Buscar
  • Bruno Madeira

CRÍTICA: EL TOPO (1970)

Jodorowsky, e a subversão fílmica e social.

Antes de começarmos a analisar a obra propriamente dita, é preciso estabelecer alguns conceitos, para que se possa compreender toda a contramão proposta por Alejandro Jodorowsky em sua obra prima "EL TOPO". O "western"; subgênero tão aclamado dentre todo o decorrer do século passado, porém principalmente marcante em sua metade, fora e ainda é um dos movimentos de maior importância aos Estados Unidos - definindo fortemente sua cultura e concretizando certos estigmas idealizados, que mal ou bem perduram até hoje. Esse subgênero que já não se faz tão imponente, como fora nos anos cinquenta por exemplo, sofreu diversas ramificações como em toda grande obra ocorre, e veio a se desenvolver muito na Itália principalmente por nomes como Sergio Leone - e seu famoso "western spaghetti". No entanto, ainda que a temática de velho oeste transcendesse a outras mídias, subvertesse suas ideias, ganhasse outros lares e outras visões possíveis. Essa ainda continuaria a ser um retrato puramente americano. Um retrato de tempos "tradicionais", um retrato de períodos de "simplicidade", um retrato orgulhoso do "conservadorismo" e muitas vezes uma prova dessa sociedade misógina, racista, xenófoba e qualquer outro preconceito que se queira atribuir, facilmente encaixará. Ou seja, de tão preocupado em representar um ideal americano que se considerasse digno, o western acabou por evidenciar todos esses maus costumes assumidos, que até então não se eram "maus", mas que só não eram aos privilegiados que não os viviam. E é bem nesse contexto que Jodorowsky então entra em cena, e de forma grandiosa "EL TOPO" é realizado e subverte tudo que poderia subverter.


A trama é a seguinte: um misterioso e místico pistoleiro, atravessa o deserto fazendo o que considera "justiça" com as próprias mãos, sem qualquer juízo de valor. Súbito, ele acaba por salvar uma bela mulher das garras de um déspota e seus capachos, então após derrotar o dito cujo, os dois (ele e a mulher) resolvem sair em uma jornada psicodélica ao deserto, onde o pistoleiro desafiará quatro mestres guerreiros, travando batalha com eles, para se provar digno de sua companheira. Nessa trama completamente incongruente, disfrutaremos de uma jornada de amadurecimento, iluminação, tomada da consciência e sábias alusões ao cristianismo, a sociedade conservadora e contemporânea, e ainda ao misticismo advindo do tarot - que por mais que não se faça tão claro aos leigos, acaba por dar uma camada preciosa de substância às linhas e entrelinhas da história.

O primeiro acerto do diretor já se está neste argumento primoroso; a união da "psicodelia" - movimento de vanguarda que vinha revitalizando a tal velha américa e abrindo seus olhos para questões nunca antes creditadas - junto ao "western" - subgênero que por mais rico que seja, sempre teve a tradição de representar a velha américa e suas maneiras conservadoras. Assim, acabamos por nos entregar a uma película forte, que além de puramente artística, também é completamente engajada e poderosa para seu tempo. A contraposição entre os novos e os velhos costumes conflitantes, ditam quase que todas as batalhas presente nas duas horas - pois de fato esta era uma batalha vigente na época. Há assim uma constante dicotomia, tanto dentro quanto fora da tela; seja entre os gêneros vigentes que se opõem frequentemente; seja pelo discurso que apresenta vários lados. Em um polo temos aquelas cidades clássicas do velho oeste; com os saloons, os bancos e a delegacia - cidades estas onde vivem os tradicionais (conservadores), muitas vezes possuidores de escravos e portadores de apoio a esta ideia; e no outro polo há os renegados - os ex escravos, os nativos, os deficientes e simplesmente qualquer um daqueles que represente algum tipo de ameaça a comunidade cidadã. Sendo assim, "EL TOPO" bebe desse turbulento balance para ditar sua narrativa, porém jamais segue algo esperado, pois como já disse, aqui Jodorowsky subverte sempre que possível, para quase que parodiar o western. O aspect ratio talvez não fosse o mais conveniente a filmar tais paisagens, os movimentos de câmeras são absurdamente ousados, tanto para época quanto para o costume do gênero, as reviravoltas não seguem nenhuma linha premeditada e sempre que possível, outra subversão se agrega a temática.


Não satisfeito, o filme ainda abre margem para muitos discursos e interpretações diversas perante o mostrado. Por exemplo: esta mentalidade dita "a frente do tempo"; essa que clama sobre paz, amor e psicodelia, muitas vezes se transfigura numa cortina, um tipo de grupo que simplesmente encobre seus próprios preconceitos e regressos evolutivos, em uma falsa superioridade coberta de pretensões e muito pouco humanitarismo. Este grupo que tanto clama por liberdade e igualdade, reserva em si diversos outros preconceitos, direcionados a tantos e tantos núcleos que simplesmente não os compadece. Certamente o filme assume que este é um processo que requer tempo, consciência e evolução; mas é apenas na certeza de se estar disposto a evoluir, que então o pistoleiro (nosso representante do amadurecimento humano perante os velhos costumes), adentra então uma jornada quase messiânica, abdicando do próprio ego, se tornando louvado, tomando a dor alheia e sendo esse tipo de Jesus psicodélico cowboy e acessível - tão acessível, que para nossa maior identificação, ninguém além do próprio Jodorowsky poderia o interpretar. Lutando rispidamente o eterno mau do conservadorismo.

Ao fim, de fato o caos é instaurado por ambos os lados, e todas as pendências e questões entre visões contraditórias são confrontadas de forma apoteótica. Num ar belo e esperançoso a obra finalmente se desprende dum possível discurso meramente pacifista e transcendental, e assume de fato a necessidade da turbulência e do caos; a necessidade duma mão mais firme e imponente para logo se alcançar a almejada paz... Ou quem sabe algo próximo a isto.

Copyright © 2020 Cinema Alternativo®. Todos os direitos reservados.