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  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: HARAKIRI (1962)

Atualizado: Abr 19

Texto por: Leonardo Bloise.

Revisão por: Laura Bloise


“Harakiri” (1962), é um dos filmes mais aclamados do lendário diretor japonês Masaki Kobayashi. O diretor, que também foi responsável pela trilogia “The Human Condition” e pelo filme “Kwaidan”, sempre foi um cineasta que tive muito interesse em conhecer. A importância de seu trabalho é frequentemente comparada a de outros diretores do cinema japonês, como Yasujiro Ozu, e Akira Kurosawa, o que despertava ainda mais minha curiosidade sobre seu cinema.


Sem ideia de onde começar sua filmografia (não sou tão fã de assistir a filmografia de diretores na ordem de lançamento, apesar de reconhecer que é um estudo muito interessante), me vi interessado no longa de 1966, “Harakiri”. O motivo? Pois além de já querer conhecer seu trabalho, o filme ocupa a notável posição de terceiro longa de ficção mais bem avaliado no Letterboxd.



Já tendo assistido a diversos outros filmes de samurai, dei play sem ler a sinopse, esperando um tipo de história. Para minha incrível surpresa, o filme não poderia ser mais diferente do que eu imaginava.


Através de sua mise-en-scène, Kobayashi questiona toda a ideia que relaciona a “honra” com o ato de seguir tradições milenares. O modo com que o diretor trabalha o gênero para questionar seus próprios valores transforma o filme em uma mensagem política das mais fortes e verdadeiras.


A história se passa entre 1619 e 1630, durante o Xogunato Tokugawa. Nela acompanhamos Hanshirō Tsugumo (interpretado por Tatsuya Nakadai), um guerreiro samurai sem um lorde que vai a um palácio pedir permissão para realizar o Harakiri (Seppukku), ritual no qual um guerreiro se mata com a própria espada, fazendo um rasgo em cruz em seu abdômen e expondo seus órgãos internos, no local. O líder do clã, então, suspeitando que o pedido seja uma estratégia para que os membros fiquem com pena e o presenteiem com dinheiro e alimento, conta a história de outro samurai que apareceu no palácio fazendo o mesmo pedido.



Sem mais detalhes da trama, o filme apresenta uma premissa simples e, a princípio, bem direta. Kobayashi opta com começar o filme focando em objetos, com uma trilha sonora que ressalta algo escondido pronto para se revelar a qualquer momento. Ele de cara nos mostra a importância que irá dar para os objetos e cenários e o quão importante estes são para a construção de sua narrativa. A trilha é energética e agressiva (como a de um filme de terror antigo), mas apresenta um minimalismo que se funde muito bem aos sons ambientes, proporcionando, além de uma sensação de presságio, uma forte inquietação. Inclusive, descobri pesquisando para esse texto, que quem assina a trilha é o compositor Tôru Takemitsu, que também é responsável pela linda trilha de “RAN” (Akira Kurosawa, 1985).


Chega até a ser uma tarefa complicada escrever sobre esse filme sem entregar pontos chave da trama. Mas, podemos dizer que se trata de uma reflexão sobre as tradições, sobre a importância de sempre questioná-las, visto que, seguir à risca costumes antiquados e vazios, só nos impede de sermos empáticos.


É interessante que, ao mesmo tempo que questiona, o filme apresenta como as tradições samurais importam para aquela sociedade. Porém, é óbvio que os mais "poderosos" sempre conseguirão moldar as regras à sua vontade, escolhendo seguir apenas o que lhes convém e passando por cima de qualquer pessoa que esteja no seu caminho. É justamente nesse ponto que percebemos como se trata de um longa político e progressista, que usa o próprio gênero para questionar seus valores, sem nunca parecer vazio, óbvio ou pretensioso.



Voltando, por fim, à atenção do cineasta com seus personagens, objetos e cenários. Ele nunca enquadra de maneira óbvia. Apesar de utilizar uma direção mais calculada, ele leva em consideração cada milimétrico espaço coberto por sua câmera (deve ser um dos filmes que melhor usam o formato em cinemascope), movimentando-a de modo discreto e inventivo. Kobayashi sabe a hora perfeita de quebrar a passividade da câmera com movimentos mais elaborados e repentinos, amplificando o impacto das cenas e chamando o telespectador para atentar-se a elas.


Kobayashi nos impressiona ao filmar de forma mais fechadas cenas extremamente dolorosas, desconfortáveis e difíceis de assistir, compondo, também, planos conjuntos elaborados e dirigindo cenas de ação com total controle, utilizando muito bem os ambientes para somar aos confrontos. Não importa se a cena se passa em local fechado ou aberto, tudo é perfeitamente calculado, estudado, o que não atrapalha de forma alguma as atuações, que são do nível mais alto possível (afinal, estamos falando de um filme protagonizado por Tatsuya Nakadai).



Kobayashi ainda eleva planos detalhes mais expressivos, utilizando-os para questionar o valor que damos a símbolos e bens materiais, lembrando-nos que, por vezes, acabamos esquecendo que, o que realmente importa, são as pessoas que amamos.



NOTA: 5/5 - OBRA PRIMA