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  • João Bornhofen

CRÍTICA: AMOR À FLOR DA PELE (2000)

Atualizado: Jan 25

Clarisse Lispector nos apresenta o Tinder para os cults. E Bauman curte.


Estava assistindo o clipe incrivelmente superestimado e pouco inspirado, de Taylor Swift, em sua época mais romântica e menos lacradora, You Belong With Me, que possui mais de 1 bilhão de visualizações, protagonizado pela mesma, lançado em 2009. Em certos momentos do clipe ela se comunica com seu vizinho, com quem possui um crush, através de cartazes, um apontando para a janela do outro mensagens que hoje seriam publicadas em grupos de WhatsApp pelas amigas da sua tia distante.

Caso o clipe fosse feito hoje provavelmente os cartazes dariam lugar à nudes, provavelmente fakes, ainda por cima. A forma como nos relacionamos adapta-se aos novos velhos tempos. Hoje um “Eu te amo” pode ser um post de Instagram, uma dança brega no Tik Tok ou um nude, dessa vez verídico, com a frase: “Que tal eu te apresentar à torre de Ibiza fake hoje?”.

Ao mesmo tempo que nossa sociedade de amor líquido dificilmente tolera o amor submisso de gerações passadas. Assumir amor verdadeiro hoje em dia, ou ao menos declarar estar apaixonado parece ter se tornado comprovante de iludido. O contato físico ao outro é mais fácil, a queda do patriarcalismo, a variedade de anticoncepcionais e o fácil acesso a ele, a ascensão dos “esquerdo – macho”, dentre outras questões que seu antigo professor de sociologia cansou de dissertar sobre, contribuem para a desmistificação do romantismo clássico. Isso e claro, a criminalização da pedofilia.

Existem afinal, menos tabus, a sexualidade está mais difundida entre as camadas sociais, as pessoas estão com menos tempo para si mesmas, o mercado não para de explorar a todos nós o tempo todo , ainda mais se você é uma empregada doméstica que antigamente ia com frequência para a Disney , dessa forma a solidificação dos relacionamentos na contemporaneidade virou Mclanche Feliz com brinde decente: Raro, raríssimo, alguns alegam ter visto uma ou duas vezes, no máximo. Mc Doni engloba bem o contemporâneo: “Te amo, mas sem compromisso”.


O filme de Wong Kar Wai , produzido na virada do século, não somente vira com nossas expectativas, mas também nos promove uma completa desconstrução, não somente do gênero em si, mas de nós , como espectadores. Estaríamos mal habituados em esperarmos sempre previsibilidade , visto o condicionamento social que projetamos nos filmes românticos, ou seria um roteiro fora do convencional o bastante para nos molharmos com os relacionamentos frágeis à la Bauman.


No longa dois vizinhos percebem estarem sendo traídos pelos seus companheiros com os próprios vizinhos. Basta adicionar um contexto incestuoso e já temos a aprovação de Nelson Rodrigues. Porém estamos habituados a não enxergarmos além do que nossos olhos podem ver , e a vida como ela é não necessariamente é como ela parece ser. Há um excesso de planos claustrofóbicos, o que auxilia e muito o conceito de subversão e como isso afeta os cônjuges traídos.


O tom soturno constante nos dá uma face nova à representação do afeto, ou no caso dor em decorrência dele, afinal se sofre é porque já fez ou faz sentir, e o filme busca retratar o quanto de sofrimento o amor entrega, exatamente ao retirar, não o sentimento, mas o seu viés idealizado. É fascinante de perceber que o casal adúltero, senhor Chan e a senhora Chow, nunca são vistos fisicamente , no caso do Chan, e por um breve instante, ainda que quase imperceptível, no caso da senhora Chow.

Fica a reflexão, a quebra do idealismo romântico não tem face, fisicalidade, o filme transcende o tema num tom quase onírico, apesar do direcionamento artístico tratar a sujeira e podridão como máximas visuais, indo na exata direção contrária do cinema de gênero.



















O amor, além do seu viés erudita, classicista e narcisista, como potência narrativa e emocional, sempre teve sua retratação como força impetuosa, sem freio e barreiras. Ao você tratar um casal de protagonistas que sofreu com a quebra do estigma você não anula a potência do sentimento, pelo contrário, você disserta sobre a força com que ele habita em todos nós, porém a genialidade da obra consiste em pegarmos o lado oposto da força.


A intensidade e as prerrogativas continuam presentes, porém de forma a retratar a desconstrução do ideal presente no imaginário coletivo. O poder do amor é forte. Ele não acaba quando termina. Igual governo Bolsonaro.


A claustrofobia, além de contribuir para a tonalidade decadente dos temas propostos e suas respectivas desconstruções, também cria o aprisionamento como figura de linguagem e identidade visual. Perceba como a cena final retrata exatamente uma prisão, em que ambos os protagonistas se encontram. Aprisionados pelo que um dia foi amor, paixão, afeto, e no atual estado se tornou apenas um vínculo afetivo quebrado, mas ainda assim um vínculo. Amor é algo poderoso, e não estamos lidando aqui com a falta dele, e sim em como a existência dele pode levar tanto ao ápice do afeto humano, como ao nono círculo infernal, ao lado de Dante Alighieri.


Não somente de laços afetivos o amor é composto. Em alguns casos correntes também servem como sinônimos.


O filme se encerra não com uma resposta, uma solução, porque de fato não há, nem na ficção e muito menos na vida real. Porém o que separa também une. Muitas vezes une o desconhecido, o improvável, mas sempre faz-se sentir. E sentir é sinal de vivacidade , ao menos sofrer hoje para amanhã alegre sonhar estar.


Não poderíamos deixar o parágrafo final para ninguém menos que nossa estrela ascendente: Clarisse Lispector. Se perguntássemos a ela o que, de fato, é o amor, onde ele habita, o que come, por que nunca acharam ele no chat Uol? Afinal, o que tal exuberância da literatura diria? “Renda-se, como eu me rendi, mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer limite”.