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COLUNA: “SUSPIRIA” E O PODER ONÍRICO DO CINEMA.

Texto por: Leonardo Bloise.

Revisão por: Laura Bloise.


Uma das coisas que mais me entristece acerca do atual “público geral” do cinema é a insistência nessa (falsa) ideia de que quanto mais um filme tenta se aproximar da realidade, melhor. A suspensão da descrença é algo inerente a uma obra de ficção (e é obvio que pode ser frustrante quando um filme trai sua própria lógica préestabelecida), mas nenhuma obra artística tem nenhum compromisso em simular a realidade de forma verossímil (apesar de poder tentar fazer isso). Inclusive, algo que eu acho até interessante é quanto, na verdade, as pessoas gostam dos filmes por outros motivos e utilizam esse “realismo” como uma espécie de “passe” para ter uma relação mais emocional e sincera com a obra.


Percebo muito isso no “culto” ao filme “Interestellar” (2014). Sempre que alguém vem e me diz que o filme é uma obra prima (sim, já ouvi isso várias vezes), é sempre focando em como é um filme realista e cientificamente embasado (o que não é tão verdade assim, já que ele abre muita margem para o fantasioso em seu terceiro ato). Ora, não há qualquer demérito em um filme soar mais realista, mas isso também não é mérito nenhum se não estiver em sintonia com os demais elementos da mise-en-scène. É legal ver Nolan levando em consideração estudos científicos para a criação do buraco de minhoca em seu filme, mas, seremos sinceros, não foi por isso que você gostou. Você gostou pelo modo com que Nolan encena o filme, com atuações e momentos que chegam até próximos ao melodrama. Gostou porque se envolveu com os personagens, com aquele universo particular da obra e embarcou em uma experiência audiovisual que vai muito além das atuações, do roteiro e dos efeitos especiais. É um conjunto de todos esses elementos que, combinados, revelam o caráter autoral da direção, que nasce na decupagem do roteiro (no recorte de planos que o diretor irá propor), mas possui a contribuição de centenas de outros artistas para chegar no resultado.


O roteiro não é a alma do filme, mas acho que isso é algo que a maioria dessa nova geração de cinéfilos já está entendendo. Mas aí vem uma pergunta comum:


“Um roteiro ruim pode render um bom filme?”


Olha, vamos por partes. Primeiro, o que seria um roteiro ruim? Um roteiro pouco coeso? Um roteiro com vários “furos”? Um roteiro “simples demais”? Um roteiro que não segue a realidade de uma forma muito verossímil?


A primeira coisa que podemos concordar é que esses são parâmetros muito subjetivos. E mais: não podemos julgar um elemento isolado de um filme baseado em um conceito pré-definido do que é bom ou ruim. Tudo depende de como o diretor irá aplicar aquele elemento em seu filme.



Para exemplificar o que acabo de dizer, hoje trago um filme que é muito importante para mim, por ter me feito questionar pela primeira vez o que realmente fazia um filme ser bom. “Suspiria” de Dario Argento é um dos filmes de terror mais celebrados da história. Nele acompanhamos Susy Banon, uma bailarina americana (interpretada por Jessica Harper) que está indo para Friburgo estudar em uma famosa escola de dança. Vou deixar a sinopse por aqui, mas é engraçado que pouco importaria - para a experiência de quem ainda não assistiu ao filme - se eu contasse a história inteira dele com todos os spoilers possíveis.


Suspiria é, na verdade, um filme bem “previsível” e direto. A premissa é apenas um pretexto para o pesadelo colorido que você vai enfrentar. Pode-se dizer (a partir de uma ótica simplista) que Suspiria possui um roteiro “fraco”, com atuações caricatas e que não segue uma lógica muito concreta... as coisas apenas acontecem e, como qualquer protagonista do Argento, Susy é motivada por um desejo quase infantil de descobrir a “verdade” por trás de tudo que está acontecendo.



Engraçado que, nesse filme, as personagens se comportam como crianças de 12 anos. Isso porque, originalmente no roteiro, a escola era para crianças dessa idade, porém, devido a violência do filme, eles resolveram trocar a idade das personagens, mas mantendo o MESMO roteiro de antes. Já pensou o quão interessante é isso? Mesmo não podendo fazer o filme como originalmente era proposto, Argento não renunciou a sua escolha estilística de encenação, o que contribui ainda mais para o para-realismo da obra... nem mesmo as personagens se comportam como se estivessem no mundo real, estando presas nesse mundo colorido e assustador onde tudo é possível e o perigo está sempre à espreita.


A renúncia à tendencia do cinema realista contemporâneo vem em todas as óticas nesse filme. Desde o uso da iluminação, onde luzes neon saem de todos os lugares sem nenhuma explicação lógica, ou do uso perfeito da música extra diegética (que vem de fora da cena). Música essa que foi a segunda colaboração do diretor com a banda italiana de rock progressivo “Goblin”, que já havia feito a trilha de “Profondo Rosso” (1975) e ainda viria colaborar com o diretor em projetos futuros, como em “Non ho sonno” (Sleepless, 2001). Inclusive, esse poder da música extra diegética já era algo amplamente explorado por Argento em sua “trilogia dos animais”, onde os três filmes possuem trilha do gênio (um dos maiores compositores de trilhas de todos os tempos, se não o maior) Ennio Morricone.



É engraçado como esse parece ser um filme que conversa muito pouco com o público atual. É muito comum ver pessoas criticando a história, os personagens, o roteiro... falando que é um filme bonito (em direção de arte e fotografia), mas sem substância. Ora, é preciso entender que a fotografia e a direção de arte não são apenas bonitas e que a “substância” não está no roteiro e sim no caráter onírico que esses elementos (em conjunto com a direção) criam no telespectador.


É uma estranha necessidade dessa nova geração que todo filme precise ter uma narrativa que “faça carinho” na cabeça do espectador e finja estar estimulando-o intelectualmente, para que ele sinta que não perdeu tempo com um filme que “não faz sentido nenhum” ou “não chega a lugar nenhum”. Estamos perdendo um pouco a capacidade de nos relacionar com obras artísticas de forma mais emocional. O cinema está além da sua narrativa, está na capacidade de nos transportar para universos particulares que só existem dentro daquela projeção. A capacidade de te fazer chorar, se assustar, se emocionar, se entregar... As reflexões vêm a partir disso, a partir dessa relação que é até mais emocional que intelectual. Não estou dizendo para você desligar seu cérebro quando está assistindo alguma coisa (de forma alguma, porque isso é até perigoso), mas sim para pensar em cada filme como obra individual, sem conceitos prédefinidos do que é bom ou ruim.



Suspiria pode não ser um filme perfeito, mas é perfeito em suas imperfeições. A única coisa que me incomoda é o ritmo, que é um pouco problemático (igual a todos os filmes do diretor), mas isso pouco importa. Se tem uma coisa que eu recomendo é entregar-se à experiência sensorial que propõe Argento em Suspiria. Apague as luzes, faça uma pipoca e entre no pesadelo. A versão original de 1977 está disponível lá na Amazon Prime Vídeo*.


*Vale ressaltar que praticamente todos os filmes do diretor são dublados, que era uma prática comum na Itália da época. É até engraçado perceber que os atores no filme falam idiomas diferentes (alguns falam alemão, outros italiano e outros inglês), mas nenhum som direto foi gravado. Por causa disso esse, como quase todos os outros filmes do diretor, possui duas versões: uma dublada em italiano e outra dublada em inglês. Eu assisti Suspiria pela primeira vez na versão italiana. No Prime Vídeo encontra-se a versão em inglês, mas, sendo bem sincero, pouco importa qual você vai assistir, apenas assista, porque, como ambas são dubladas, não é isso que vai fazer diferença na experiência.