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  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: 2001 - UMA ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)

Atualizado: Jan 7

O início, o fim e o meio. Kubrick busca no fantástico (ou não) o sentido da vida, a origem do universo e a razão da consciência humana. Uma resposta certa para essas perguntas, assim como para o fim do filme, não existe.


"Explicação do final de 2001", creio que essa deva ser uma das frases mais procuradas no Google pelos telespectadores dessa geração, e eu, sinceramente, não julgo. Cada vez mais somos expostos a obras "mastigadas", que apresenta mensagem objetiva que impõe um sentido às imagens. "Interestelar" é talvez um dos filmes recentes a mais sofrer com esse medo dos idealizadores de deixar os telespectadores saírem da sala de cinema com "dúvidas". A cena em que o personagem do Matthew McConaughey explica o plot do filme para ao robô chega a ser cômica, além de impor a interpretação do diretor ao público.


Voltando à "2001", o épico espacial contemplativo de Stanley Kubrick, que teve o roteiro co-escrito pelo diretor e por Arthur C Clarke (que escreveu o igualmente genial livro "2001: Uma Odisséia no Espaço") . A elaboração da história veio depois de Kubrick ler seu (também incrível) conto "A Sentinela". Kubrick contatou o escritor, pois desejava colaborar com ele na criação de um argumento que viria a se tornar 2001.


O tratamento do diretor para o cinema de ficção científica foi revolucionário, ao utilizar o gênero na busca por respostas (e ao mesmo tempo ignorar que essas respostas realmente existam) para as perguntas mais intrínsecas à consciência humana.


“De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida?”



Pode parecer simples, mas 2001 foi um marco na indústria, não apenas para o gênero , que havia sido restringido nas décadas anteriores aos filmes B e dessa vez visava elaborar temas mais "sérios", como para o cinema como linguagem, sendo até hoje considerado um dos filmes mais influentes de todos os tempos.


Creio que a parte mais icônica do filme seja seu prólogo: "The Dawn Of Men". Ali naqueles primeiros 10 minutos, é onde residem as informações mais importantes para a elucidação dos temas abordados. Em um dos match cuts mais importantes da história, Kubrick resume milhares de anos da humanidade, e relaciona diretamente o passado, o presente e o futuro, iniciando a poética sequência das naves ao som de Danúbio Azul.


* O livro é uma leitura complementar essencial, principalmente pela atenção que Clarke dá ao prólogo. Ele não dá respostas para a existência do Monolito, porém, nos entrega mais pistas do que o filme faz. Não que um seja melhor que o outro, pra mim são obras complementares.


Voltando ao filme, que é o objeto principal desta análise. Até hoje, o ritmo lento e contemplativo, desagrada grande parte dos telespectadores, porém são esses elementos que fazem desse o filme que mais traduz a sensação de estar no espaço sozinho, e a microscópica proporção do homem em relação ao universo, destacando sua enorme insignificância. Outro elemento que destaca isso, é a troca de protagonista, que divide a obra em 3 diferentes partes, fazendo mais difícil a conexão de quem assiste com os personagens. Mesmo "David Bowman" que ocupa o maior tempo de tela, não tem um desenvolvimento muito aprofundado durante o seu arco, o que é uma escolha curiosa da direção, que acentua essa insignificância. O silêncio das sequências espaciais é quase anticlimático. O momento de maior tensão do filme também é o mais silencioso, o que pode parecer estranho. Isso talvez, em minha primeira assistida, foi o que me gerou o maior incômodo, porém com o tempo eu consegui entender e sentir o que o Kubrick almejava com essa escolha. Isso e os enquadramentos simétricos, trilha sonora impecável, e movimentos de câmera suaves e discretos criam a atmosfera que propõe uma claustrofobia através da solidão. A nave é grande e silenciosa, assim como o espaço atrás daquelas paredes. Não há muito para fazer além de jogar xadrez com o computador HAL 9000 e torcer para que o tempo passe mais rápido. A mise-en-scene é tão primorosa, que não é à toa que a decupagem do Kubrick é uma das mais estudadas até hoje, e pra mim, é nesse filme que ele alcança a perfeição. Nada é gratuito, cada elemento é cuidadosamente desenhado para servir a narrativa.



Até hoje, nenhuma outra obra conseguiu abordar melhor a busca humana por respostas, metalinguísticamente referenciada pela busca dos telespectadores sobre o significado do filme (principalmente do final). 2001 não é feito de respostas objetivas e prontas, ninguém (nem o Kubrick e Clarke) pode afirmar o que todos os elementos significam, como as grandes obras artísticas, foge a interpretação até de seus criadores.


O que é o Monolito e como ele foi parar na Terra? O que acontece com Bowman no final? Nos resta apenas especular e teorizar sobre, e na busca de responder essas perguntas, buscar também o sentido da nossa própria existência.


NOTA: 5/5






Crítica realizada por Leonardo Bloise.