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  • João Bornhofen

COLUNA: WANDAVISION (2021)

Atualizado: Mar 6

E como reinventar a indústria com metalinguagem e a dose certa de cinismo.




Kevin Feige é um cara esperto, alguns diriam até malandro, da melhor qualidade. O sujeito trabalhava como produtor assistente durante produções pré-UCM, tanto na trilogia original do Homem Aranha dirigida por Sam Raimi, como na concorrente Fox , e seu universo mutante dirigido por Brian Singer, até que em 2008 Feige levou a ideia, até então inédita, de criar um universo expandido, que coubesse todos os personagens da editora Marvel, que claro, estivessem com os direitos disponíveis no acervo, visto que empresa havia vendido os direitos de seus personagens mais famosos para não quebrar , em meados dos anos 2000.


Tendo que tirar leite de pedra, Kevin Feige então abriu o baú e de personagens classe B como Homem de Ferro , e criou o hit massivo que foi o filme de Jon Favreau (atualmente no comando da série The Mandalorian), em 2008.

Disso estamos até hoje com o universo cinematográfico Marvel à todo vapor, quebrando recorde atrás de recorde, e atraindo os maiores nomes de Hollywood e fora dela para ingressarem nesse universo bilionário ( Vingadores Ultimato é hoje a maior bilheteria da história), seja pelos bastidores ou frente às câmeras.


13 anos se passaram desde o primeiro Homem de Ferro, tivemos já mais de 22 filmes do estúdio, e pelo visto o fôlego segue sempre escalando de forma estratosférica , e com o lançamento do novo serviço de streaming da empresa dona da Marvel, e agora da Fox também , a casa do Mickey busca inovar não somente no seu catálogo de conteúdo, mas também dar espaço à personagens até então secundários, sendo o caso de Wanda Maximoff e Visão ,ambos apresentados pela primeira vez em Vingadores : Era De Ultron ( Joss Whedon, 2015), e até aqui tiveram sempre razoável participação no grande esquema da narrativa universal.

Com a proposta ousada de trabalhar à fundo a metalinguagem da era de ouro da televisão num cenário habitado por seres heroicos fantásticos foi chamada para roteirizar a série Jac Schaeffer, que já havia trabalhado com a Marvel, co-escrevendo o roteiro de Capitã Marvel ( Anna Boden, Ryan Fleck , 2019) e Viúva Negra (Cate Shortland, 2021), sendo Jac a responsável pela criação da série, além de também atuar como produtora executiva da série, mantendo assim um fluxo narrativo constante , focando sempre na parte humana dos super-humanos, aqui representados pela poderosíssima Feiticeira Escarlate e seu marido, Visão.

A série não se restringe à menções de eventos do vasto universo Marvel, porém o roteiro de Schaffer é contido na medida certa, afinal estávamos até então acostumados com Wanda e Visão apenas como personagens secundários, pela primeira vez ambos os personagens estão protagonizando uma série própria, dessa forma nada mais justo do que não perder o foco em quem de fato são os protagonistas da série.


Foi chamado para a direção da série o veterano Matt Shakman, que possui vasta carreira em direção de séries, indo desde It´s Always Sunny in Philadelphia até Mad Men. O trabalho é digno de aplausos, graças à consistência tanto narrativa, mas principalmente na manutenção dos diversos estilos e texturas , que de tão diferentes apenas conseguem prover simetria linguística-visual devido ao consistente trabalho de Shakman.


Na série, Wanda e Visão acabam de se casar e vão morar numa pequena cidade no interior dos EUA, Westview, porém as aparências aparentemente tranquilas escondem uma sinistra conspiração, atraíndo o melhor do suspense urbano místico de um Twin Peaks, mas sendo acessível a ponto de entregar uma trama divertida, com seus momentos mais sombrios, mas sem nunca exagerar na dose, sendo sempre uma delícia de acompanhar os episódios. O mais bacana é que conforme nosso casal de protagonistas seguem suas vidas cotidianas as décadas televisivas vão se alterando episódio por episódio, trazendo pra cada episódio uma linguagem visual única, o que já evidencia a ambição do projeto, que encontrou o formato serial como seu grande trunfo.


A série é então, dividida em momentos específicos da era televisiva, indo desde as séries de comédia seiscentistas com direito a plateia e claque, até as séries de formato mockumentary ( Modern Family, The Office), típicas da metade dos anos 2000. Não faltam referências, easter-eggs ( a série se torna uma diversão à parte quando procuramos por eles) e homenagens às séries que inspiraram WandaVision, o mais curioso, porém é a justificativa que Schaffer dá para toda a metalinguagem, impedindo-a de ficar apenas no estilo sem substância.


Quando descobrimos a razão de Wanda ter projetado toda a realidade ao seu redor em séries , motivo até então carente de razão, entendemos a genialidade por trás de toda a temporada, é de cair lágrimas até os mais entusiastas fãs de quadrinhos. É tocante, e ao mesmo tempo tão próximo, de fato a parte mais interessante de todo super humano sempre foi e sempre será a parte humana, afinal.

Elizabeth Olsen dá um show de atuação, captando todas as minúcias psicológicas complexas de Wanda, e entregando umas das melhores performances de todo o Universo cinematográfico Marvel. A química entre a atriz e Paul Bettany é brilhante, e de fato precisava ser, visto que a série não perduraria sem a dupla, totalmente afiada em seus papéis.

Todo o elenco de apoio está também irretocável, desde Tayonah Paris atuando como a versão mais velha de Monica Rambeau, vista criança pela primera vez em Capitã Marvel, até velhos conhecidos do UCM como Randall Park e Kat Dennings, reprisando seus papéis como o agente do FBI Jimmy Who ( Homem Formiga e Vespa, Peyton Reed, 2018) e a física nuclear Darcy Lewis ( Thor, Kenneth Branagh, 2011, e Thor: Mundo Sombrio, Alan Taylor, 2013), respectivamente, ambos estão divertidíssimos, auxiliando a amenizar o clima tenso e dramático que a série propõe da sua metade em diante, mas nunca tornando o tom inconsistente.

Mas quem rouba toda a cena em questão é Kathryn Hahn, interpretando Agnes, a vizinha de Wanda e Visão. A atriz está claramente se divertindo muito no papel, e consequente nós, como público, não temos outra opção senão cair em seus encantos.


A série termina não com um mero final, mas com um senso de continuidade, o gosto de quero mais fica evidente, e mais ainda fica a deixa para a expectativa de muitas futuras aventuras para a nossa feiticeira escarlate. O que são alguns anos para quem esperou mais de uma década? A espera valeu à pena.


Em determinado momento do oitavo episódio Visão conversa com Wanda sobre a conformidade em relação ao pós vida, visto que ela acabara de perder seu irmão Pietro (Mercúrio) pelas mãos de Ultron e está duramente abalada, e Visão disserta sobre como o luto nada mais é do que a longevidade do amor sentido em vida. Dói porque perdura, e perdura porque é real.


Não poderia haver melhor frase para contextualizar a problemático que estamos passando, tanto aqui no Brasil como mundo afora. Gostaria de terminar minha coluna dizendo à você, caro leitor(a), independentemente de onde estiver ou em que momento de vida você se encontra, gostaria de lhe desejar o melhor dos dias a seguir, para você e todos que compõem seu circulo familiar social.


Assim como Wanda , nós também precisamos de escapismos diários, afinal não é fácil sermos diariamente os heróis das nossas próprias histórias. Mas nunca se esqueça, você que está me cedendo seu precioso tempo para ler esta coluna: Do momento que você se sentir perdido na escuridão, sem esperança de dias melhores, necessitado de um herói, minha dica para achá-lo: apenas um olhar para o espelho e lá estará onde sempre esteve seu eterno herói.


Por João Bornhofen.



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