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  • Jonathan Freitas

COLUNA: UMA PERCEPÇÃO SOBRE A INTERDEPENDÊNCIA CINEMATOGRÁFICA ATRAVÉS DE MORANGOS SILVESTRES.

Atualizado: Jun 24

O talento individual de um diretor é com certeza uma das marcas de registro mais importantes na realização de uma obra cinematográfica, afinal, é de suas ideias mirabolantes em como captar cada quadro que irá refletir a imagem que vemos em tela. Porém, seria ele o único responsável pela potencialização sensorial, objetiva e simbológica daquilo que observamos? Obviamente, a resposta é não.



O cinema como arte interdependente necessita de um conglomerado de setores conversando entre si para que um projeto floresça e aquele universo específico criado nas linhas do roteiro ganhe vida. Ou seja, a coletividade é um fator de suma importância para formular um filme.


Além do diretor, dentre uma gama de centenas e centenas de funções, três delas ganham bastante destaque, e duas das mesmas quando conjuntas ao autor da obra – o diretor – se transformam no que nossa majestosa diretora de arte do cinema brasileiro, Vera Hambúrguer, cita como “tripé” de criação de imagem em seu livro Arte em Cena: A Direção de Arte no Cinema Brasileiro.


“A cada fase da produção, diferentes profissionais lançam mão de suas especialidades na construção de um filme.
Com o roteiro em mãos e a produção dimensionada, o diretor em comum acordo com o produtor, monta sua equipe. Forma-se então, o que comumente, se chama de “tripé” de criação de imagem, ou seja, a parceria entre o diretor, diretor de arte e diretor de fotografia. É o primeiro passo para a caracterização da linguagem visual a ser adotada pelo filme, iniciando um trabalho conjunto e interdependente, no qual o traço de um sugere ações ao outro.”

Vera Hambúrguer em Arte em Cena: A Direção de Arte no Cinema Brasileiro


E a terceira função não citada, qual seria?


Particularmente, prefiro chamar este tripé de “quadripé”, pois além da arte e da fotografia, todo o quesito do trabalho sonoro que por muitas vezes é esquecido de ser citado, soma uma imensurável relevância à obra. Afinal, como o grande compositor Michel Chion já dizia, o som no cinema é por natureza acusmático, ou seja, é algo que não está sendo produzido e apresentado acoplado à imagem, mas sim em faixas diferentes.


“O som fílmico é por natureza acusmático, já que é apresentado ao espectador separadamente da imagem, por intermédio do alto-falante dissimulado atrás ou do lado da tela. (Chion 1982, 1990 e 1998).
O sincronismo é o processo que consiste então em “desacusmatizar” o som, em amarrá-lo a uma fonte visual, em encarnar a voz em um corpo.”

Trecho retirado do livro Dicionário Teórico e Crítico de Cinema escrito por Jacques Aumont & Michel Marie.


Pensando nisto, devemos ter o maior cuidado com todo o trabalho de som antes, no momento e depois de sua captação, pois uma imagem de baixa qualidade até conseguimos muitas vezes deixar passar batido, porém um áudio atrasado ou de baixa categoria tem grandes probabilidades de fazer com que o espectador desista do filme que está diante de seus olhos.


Após essa básica introdução, faremos uma rápida análise da marcante sequência do sonho no filme Morangos Silvestres (1957). Observaremos brevemente a importância do trabalho em conjunto destes elementos que não são comandados especificamente pela direção, e como eles articulam-se para conversar com o público.


Lembrando, está é uma análise subjetiva da visão do autor da publicação e não uma verdade absoluta ou explicação definitiva do que está sendo passado em tela.



Notamos logo ao iniciar à cena que a direção de fotografia utilizou de um preto e branco ultra contrastado, reforçando a dramaticidade do momento e indicando-nos que estamos em outra atmosfera, neste caso nos sonhos do protagonista. Os pontos de luz também estão sempre bem localizados em locais específicos do cenário, pois naquele momento o personagem está sempre sendo empurrado para a escuridão. Também é perceptível a escolha à dedo da câmera e da lente, valorizando o uso do foco infinito e reforçando a dimensão da solidão que o personagem carrega consigo mesmo.


A cenografia se funde com a sensação de isolamento, entregando-nos casas em ruínas, ruas desertas e simbologias que sempre reforçam este sentimento, como, por exemplo, este prédio:



As janelas apresentam-se como se fossem olhos fechados, sozinhos e com medo. Assim como estas janelas, os objetos são personagens daquele espaço-tempo, estão contracenando com o ator e conversando com o público a todo instante. Vemos um relógio sem ponteiro demonstrando que o tempo do homem se esgotou, e logo abaixo dele percebe-se que existem olhos observando todos os seus passos. Um pouco depois uma carruagem locomove-se até ficar engatinhada após uma pancada e neste momento ela se movimenta como um berço de ninar, seu som remete ao choro de um recém-nascido, fazendo assim uma simbologia ao início do ciclo da vida. A roda desprende-se da carruagem, parando frente a frente com o personagem e em seguida quebrando com uma pancada na parede, este ato diz sobre o protagonista está próximo de seu fim.


Percebe-se que nenhum objeto está gratuitamente na tela e inconscientemente acabamos também abordando um pouco sobre o som ao citar o barulho da carruagem.


Acredito que nesse pequeno espaço conseguimos ter uma breve noção da importância do caráter coletivo no ambiente cinematográfico, isso sem citarmos montadores(as), coloristas, maquiadores(as) e outras inúmeras funções dentro do setor.


Compreender o trabalho e a relevância de cada integrante de uma equipe, auxilia-nos a destrincharmos e nos debruçarmos de forma mais rica ao assistirmos um filme, entendendo melhor a formação da linguagem de uma obra e criando um olhar mais sensível para todas as grandiosidades e minuciosidades impostas em tela. Além disso, ajuda-nos a valorizar cada vez mais o trabalho de cada um envolvido no surgimento de um projeto audiovisual, sejam nos nossos ou nas criações de outras pessoas.


Abaixo estarei deixando o link de algumas publicações da AIC (Academia Internacional de Cinema), onde existe um maior aprofundamento sobre às funções de cada parte do “quadripé”.


Diretor.

Diretor de Fotografia.

Som.

Diretor de Arte.


Boas Leituras a todos!


Fontes:

Arte em Cena: A Direção de Arte no Cinema Brasileiro. – Livro de Vera Hambúrguer.


Dicionário Teórico e Crítico de Cinema. – Livro de Jacques Aumont & Michel Marie.


Texto produzido por Jonathan Freitas.

Um agradecimento especial ao professor Flávio Di Cola.