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  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: GAROTA INFERNAL (2009)

O terror comédia Jennifer's Body (conhecido no Brasil como Garota Infernal) é provavelmente um dos casos recentes mais impactantes de como um marketing pode destruir toda a proposta original de uma obra. O filme, feito por mulheres e para mulheres, é uma sátira ao ensino médio americano, que foi vendido pelos produtores como um filme destinado ao público masculino. Trailers, posters e todo o material de divulgação do filme, foram responsáveis por afastar o público que ele realmente se destinava.


Contextualizando a época: O ano é 2009, Megan Fox está no auge de sua fama (a saga transformers bate recordes de bilheteria), bandas emo de pop-punk, como Fall Out Boys e Blink-182, estão em alta... No cinema, a diretora Karim Kusama junta as duas coisas para criar um terror comédia que viria a ser um dos filmes americanos mais subestimados daquela década.



Garota Infernal é um filme que, a princípio, apresenta uma premissa apelativa e até absurda. Uma líder de torcida que acaba com um demônio no corpo, após uma tentativa mal sucedida de um sacrifício, realizada por uma banda indie de pop-punk que ansiava alcançar o estrelato. No papel principal, temos Amanda Seyfried, que interpreta a melhor amiga nerd, da líder de torcida mais cobiçada da escola: Jennifer (interpretada por Megan Fox, no papel mais memorável de toda a sua carreira).


Em sua grande maioria, filmes de terror que trabalham com comédia, acabam sendo mais voltados para a comédia que para o terror, com uma necessidade de deixar bem definido para o espectador, que aquilo se trata de uma cena "engraçada". Indo na contramão dessa "regra", filmes como Pânico, Nós, Evil Dead II e Garota Infernal conseguem trazer o elemento cômico em uma obra de horror através do absurdo das situações, com uma autoconsciência que não vê necessidade de se autoafirmar ou se explicar o tempo todo... O filme é engraçado e assustador por que ele é, e ponto.


Tem algumas cenas de Jennifer's Body, que são aterrorizantes (como a cena da geladeira), tem cenas que são absurdamente cômicas de tão absurdas, e tem outras que são dramaticamente muito fortes. Isso sem a diretora nunca atropelar um elemento com o outro, tudo só flui de maneira orgânica e, potencializa toda a proposta. Uma sátira que não quer apenas debochar, mas trabalhar com tendências de filmes adolescentes de high school e de terror slasher, para criar algo único em seu absurdo.


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O filme se interessa em trabalhar com temas de insegurança adolescente, jogos de poder no ensino médio... A ideia da nerd, do emo, do jogador de futebol, da líder de torcida... E vai potencializando todos os seus dramas através desses arquétipos que, em sua maioria, se abrem em muito mais possibilidades.


A direção de Kusama é absurdamente refinada, a escolha de planos e de movimentos de câmera é bastante calculada e sugere muito mais a violência do que mostra, porém, ainda intui alguns bons momentos de gore. A escolha de Amanda Seyfried e Megan Fox para os papéis principais, foi mais um acerto capital. As atrizes acreditam muito na história, e acabam por entregar muito mais camadas à suas pergonagens. É aonde entra o que disse, que os arquétipos são apenas pontos de partida que se abrem em muito mais possibilidades dramáticas. O texto da roteirista Diablo Cody (ganhadora do Oscar pelo roteiro de "Juno") é bastante inteligente e flui muito bem, mas é na direção de Kusama que o filme atinge sua potência.



Não se engane pelo pôster, pelo material de divulgação, pelos trailers... Garota Infernal é um terror adolescente que tinha em seu público alvo original (na obra concebida por Kusama e Cody) garotas adolescentes. Parte do ódio que o filme recebeu vem justamente por isso, homens jovens foram ao cinema, esperando um filme que operasse à Michael Bay, em cima da da beleza de Megan Fox, e encontraram algo bem diferente disso. Valorizo muito filmes de terror que conseguem ser engraçados, assustadores e dramaticamente engajantes, e tem-se em Garota Infernal, um dos melhores exemplos recentes de obras que conseguem induzir sensações que, apesar de parecerem conflitantes, se somam na criação de algo único e especial.


Texto por: Leonardo Bloise.