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  • Bruno Madeira

COLUNA: "SE MEU APARTAMENTO FALASSE" E A INERENTE POLITICAGEM.

"Tudo na vida é política", familiarizado com essa frase? Sim, de fato o ditado popular tem tanta razão quanto sua própria interpretação poderia ter. Tudo na vida é política, e quem sabe até na morte seja... Não é nada difícil perceber essas correlações em qualquer estimulo, interação, vivência ou experiência que se tenha, de que para se dar bem na vida é necessário inteligência emocional, empatia, destreza, e principalmente politicagem.

Segundo o dicionário, "politicagem" é: Política ordinária, mesquinha e interesseira (político + agem). Ou seja, uma política de quem tem objetivo satisfazer interesses pessoais, definidos pela troca de favores particulares em benefício próprio. Sei que ao ler isto, "SE MEU APARTAMENTO FALASSE" claramente se enquadra como uma grande referência a tal dúbia ação. Toda a jogada de crescimento profissional vem relacionada a isto, todas as sacanagens veladas são diretas representações ao verdadeiro estado da política, e até as relações de amor são mais uma jogada; mais um interesse; mais um suborno.


Na obra prima de Billy Wilder, oficialmente conhecida como "THE APARTMENT", seja no nome ou seja na trama, percebemos a presença e as menções a prédios e edifícios com tanta frequência quanto os telefonemas indesejados tocando perante a obra. Pra se ser mais específico, o filme começa com uma citação ao Empire State e seu tamanho colossal, seguimos pelo ambiente de trabalho onde tudo se começa – um prédio enorme, lotado de andares, níveis e superfícies –, temos então o desencadeador de toda a trama, o famigerado apartamento de Bud, e ainda pra finalizar, o marcante local de transição entre cada camada social e política que se estabelece: os elevadores e suas dirigentes, ou as escadas e seus encontros espontâneos. Cada um desses patamares representados por enormes arranha céus, ou mesmo pequenos apartamentos, tudo nos enfatiza a verdadeira fonte e motivação crucial por toda a podridão política: a hierarquia. Cada andar, cada sala e cada degrau é um novo patamar na hierarquia, e infelizmente, caso você queira continuar a jogar na partida da vida, muito provavelmente você terá de se adequar, queira você ou não, agrade você ou não.

Aproveitando o temeroso assunto político no ar, não tem como se deixar de lado ao tratar de tal quesito, o fator burocracia que engloba tudo, até mesmo uma resenha cinemtográfica - sendo neste caso a sinopse. Bud é um jovem que trabalha em uma companhia de seguros em Nova Iorque, e que arrumou como solução para crescer rapidamente na empresa, um esquema de emprestar seu apartamento a superiores que almejam um lugar para se encontrar com suas amantes. No entanto, tudo passa a tomar rumos inesperados quando o protagonista se apaixona por uma das amantes do chefe e não sabe o que fazer.


Seguindo a burocrática esquematização de se fazer um resumo sobre a obra antes de falar dela, tem-se a impressão com essa pequena passagem, de que Bud (o dono do apartamento) é apenas uma vítima. Mais um miserável tentando crescer na vida. Porém não, por mais cativante e benévolo que o homem possa ser, suas aspirações megalomaníacas e egoísta, foram de suma importância para acabar relacionamentos, estragar relações de trabalho, perturbar vizinhos e ainda quase tirar a vida de seu amor. Claro que apesar de sua culpa, ele também é um fruto do sistema. Porém, um sistema que o fez conivente. Um sistema que apenas estragava sua vida, o alimentando com uma falsa esperança de ascensão. Um sistema de auto degradação, é claro.


A película de 1960, por mais que não tão curta, sabe passar de forma extremamente ágil as informações necessárias para que entendamos todo o drama dos personagens, e a correlação com o que se é instaurado no paralelismo político-social que vivemos. O uso do recurso da repetição é importantíssimo, tanto para a comicidade da obra em suas atuações caricatas e bem cadenciadas com a montagem, tanto para manter o interesse do público alto mesmo quando já se prevê os melindres da obra. Essa é uma daquelas películas em que se descobre o que vai acontecer normalmente antes do próprio personagem, porém, que é inteligente o bastante para assim que nos estabelece um conforto hierárquico de onisciência perante o filme, nos é puxado então o tapete pra que uma nova verdade se revele. Uma nova ação se mostra em pauta, e uma nova política apareça.

A pergunta que talvez fique ao fim do filme é: existe uma forma de – quem sabe – quebrar essa política? Romper com essas burocracias e fadar as politicagens? Não creio que sou capaz de dizer; nem eu, nem o filme. Este é o ponto. E se quebrassemos ,qual diferença faria? O protagonista conseguirá uma nova vida? As relações interpessoais se abalariam? Bud e Kubelik ficariam juntos? E o apartamento, ainda seria um antro de perdição e sacanagem? Difícil dizer, muitas vezes uma obra é importante não por suas respostas, mas sim por suas perguntas, suas questões a debater-se. Sendo assim, então pergunto a ti: vale a pena assistir "SE MEU APARTAMENTO FALASSE" de 1960? Não sei vocês, porém já tenho minha resposta engatilhada...