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  • Bruno Madeira

CRÍTICA: A DANÇA DA REALIDADE (2013)

Atualizado: Mai 24

É sempre comum a nós, espectadores do cinema, encontrarmos ao assistir um musical, um certo tipo de linguagem e narrativa que naturalmente se assemelha a do teatro. Tal liberdade criativa, poética e extravagante podem nos passar essa visão que foge aos melindres da sétima arte, e adentram seu formato de origem advindo dos palcos; no entanto, quando bem trabalhados, esses e muitos aspectos podem se tornar uma característica inovadora da obra (como em "DOGVILLE" de Lars Von Trier, 2003), fazendo parte assim de sua identidade própria e ainda reinventando o certo preconceito proveniente das similaridades entre cinema e teatro que se costuma existir.

É extremamente palpável o impacto que os 23 anos afastados do cinema tiveram sobre Jodorowsky, e não poderia ser melhor logo tê-lo de volta, fazendo aqui uma de suas obras mais maduras e revisionistas da carreira, enfim trazendo um balance entre diferentes formas narrativas e diferentes temáticas presentes. Nota-se desde o design de produção, até a cinematografia uma essência jamais perdida pelo diretor; sua cenografia conduz o espectador por uma aura excêntrica que flerta com a caricatura, porém se usa da primorosa mise-en-scène pra dar substância a tais aspectos, os pondo sempre um passo à frente do ideal arquetípico; já sua cinematografia está sempre a intensificar esse universo muito bem construído, e se usa de uma hábil transição de narrativas para tornar o filme hora teatral, hora subjetivo, dando cada vez mais a ambivalência necessária pra fluir entre o real e o surreal. Se é que estes se distinguem.

Em "A DANÇA DA REALIDADE", difícil seria dar-se um tipo de sinopse a película, tendo-se em mente que toda sua potência e relevância estão nos pequenos detalhes, cenas e personagens que permeiam a trama e dão a um roteiro que poderia ser simplista, uma verdadeira carga transcendental. Mas mesmo assim irei tentar. No duradouro filme de 2013, Jodorowsky parece querer reinventar-se na sétima arte – no âmbito em que vinha fazendo – muito provavelmente pelo tempo que se manteve fora das telas, executando aqui todo o primor de sua visão surrealista, espiritual e poética; no entanto, dessa vez a mesclando a aspectos que fugiam as suas temáticas principais, falando então sobre questões de gênero, sobre sua infância, seu país natal, e ainda adentrando uma forte mistura paralelística entre as ditaduras da época e os pilares principais de sua mística espiritualista. O tom, o ritmo e as mudanças abruptas de linearidade se mantem presentes, no entanto aqui se apoiam em questões de pura ligação com sua infância, porém sempre se juntando a ficção.

Apesar das excentricidades que a muitos pode incomodar (mas convenhamos, se não fossem tais aspectos não seria uma obra Jodorowsky), o filme é extremamente rico e revisionista, pecando em alguns efeitos especiais que envelheceram mal, mas trazendo à tona um debate muito potente: nossa cegueira voluntária\nossa hipocrisia. Muitas vezes fantasiamos e criamos versões dos fatos que se tornam mais agradáveis as nossas ideologias, porém que no fim das contas são meramente inconscientes costumes, como que confortos para as nossas mentiras. E não seria este o caso do filme? Fantasia ou realidade, ficção ou surrealismo; não importa se realmente fora esta a verdadeira história do ainda jovem diretor chileno aqui contada, a obra mostra o como nada que circunda a nossa noção de real de fato tem base, nos bastando apenas crer naquilo que não nega a sensatez, e jamais fechar os olhos a pluralidade.


Ao fim das contas, o real e o irreal são somente e meramente uma grandiosa dança que vive a se mesclar; um belo musical quem sabe!? Um filme, será?