidade (pois possui grande complexidade e profundidade para ser resumido em um quesito específico), mas tentarmos aplicar uma pitadinha dele sobre o escapismo futebolístico, podemos obter uma melhor compreensão desses possíveis perigos. O doutor em ciências sociais Paulo Niccoli Ramirez, um vasto conhecedor da obra de Benjamin, aborda um pouco sobre este conceito em um vídeo chamado “A Estética do Cinema por Walter Benjamin”, publicado no canal do youtube “Casa do Saber”. No vídeo, Paulo explica, a partir da teoria de “Estetização da Política", como os recursos técnicos podem ser utilizados para a promoção de uma obra, revelando a tentativa de deixar a realidade mais bela para o povo que a consome, porém, por debaixo dos panos, acobertar fins e interesses políticos que visam transmitir o caos e a destruição. O doutor chega até a utilizar a primeira cerimônia de abertura das olímpiadas da Alemanha nazista como um exemplo, abordando a forma como o cinema nazista inovou-se e trouxe técnicas extremamente bem executadas para embelezar uma realidade que não existia.



Se envolvermos o futebol dentro do espectro da arte, podemos afirmar que o esporte era utilizado para transmitir uma mensagem que não transparecia a realidade brasileira daquele período, buscando desligar a cabeça da população e estimular o patriotismo e o militarismo da ditadura. Ou seja, o futebol era a própria ferramenta de propaganda. Podemos analisar essa “pitada” de Walter Benjamin para entender os perigos que esse escapismo pode nos trazer.


Outra obra que exemplifica a fuga do realismo dentro das quatro linhas e que nos ajuda a reforçar ainda mais a importância do cinema nessa trajetória de explicitar os fatos, é a recente minissérie documental “Doutor Castor”, produzida pela Globo Play e lançada no começo de 2021.


Foto: Folhapress.


Em sua trama, o documentário nos entrega a vida de um dos personagens mais peculiares da história do Rio de Janeiro, o famoso bicheiro Castor de Andrade. O contraventor utilizou o futebol e o carnaval carioca para limpar sua imagem e ser aceito socialmente, conseguindo, durante o século XX, ser, simultaneamente, um grande criminoso e uma figura pública.

Castor foi responsável por financiar, com o dinheiro do jogo do bicho, a equipe do Bangu Atlético Clube, fazendo com que um time pequeno do subúrbio carioca competisse de frente com as maiores potências do futebol brasileiro de sua época.


O que nos chama atenção, é como um criminoso corrupto, envolvido em diversos assassinatos, se tornou ídolo eterno do time de futebol do Bangu, do bairro de Bangu e da escola de samba Mocidade de Padre Miguel. O mais interessante é que esse amor surge desse “efeito” abordado até aqui, o Castor entregava o método de fuga da realidade que o povo tanto clamava, realizando isso através das duas maiores paixões do povo brasileiro.


Os torcedores banguenses jamais esperariam presenciar aquela equipe da década de 80, até porque provavelmente nunca mais terão a chance de “sonharem acordados” vendo seu time do coração jogar daquela forma. Não existe nada que justifique os crimes cometidos por Castor de Andrade, mas quando assistimos às imagens daquele período e escutamos os relatos dos que vivenciaram tudo aquilo, conseguimos ao menos compreender o porquê de ele ser tão amado nesses universos. Como é dito durante a série, a visão do morador da zona oeste – região onde se encontra uma grande parcela das massas – sobre o Castor é totalmente diferente do vivente da zona sul. Ele foi uma figura de extrema importância e um ícone dentro do mundo carnavalesco e do Bangu. Formulou uma equipe simpática que conseguiu unir a maior parte das torcidas cariocas durante seus anos de glória.

Se Castor de Andrade realmente amava o futebol e o povo que o envolvia, jamais saberemos. Alguns acreditam com muita convicção que sim e outros discordam. No entanto, acredito ser um fato incontestável que ele se aproveitou da paixão do carioca para se promover.


Enfim, irei neste instante quebrar a “quarta parede” desse texto e aprofundar-me em uma experiência pessoal que tive com o tema discorrido durante essa composição textual.

No ano de 2019, o Clube de Regatas do Flamengo, meu time do coração, viveu um ano mágico, único, inexplicável e épico. Além do título estadual e do sempre almejado Campeonato Brasileiro, nossa apaixonada torcida emocionou-se e comemorou, depois de trinta e oito anos, a majestosa Taça Libertadores da América.


Foto por: Carl de Souza.


Tive o prazer e o privilégio de acompanhar boa parte das partidas diretamente do estádio, sentindo na pele cada segundo daquele momento marcante na história e no coração de tantos torcedores Rubro-Negros. Lembro exatamente do momento em que o Gabigol virou o jogo contra o River Plate, estava assistindo à partida na casa de um amigo e não tinha nem me recomposto do choro do primeiro gol. Tenho certeza de que, durante minha vida toda, nunca tive um choro de felicidade tão sincero como naquele instante. Até os dias de hoje sou incapaz de conter as lágrimas quando assisto qualquer objeto audiovisual que retrate este momento e acredito que a maior parte dos torcedores partilhe do mesmo sentimento que sinto.


Porém, fora deste planeta chamado “Flamengo”, a cruel realidade ocorrida naquele ano não pode ser esquecida. Foi uma época em que vivenciamos o primeiro ano do terrível governo liderado por Bolsonaro e sua cúpula do ódio, durante o qual o próprio distribuiu comentários positivos sobre o regime ditatorial de 1964 e ainda citou Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores que já pisou em nossas terras, como um herói nacional que evitou que o Brasil caísse “naquilo que hoje em dia a esquerda quer”. Um ano onde tivemos a ruptura da barragem em Brumadinho, o massacre na escola em Suzano, os oitenta tiros disparados por militares contra o carro do músico Evaldo e o incêndio no Ninho causado pela irresponsabilidade da gestão de Rodolfo Landim e companhia, tragédia esta que dói profundamente no coração de todos os flamenguistas.


Diante de tudo isso, o futebol, com certeza, ainda é uma exímia e importante ferramenta para que boa parte dos brasileiros obtenham um pouco de ar para respirar, pois estamos rodeados pela catástrofe, seja por conta de tragédias como essas citadas, seja devido às calamidades cometidas pelos nossos péssimos governantes. Entretanto, não podemos deixar esse “oxigênio” chamado futebol levar a óbito o nosso senso crítico da realidade.


Por fim, sem sombra de dúvida, o cinema continuará acompanhando o casamento entre o futebol e o povo até que o último apito os separe. Retratando suas felicidades, suas emoções, seus gritos e seus choros, mas nunca esquecendo de também ser a arma que irá informar, denunciar, refletir e nos fazer enxergar a verdadeira realidade através da paixão.


Texto por: Jonathan Freitas.

Revisão por: Laura Bloise.

Foto de capa por: J. B. Scalco.


FONTES:


Livro – História do Cinema Mundial de Fernando Mascarellos.


Vídeo – Maria Rita Kehl - É impossível enfrentar a realidade sem nenhum mecanismo de fuga?

https://www.youtube.com/watch?v=SpcoE0aI2i4


Vídeo – Regina Duarte para a CNN - Confira os piores momentos.

https://www.youtube.com/watch?v=b4a6WamrIYA&t


Vídeo – Paulo Niccoli Ramirez - A Estética do Cinema por Walter Benjamin.

https://www.youtube.com/watch?v=avHWSiBNCyQ&t


Livro/Dissertação – O Futebol Explica o Brasil: o Caso da Copa de 70 - Marcos Guterman.

https://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-46516/o-futebol-explica-o-brasil--o-caso-da-copa-de-70


Artigo – Jogada de Médici: o uso da loteria esportiva pelo regime militar brasileiro

https://www.labeurb.unicamp.br/rua/paginasartigo/viewpagina?numeroPagina=1&artigo_id=95


Matéria – Futebol e regimes militares - O futebol nas ditaduras brasileira e argentina.

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia/futebol-e-regimes-militares-o-futebol-nas-ditaduras-brasileira-e-argentina.htm


Matéria – A seleção que ‘presenteou’ a ditadura com uma taça.

https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-07/a-selecao-que-presenteou-a-ditadura-com-uma-taca.html


Matéria – Bolsonaro determinou que Defesa faça as 'comemorações devidas' do golpe de 64, diz porta-voz

https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/03/25/bolsonaro-determinou-que-defesa-faca-as-comemoracoes-devidas-do-golpe-de-64-diz-porta-voz.ghtml


Matéria – Bolsonaro chama coronel Brilhante Ustra de 'herói nacional'

https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/08/08/bolsonaro-chama-coronel-ustra-de-heroi-nacional.ghtml


Matéria – Retrospectiva: Rompimento da barragem de Brumadinho foi a primeira grande tragédia ambiental do ano

https://www.oeco.org.br/noticias/rompimento-da-barragem-de-brumadinho-e-a-primeira-grande-tragedia-ambiental-do-ano/


Matéria – Tiros em Suzano: Como foi o ataque que matou estudantes e funcionários de escola na Grande SP

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47548656


Matéria – Exército dispara 80 tiros em carro de família no Rio e mata músico

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/04/militares-do-exercito-matam-musico-em-abordagem-na-zona-oeste-do-rio.shtml

Matéria – Incêndio no CT do Flamengo, as últimas notícias (2019)

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/08/deportes/1549628820_314191.html


Matéria – Incêndio no Ninho faz 2 anos: veja as indenizações, investigações e onde estão os 16 sobreviventes (2021)

https://globoesporte.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/incendio-no-ninho-faz-2-anos-veja-as-indenizacoes-investigacoes-e-onde-estao-os-16-sobreviventes.ghtml

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