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  • João Bornhofen

CRÍTICA: BAGDAD CAFÉ (1987)

Atualizado: Jan 30

Sobre encontros randômicos e como o vintage se reciclou no pós moderno.


40 graus, sombreado. Quando já não basta o calor humano, pelo contrário, prefere-se a frieza corporal da bela adormecida pré beijo sem consentimento, pelo então dito príncipe encantado e recatado, num boteco distante, de alcunha “Vigia e Pune”. Um fogo se aproxima, possivelmente uma fênix, mas não, é Rita lee, mil perdões pelo reducionismo comparativo Rita. Ela senta no aguardo de seu amigo distante, mas já deixa registrado na comanda um belo litrão , vezes três de chopp Seco e Molhado. O garçom, fiel companheiro pragmático de nome pouco convidativo, mas de belo sorriso francês, Michael Foucault.


Como cogitar a interseção destes dois celestiais? O próprio Foucault responde: “Não me pergunte quem sou, e não me diga para permanecer o mesmo”. Em um momento seco e molhado fugaz, Dostoievski surge, após sua visita aos amigos Karamazov. Ele senta-se e logo começam a debater sobre o tempo, espaço e crime e castigo.


Ao fundo vê-se uma turista alemã, de nome Jasmine, saindo direto de 1987, e protagonizando o primeiro filme do diretor Percy Adlon. Assim como o começo dessa crônica transcende tempo e espaço, Bagdá Café faz o mesmo. A começar pelo título, no original Out of Rosenheim, mas adotado com sabedoria pela tradução brasileira, que contempla a proposta do filme.


Temos traços geográficos específicos, capital do Iraque, e junto a isso uma bebida conhecida mundialmente. O que pode soar, numa sinopse mal escrita, como mais um “feel good movie”, logo se torna um estudo sobre o transcendental humano, como nossos estigmas cíclicos tendem a nos reduzir, gerando uma zona de conforto desconfortável.


Até quando fazemos algo por que de fato temos vontade ou apenas porque paramos de perguntar qual o intuito? O filme começa e termina sempre conversando com o espectador. Em especial mostrando um certo tom melancólico, mas ainda provando sempre haver um vagalume independente da magnitude do apagão. É um daqueles raros filmes em que o meta diálogo não é direto, porém atinge com uma força como se fosse. Fica à cargo de cada cinéfilo trocar personagem por pessoa e/ou situação para começarmos a entender a complexidade aqui tratada, que corresponde desde às relações humanas mais inóspitas como também as nossas relações intrapessoais.


Para explicar deixo à cargo do próprio Foucault: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”. Não entendeu? Pega senha.


Seria possível cogitar a aparição do diretor de fotografia e seu assistente na sombra durante os créditos iniciais (aos exatos 4:32 minutos), justamente quando seu nome é cotado, como uma forma de estabelecer um elo de conexão conosco?. Já temos a quarta parede quebrada, unido com cortes brutos e um uso excessivo de planos holandês. A fonte muito brega e chamativa também auxiliam à uma primeira impressão tanto apelativa, até a música de abertura e fechamento do filme soa previsível e nada inspirada.


E o filme não vai além da proposta. É um estudo de relações humanas, das que permitimos termos, e das que não permitimos, porém acabam acontecendo e vamos eventualmente lidando com elas, hora por necessidade, hora por escolha. Até que ponto uma escolha nossa de fato é um ato pró ativo? Seria coincidência o encontro entre Jasmine e Brenda, ambas em momentos de mesma intensidade emocional, porém de forças situacionais completamente opostas? Seria um roteiro falho que força simplificação e enxota os personagens para logo criar correlações sem desenvolvimento adequado? Cortes bruscos e excesso de plano holandês seriam puro preciosismo estético, ou teriam algum sentido para com a linguagem visual? Durante o longa surgem, em demasia, oportunidades de criticar a falta de esmero técnico.

Além disso há em demasia uma sensação de falta de orçamento, seja por planos pouco arrojados, fotografia que excede o básico, mas jamais se torna inventiva ou até mesmo por uma cenografia e uma direção de arte que beiram a “má vontade”. Unido a isso um começo extremamente vago acompanhado de uma música que literalmente já conta futuros eventos do filme e disserta sobre o que estamos vendo.

Bem... isso até um segundo olhar, uma revisita mais cuidadosa. Quando passamos a perceber que o filme se inicia vago e “pobre” visualmente justamente para nos atentarmos aos pequenos detalhes, seja o subjetivo dos personagens retrato pela simplicidade estética, seja a composição visual que trabalha sempre com esferas divisórias entre os personagens, e conforme o longa avança passamos a ver cada vez menos divisórias, e os cenários improváveis propostos passam a fazer cada vez mais sentido no contexto geral, ou até mesmo pela direção de arte que , em conjunto com atuações estranhas e excêntricas, nos insere num ambiente distante, porém de fácil acesso, independentemente do lugar, país que o filme for exibido sempre há algo a ser tirado dele e inserido no contexto externo visto.


É sim um filme fácil de desgostar, fácil de achar chato e de não sentir imersão, inclusive pela falta de atores voluptuosos, o que mostra como ficamos mimados e mal acostumados, como público. A obra se contenta com o estranho, com o indiferente, com as viradas bruscas, óbvias e por vezes monótonas da vida. Ele não busca reconhecimento, ele existe, e existindo se torna o escapismo que somente a sétima arte poderia proporcionar.


O filme transborda metáforas, algumas mais óbvias e outras que falam individualmente com cada espectador. Do início repleto de cortes bruscos até o final repleto de planos que duram aparentemente mais do que o necessário, há uma evolução, não somente da narrativa e seus personagens, mas da nossa própria percepção, como público.


Nós não somos os mesmos ao final de obra alguma, então por que nos tratar como uma constância infinita? Por que não assumir que sempre quando apreciamos uma obra levamos parte de nós mesmos para ela e tiramos algo dela para a vida?


Acima de tudo a película trata de aleatoriedade, eventos randômicos, e como a vida está repleta desses eventos. O quão esses eventos influenciam quem somos, o quanto necessitamos desses eventos? O quanto importa o filme começar e terminar com a mesma música, porém com contextos completamente opostos? Quando entra “CALLING YOU”, de Jevetta Steele, nos créditos finais não há mais importância do que nos créditos iniciais, há uma reprodução de um ciclo, que foi fechado, que pode continuar, que pode voltar a se repetir e viver nessa constante variabilidade.


Somos presenteados com uma indagação: E se quebrássemos hora ou outra o eventual parâmetro cíclico, afinal, todo fim tem um começo e todo começo tem um fim. O brilhantismo da obra de Percy Adlon é cogitar esticá-lo. Estaríamos diante do começo do nosso próprio fim ou no fim do nosso próprio começo? Um passo além sempre é estar um passo atrasado. Como diria Rita Lee à Dostoievski após passarem por uma sessão musical á lá Tropicália, já passando o ecstasy pontual: “Faça hoje, amanhã pode ser ilegal”. E num país onde permitir aborto em uma menina de 10 anos, que foi abusada por um parente, se torna motivo para que sejam divulgados seus dados pessoais e discursos de ódio contra a mera criança e seus médicos seja tolerado, em defesa de Deus, família, lei e bons costumes , de fato estamos precisando definitivamente praticar mais ilicitudes. Nietzsche pecou em só matar Deus no sentido figurado.


Falando em assuntos retrógrados e inconsistência cognitiva básica olha lá se aproximando, nos fundos do Sertão, seria uma miragem? Seria Trump cavalgando no seu pônei de estimação, Jair? Ou a mais nova obra de Portinari esquecida pela esquerda caviar? Polanski e sua mais nova, com o perdão do trocadilho, vítima? Ah perdão, é só um personagem muito mal escrito, de criação problemática e moral duvidosa: um indivíduo liberal na economia, e conservador nos costumes. Foucault rapidamente fecha seu estabelecimento e faz uma auto citação:

Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmarmos, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa. Agora, de demônios, já bastam os meus.

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