Buscar
  • Jonathan Freitas

CRÍTICA: CISNE NEGRO (2010)

As prisões internas nos blindam da vida e nossa alma clama por liberdade quando nos esquecemos da coisa mais valiosa que possuímos. As camadas que destravam essas escamas humanas são conduzidas com uma narrativa majestosa em Cisne Negro, e cada suspiro de Nina é como um sopro ofegante atrelado sobre fortes correntes que se amarram em sua espontaneidade.



O filme perfura essas grades ao questionar a perfeição humana, que é tão inexistente aos arredores, porém habita dentro de nossos núcleos. Essa sensação não se trata do egocentrismo do indivíduo, e sim sobre um passo além do nosso carnal. São como as aberturas de portas interiores para o retrato de nossa formosura.

Inicialmente o longa apresenta quase todos os personagens com fortes funções narrativa. Seus estágios de construções são muito bem determinados e respeitam a sutileza da obra. Isto é um ponto interessante e complexo, tendo em mente que o filme também abrange um teor surreal.

Na sequência acompanhamos um processo de evolução majestoso da protagonista. O seu toque consigo mesma ao masturbar-se, uma noite de curtição quebrando seu ciclo rotineiro, o confronto com a paternidade, o sexo com o seu eu interior e a morte de sua inocência ao jogar seus brinquedos fora... É realmente impecável toda a profundidade na criação da personagem.

No êxtase de seu conflito, Nina utiliza um pedaço do seu reflexo em forma de vidro para assassinar o seu introspectivo incorporado no corpo de Lilly, entregando-se a si mesma por completo. Sua jornada encerra-se com a tão esperada dança final, um ritual que exala todos os seus estágios e concretiza tudo que a mesma sempre buscou.



É encantador o uso das cores nesta obra, o preto e o branco na cenografia e nos figurinos estão sempre reforçando essa dualidade entre os cisnes internos da personagem. Também nota-se o forte uso do tom rosado apresentando toda a sutileza, inocência e fragilidade de Nina.

É interessante como esse rosa anda de mãos dadas com o cinza, trazendo assim a neutralidade que ela precisa em determinados sentimentos para a sua própria evolução, isso fica perceptível no celular dela e em alguns figurinos ao decorrer da trama.


A fotografia é sóbria e fria, porém simultaneamente ela consegue trazer um tom pastel típico de filme francês, criando uma atmosfera que dança entre o drama e a suspense sem perder a simetria visual.


A qualidade de todo o quesito sonoro é extremamente notável, desde os sons de seus ossos que criam a ligação da personagem com o seu cisne, até os sussurros que auxiliam na formação de um clima de tensão extraordinário.


Novamente Darren Aronofsky nos entrega mais uma obra prima. O cisne negro me habita, habita em você e habita no interior de todos. Somos obstáculos nos nossos próprios caminhos e estamos a um pulo da nossa própria liberdade.


Crítica realizada por Jonathan Freitas.

Copyright © 2020 Cinema Alternativo®. Todos os direitos reservados.