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  • Bruno Madeira

COLUNA: "ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ" E A IRREPARÁVEL FORÇA DO ACASO.

Em Cannes, no dia 19 de maio de 2007 estreou "NO COUNTRY FOR OLD MEN", ou, "ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ" aqui no Brasil, de Ethan e Joel Coen: os famosos irmãos Coen. Apesar de grandes sucessos já realizados anteriormente pela dupla, como "FARGO" 1996 e "THE BIG LEBOWSKI" 1998, a obra aqui analisada certamente fora seu grande impulso no cinema mundial e muitas vezes a mais lembrada quando citado o nome dos irmãos. Essa é uma obra que além de sua imensa repercussão no meio mainstream, também surpreendeu fortemente o nicho cinematográfico e os fãs antigos dos Coen, pois mesmo mantendo certos princípios e marcas dos diretores, sendo no caso: os personagens extremamente bem construídos, o ar kafkiano e uma mensagem que ultrapassa o valor da trama; sem dúvidas este ainda foi um de seus filmes (até hoje) que mais mudou o rumo de temática vigente na filmografia da dupla, levando-se a seriedade e a carga pessimista em consideração.

Certamente - e não atoa - existem dúzias de motivos para enaltecer a película de 2007. São poucos os filmes que conseguem revitalizar e reinventar de forma tão boa um gênero já decaído como o "western", sem sequer perder um pingo de qualidade. São poucas as obras que conseguem juntar tantos talentos em uma só unidade e dar ao filme uma aura completamente especifica, trabalhando aspectos visuais como a arte e a fotografia de maneira impecável a favor da narrativa. E ainda são poucas as peças que condensam a direção de atores, com o talento do elenco e os personagens completamente bem arquitetados, para assim termos em tela algumas das melhores performances do novo milénio e que seguem tão relevante em sua unidade, ainda que não se houvesse um enredo tão bom. No entanto, este último não é o caso. Certamente "ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ" é uma obra ímpar (tanto para os diretores, quanto para a indústria), pois sabe dar atenção a cada mínimo dos detalhes e ainda orquestrar todo esse primor generalizado, em um olhar que tem a total noção do que quer dizer, sendo minimalista e teorizando da melhor maneira cabível a tese que se é levantada.

Listar qualidades positivas da obra de fato é um dos trabalhos mais fáceis a se fazer, tendo em vista a imensidão de opções que se tem, seja na área técnica quanto criativa. Contudo, este não é meu papel aqui e creio muito bem que este também não seja o da dupla ao a obra criar. Perante esse espetáculo que temos em tela, existe uma proposta filosófica e reflexiva extremamente presente, sobressaindo-se mesmo a própria história que acompanhamos, e adentrando muito mais nossa existência, circundando crenças e ciências. Temos aqui um filme de grandes personagens, grande enredo, mas que apesar de isso tudo tem um único e singelo tema central: o acaso.


Sim, o acaso; chame este de destino, coincidência, consequências, o que for... O fato é que, em qualquer uma de suas maneiras, o acaso ocasionalmente é o tema principal logo nessa trama dos dois irmãos, que também ocasionalmente tornou-se sua obra mais conhecida, e ocasionalmente interfere contundentemente na vida de cada um dos personagens aqui presentes. Este tema é bem palpável no filme e praticamente não se tem uma cena em que tal reflexão deixe de se dar, seja de forma explicita, ou seja de forma mais subjetiva. Assim como todas as outras forças da natureza, essa é mais uma daquelas que não conseguimos escapar, o acaso sempre nos circunda e torna real aquilo que só ele tem preparado em si mesmo. Não existe influências externas, não existe forças contrárias, tudo que se põe na frente dessa força será derrubado, e a única garantia que se tem de que nos manteremos de pé ou não, é novamente ele: o acaso.

Revendo, ou mesmo nos virando para o filme com essa ótica em mente, é da maior certeza que nenhum detalhe escapa o que aqui foi premeditado dizer-se. Em "ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ", acompanhamos principalmente e logo de início a figura de um caçador veterano da guerra do Vietnã, que se encontra no meio do deserto tentando ter sorte em alguma caça por aquela área. Ocasionalmente tendo má sorte com o objetivo, o homem passa a buscar e olhar por aqueles arredores pacatos, até que aleatoriamente avista bem distante um grupo de carros suspeitos junto a corpos e destroços espalhados no chão. Já nessa cena bem de início, podemos ver o como o acaso influiu em sua vida. Neste dia o homem poderia muito bem ter dado sorte na caça e tão pouco se envolvido com o que aconteceu, ou quem sabe ele poderia ver aquilo, mas resolver não se meter com a grana nem com os presentes. Porém este não foi o ocorrido, seu primeiro paço a cruzar com a força da natureza fora pegar o dinheiro da maleta, e ainda na noite adiante voltar para dar água a um dos sobreviventes, fazendo com que por meio de coincidências ou não, os envolvidos do crime o coagissem e forçosamente o fizessem abandonar o único rastro de quem ele era: seu carro.


Apesar do roteiro já ter sido anteriormente premeditado e então apenas adaptado pelos dois irmãos, muito do mérito do filme e de sua mensagem vem exatamente de Ethan e Joel Coen, executando um papel primoroso de direção\produção, escalando o fantástico ator Javier Bardem que além de representar um dos maiores psicopatas do cinema, lembrado eternamente nesse âmbito, consegue personificar de forma extremamente rica para a obra a ideia de "força da natureza", sendo ele um próprio tipo de "acaso", despido de interesses financeiros ou alheios. Suas ações seguem apenas seus princípios, e esses nunca entenderemos; quem tiver de viver, viverá, e quem tiver de morrer, morrerá, no entanto ninguém que cruza seu caminho o passa despercebido. Todos sofremos e somos armas manipuladas por esse incrível e ardiloso acaso.

A grandiosidade do filme está nesses pequenos detalhes, e é exatamente o subtexto que faz da película de 2007 tão icônica como ela é. Por mais que a fantástica e instigante trama nos mantenha curioso e vidrado a tela, tudo isso só se dá devido à grande bandeira que o filme levanta. Esta é uma obra baseada em seu discurso, em sua tese, as coincidências levaram cada fator intrigante e cada personagem relevante da película a se envolverem e tornarem dela o que é - como num jogo de cara ou coroa -, no entanto, nada disso realmente importa, o final todos já sabemos pois já está concretizado antes mesmo de existir, nos resta apenas aceitar e então presenciar o que o futuro nos promete, seja lá o que ele for.