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  • Victor Vaccari

COLUNA: O MODERNO E O IMPESSOAL - UMA ANÁLISE HISTÓRICO-ARQUITETÔNICA DO FILME MON-ONCLE.

Atualizado: Abr 8

Texto por: Victor Vaccari.


A grosso modo, do final do século XVIII até a segunda metade do século XX, as revoluções na vida do ser humano foram sem precedentes. Da Revolução Industrial até os chamados ‘’tempos modernos’’, a população mundial foi espectadora de inúmeras mudanças significativas em suas vidas. Alterações essas, de cunho político, econômico, social e psíquico, atingindo das grandes políticas mundiais, até o singelo cotidiano do indivíduo convencional.


De forma figurativa, a chegada da máquina a vapor foi equivalente à descoberta do fogo pelos primitivos. Após a compreensão da termodinâmica, as formas de torná-la vantajosa monetariamente vieram por conseguinte. Transformando vapor em energia e aplicando-o nas manufaturas, o ser humano não só conseguiu agilizar sua produção de bens, mas, também, se deu conta da perda da necessidade da mão de obra manual. A indústria chegou para ficar. O homem deixou de ser o produtor, mas se tornou, somente, consumidor. Onde o ofício, que antes era o fim, se tornou um mero meio. Seduzidos por uma ideia de praticidade, a automação se expandiu além da indústria e penetrou na vida humana. O homem se tornou uma máquina de produção, sendo a funcionalidade seu propósito de vida. Vivência essa, não mais de autoria, mas de abundância.


Não é de se surpreender o espaço tomado pelo movimento moderno durante as duas grandes guerras mundiais. A primeira metade do século XX foi de bastante turbulência. A explicitação dos limites humanos, em prol de seus vieses morais e políticos, levou o mundo ao choque. As entranhas da cegueira nacionalista estavam expostas e a população, inevitavelmente, reagiu a elas, tanto nas manifestações artísticas e arquitetônicas, quanto nas sociais. A ideia de progresso, antes fomentada pelos iluministas, foi devidamente descreditada. Mesmo que essa pregasse a ‘’melhoria’’, o ‘’progresso’’ contava com uma fundação já existente, trazendo um peso historicista que, no momento, estava em decadência. O momento era da revolução, do ‘’novo’’, o ‘’criar’’ entrou em evidência e se ocupou em estabelecer uma nova cultura. Na arquitetura, a busca foi pela atemporalidade. O arquiteto projetaria uma ‘’nova era’’ para um novo homem: o ‘’homem moderno’’.


Na obra cinematográfica ítalo-francesa ‘’Mon Oncle’’, dirigida por Jacques Tati e lançada em 1958, a novidade arquitetônica foi representada com excelência. O filme se dá através da divergência entre o preexistente e o novo. Monsieur Hulot, o ‘’tio’’, interpretado pelo próprio diretor, frente a Charles Apel, interpretado por Jean-Pierre Zola, são os dois extremos do contraste europeu na primeira metade do século XX. Hulot, atrapalhado e descontraído, seria a figuração do indivíduo convencional, habitante de um bairro não-planejado e de formação quase espontânea do período pré-guerra. Charles, seria a representação perfeita do homem moderno. Racional, vaidoso e ocupante de um alto cargo em uma indústria de tubos plásticos. Sua casa, hipermodernista, representa, exatamente, a falência do pensamento moderno. Puramente estética, sua proposta funcionalista tendo a automação como meio, se mostrou muito mais burocrática e manual, do que algo diretamente dependente do ser humano. Iludidos por uma ideia de que a união entre a racionalidade e a industrialização trariam uma melhor qualidade de vida, a família de Charles é só mais uma representação do que, por muito tempo, se tornou o modelo a ser seguido.



O arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, em seu artigo ‘’Identidade, Intimidade e Domicílio: Observações sobre a fenomenologia do lar’’, cita que um dos maiores atentados feitos pela arquitetura moderna, foi a desconsideração à ideia do ‘’lar’’. Essa questão, para Pallasmaa, não é física e muito menos objetiva, o ‘’lar’’ é psíquico a quem habita a residência. O ‘’lar’’ e a sua fenomenologia ultrapassam as ideias arquitetônicas. As suas noções conscientes e inconscientes variam de indivíduo para indivíduo, elas não são questões técnicas, mas, sim, pessoais. A residência, como projeto arquitetônico e estrutural, seria o invólucro superficial do ‘’lar’’. Sendo, o segundo, composto pelos mais diversos componentes, ultrapassando linearidades temporais e preceitos fixos. O ‘’lar’’ é flexível, é íntimo, é psíquico, é nostálgico, ele não é permanente à algum dos sentidos humanos, mas ao contrário, ele é a verdadeira mescla entre esses.


O historicismo é intrínseco à metafísica do ‘’lar’’. A negação histórica, feita pelo modernismo arquitetônico, desamparou o indivíduo frente ao seu sítio. A incongruência da casa moderna, no contexto a que ela é inserida, a levou, ironicamente, ao seu objetivo. A residência foi comparada à obra-de-arte. A casa, que antes abrigava o ‘’lar’’, se tornou um objeto estranho para a psique humana, ela rompeu com todos os seus laços temporais. O projeto deixou de ser direcionado a quem reside, mas se tornou uma obra plástica, um objeto autocentrado e autista, no contexto histórico e urbano. A afeição foi ignorada e a compensação dessa, se tornou estética. O seu valor metafísico foi perdido, a busca era pelo agrado visual e pouco além disso. A personalidade do ocupante, que antes refletia diretamente na estética do ''lar'' e da casa, teve o seu direcionamento invertido. O habitante se tornou responsável por se acomodar à estética moderna. O impessoal foi o ditador da vida.



A ‘’casa moderna’’ de Jacques Tati foi levada ao antônimo do que Juhani definiria como ‘’lar’’. As notórias fachadas de vidro inseriram o mundo na intimidade da residência. O que antes abrigava a privacidade e o pessoal, se tornou exposto e banal. Paradoxalmente, no lugar de uma unificação, essa exposição só trouxe mais segregação. A glamourização do vidro forçou a residência a se esconder atrás de muros e delimitações. O coletivo foi ignorado, a vivacidade da convivência foi substituída pelo individualismo segregado. O automóvel - grande coadjuvante da obra - retirou a vida das ruas e as distribuiu como objetos. O bairro de Hulot, aterrorizante para os modernos da época, tornou-se exuberante por sua coletividade e fraternidade. A vida nas ruas pulsa como as veias humanas e seus residentes atuam como uma verdadeira dança relacional. O que geraria repulsa para o modernismo, na verdade, é um verdadeiro ecossistema urbano.


Dentro da residência moderna, o minimalismo racional retirou a essência identitária dos ‘’lares’’. As memórias, as fotografias e os objetos de valor pessoal, foram substituídos pelo vazio. Um primeiro olhar na casa moderna de Jacques Tati já torna explícita a ausência desses. Substituído pelos jardins e obras de arte, o lazer do primogênito do casal Apel teve de se enclausurar na pequena varanda de seu quarto. As diferentes mesas, utilizadas pelo casal, são um verdadeiro reflexo da tentativa orquestrada de suprir a expectativa imposta pela modernidade. A mobilidade e suposta flexibilidade, nada mais seriam que a dissolução do pertencimento entre o núcleo familiar. A experiência foi esquecida e quem tomou as rédeas foi o espetáculo. A residência se tornou um adorno, independente a quem a reside, ela se tornou fixa, uma ilha e ao mesmo tempo uma exposição, uma ode à estética e à impessoalidade.



Jacques Tati foi capaz de desmistificar diversos mantras da arquitetura moderna com meios sucintos. Cenas como uma amarelinha em frente ao acesso da residência de Hulot, surge como uma reprovação à setorização moderna e prova como diversas ações podem coexistir em um mesmo espaço. Com pouco uso da linguagem verbal, o filme se forma através de uma comédia nada ingênua. A trilha sonora evoca uma nostalgia de um sentimento que poucos espectadores de fato viveram. O filme é uma memória e um ataque, uma verdadeira comparação entre o humano e o artificial. O ‘’balé das calçadas’’, como diria a escritora Jane Jacobs, com sua espontaneidade coletiva, frente ao espetáculo alienante, o qual seria o novo espectro moderno. A obra se inicia com cachorros de rua e se fecha com os mesmos. Para a infelicidade dos aspirantes à utopia maquinista, o ser humano nasce animal e morre animal. É um equívoco desacreditar na simbiose humana. O planejamento urbano moderno ignorou qualquer resquício de vida que não fosse estatístico e generalista. A modernidade arquitetônica transformou a vida humana em mercadoria, carente de vitalidade e desejo pleno. O indivíduo foi perpetuado como espectador, alienado e desamparado. A aversão modernista ao historicismo retirou, a todos, o pertencimento. A verdadeira falha do ‘’homem moderno’’, foi a sua ingenuidade.