Buscar
  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: FUNNY GAMES (1997)

Texto por: Leonardo Bloise.

Revisão por: Laura Bloise


Michael Haneke é um diretor conhecido por gostar de testar os limites de seu público. Talvez “Funny Games” (também conhecido no Brasil como “Violência Gratuita”) seja um de seus filmes mais famosos. A obra, que subverte o subgênero do terror de invasão domiciliar, nos conta a história de uma família que, ao decidir passar as férias em uma casa de veraneio próxima a um lago, acaba refém de dois jovens psicopatas.



Vale começar dizendo que "Funny Games" é um filme terrivelmente desagradável. A câmera ostenta uma passividade difícil de se ver, com uma abundância de planos longos, abertos e estáticos, meramente observando o que acontece no ambiente e se movendo lateralmente para acompanhar os movimentos dos personagens no cenário. Temos aqui um filme com valor negativo de entretenimento. O diretor testa nossa paciência com um filme parado e até chato. No entanto, junte isso a atuações excelentes e um roteiro muito bem escrito e somos inseridos em uma realidade cada vez mais difícil de se acompanhar. Não diria que o filme chega a ser perturbador, mas é muito desagradável... e isso é tanto bom quanto ruim.


Por um lado, temos uma obra subversiva, questionadora, metalinguística e diferente de qualquer outra coisa que você já assistiu. Por outro, é impossível não achar o filme um tanto chato, pretensioso e autoindulgente. Dá, inclusive, para supor a grande influência que o cineasta foi para os diretores da “strange greek wave”, como o Yorgos Lanthimos, que obteve sucesso internacional pela primeira vez em 2009, com seu filme “Dente Canino” - com o qual eu tenho uma relação um tanto conflituosa.



Enfim, voltando a Funny Games. Obviamente, torcemos pela família durante todo o longa e a esperteza do filme está em nos colocar não apenas como um mero telespectador, mas como um cúmplice de todas as atrocidades que acompanhamos. Através de quebras pontuais da quarta parede, Haneke põe toda a culpa do que está acontecendo em nós, telespectadores, dando a entender que os personagens estão fazendo tudo aquilo para nos entreter.


Parte da inteligência do filme está, também, em não focar nos atos de violência (que em sua maioria ocorrem fora da tela), mas sim nas consequências desses atos nos protagonistas. Assim, o diretor te faz terminar o longo se sentindo extremamente mal e culpado do que foi presenciar. Inclusive, exatamente por isso, o filme é uma das poucas obras que eu já vi que questionam a violência em filmes sem usá-la de forma apelativa e/ou contraditória.


É um filme ambíguo e há muitos motivos para não gostar dele, mas há, também, muito o que se discutir. Mesmo a mensagem sendo um pouco óbvia (um filme com um questionamento bem básico, mas com uma pose de estar redescobrindo a roda), ela não deixa de ser verdadeira. Por que procuramos obras com violência gráfica e tortura psicológica? Se por um lado, o filme soa meio “boomer” demais, por outro ele dá um tapa na sua cara e te pergunta: “Ah, é violência e sofrimento que você quer? Isso te entretém? Então assiste aí!”.



A verdade é que, se o questionamento parece óbvio, a forma com que Haneke o faz não poderia ser mais singular. Nessa ambiguidade se encontra um bom filme que vale muito a pena ser conferido. Apesar de uma pose exagerada, o diretor extrai interpretações interessantíssimas do elenco e subverte todas as expectativas do público, virando o subgênero de invasão domiciliar de cabeça pra baixo e mantendo-nos engajados em sua história até o final.



Obs: Vale lembrar que aqui discorro sobre a versão original de 1997, porém sei que existe uma versão americana, lançada em 2007. Essa versão, protagonizada por Tim Roth e Naomi Watts e dirigida pelo mesmo diretor do original, é uma total simulação (plano a plano) do filme de 97. Não sei muito bem o motivo da existência dessa segunda versão, ainda mais se você analisa as duas lado a lado. Nunca assisti, mas quem sabe não dou uma chance qualquer dia, afinal, amo Tim Roth e Naomi Watts.