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  • Bruno Madeira

CRÍTICA: A FAVORITA (2018)

Não existe charme algum na nobreza. Não existe beleza na luxúria, nem na riqueza, muito menos no suposto status criado a partir de uma relação econômica social. A própria monarquia é hipócrita e corrupta. Sendo assim, por que seus súditos deixariam de ser?

Todo um jogo de se maquiar a verdade é estabelecido nas interações cênicas, nem mesmo quem tem o maior poder em suas mãos é capaz de usá-lo. O diretor sabe disso. O público sabe disso, e tudo fica muito claro (mas sem se tornar óbvio) em cada aspecto do filme.


A cinematografia completamente contrastante à obra, que se utiliza de planos ousados, e até lentes fisheye, para retratar cenários riquíssimos meticulosamente construídos, junto a figurinos deslumbrantes. Tudo causa um estranhamento instigante de se ver. Tudo mostra a contradição pairando no ar. Um senso de que há mais do que a própria trama, é inegável durante toda a obra e sua elaborada linguagem cênica.

Junto, há um ambiente onde cada misero aspecto é extremamente trabalhado, com camadas e mais camadas de profundo capricho, em um estilo marcante, mas jamais distanciado da realidade - como poderia haver em uma suposta fantasia monárquica. Tem-se ainda um estudo de personagem incrivelmente guiado por atrizes em seus ápices, que somente dessa forma conseguem se sobressair a uma obra tão vistosa, e tirar um possível status presunçoso a película. É possível ver a cada ação programada na trama, uma reação tão digna e tão fiel, quanto somente as leis da física proporcionam. A cada segundo o emocional das personagens está em transição. Indo para frente, para trás, a um lado, e o outro.

A sensação kafkiana de que proporções caóticas podem ser tomadas a cada momento, é vigente, e a trilha sonora elegante guia cada sentimento de puros nervos e ânsias, para esse estopim que nunca chega. Ou será que chega?

O filme sabe acabar na hora certa, sem se render a melodramas baratos ou emoções exacerbadas. O fim coloca uma pulga atrás da orelha, quando não um próprio coelho, e ainda de forma exemplar deixa para que os próprios expectadores tomem conta de criar. Dando cada um, o fim de seu cada um.