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  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: JOGO DE CENA (2007)

Atualizado: Jan 27

Texto por: Leonardo Bloise.


Revisão: Laura Bloise.


Entre inúmeras camadas temáticas e interpretativas, um questionamento parece ser o mais evidente a ser levantado por Coutinho em "Jogo de Cena".


Mulheres contam suas histórias de vida para o cineasta e atrizes interpretam essas histórias, com isso, o diretor nos põe a instigante tarefa de separar realidade e ficção. Pode parecer uma tarefa simples, porém, aos poucos, você percebe que a linha entre interpretação e relato, verdade e mentira, atuação e realidade, é mais tênue do que parece.


A partir do momento em que alguém aponta a câmera e começa a filmar, o que o público vê é um recorte da realidade, o qual nasce na mente de quem filma e vive na de quem interpreta. Nesse sentido, através de "Jogo de Cena", Coutinho nos lembra que toda a narrativa é, de certa maneira, uma ficção, não existe imparcialidade na arte, a visão artística impede isso.


Então, isso quer dizer que todo documentário é, no fundo, uma ficção? Ou ainda, podemos indagar, a nossa vida não passa de uma mera encenação onde representamos nós mesmos?



Não sei se cabe a mim responder essas perguntas, mas é inegável que o filme nos põe para refletir sobre elas. Documentário é um ponto de vista, sempre, e está ligado à subjetividade de quem o idealiza, da mesma maneira que está ligado à subjetividade do público que assiste. Seguindo outro raciocínio, estamos sempre objetivando nos adequar ao meio social, através disso, desenvolvemos características e reações que são aceitas de acordo com os valores, normas e visões da sociedade em que estamos inseridos. Reprimindo nossos sentidos animalescos, possibilitando (ou não) o convívio em sociedade. Aí eu pergunto: O que isso difere da atuação?


Impossível assistir à obra e não lembrar, quase instantaneamente, do clássico “Close-Up”, de 1990, dirigido por Abbas Kiarostami. Filme que, a partir da alternância entre cenas reais do julgamento e cenas de encenação do ocorrido protagonizadas pelas pessoas envolvidas no caso julgado, também nos coloca para refletir sobre os limites entre ficção e realidade. Porém, em mim, o efeito do documentário brasileiro de 2007 foi ainda mais poderoso, já que, ao contrário de Kiarostami (que faz as linhas temporais obterem uma divisão mais delimitada através da utilização de filmes de diferentes formatos, situando mais o telespectador), utiliza a linguagem para nos confundir, brincar com nossas expectativas e, constantemente, nos enganar, fazendo do telespectador parte importante desse jogo.


Como o cineasta utiliza os elementos da linguagem para reforçar sua ideia, é uma aula a parte. A montagem desempenha um papel essencial no desenvolvimento. A falta de linearidade dos relatos é uma das principais responsáveis pela confusão do público, visto que o deixa em constante dúvida, ansioso para descobrir a verdade ou, ingenuamente, acreditando que a encontrou, apenas para depois ter seu tapete puxado e entender, de fato, o que o filme quer mostrar.



A escolha do teatro vazio, um local relacionado desde a Grécia antiga a encenação, mentira e ficção, é outro toque de mestre do documentarista. Os relatos são todos dados na mesma cadeira, com o mesmo fundo.


Ao nos deixar confusos, tentando separar os relatos "verdadeiros e pessoais" das "mentiras encenadas", o diretor quer, no mínimo, pegar emprestado as ideias inteligíveis que o público utiliza para diferenciar o filme ficcional do documentário, abalando esses pilares que sustentam o gênero artístico. Desafiando essa noção básica, o sentimento de confusão e, muitas vezes, de traição (ao se sentir "enganado) realmente nos faz questionar. É aí onde mora a força de" Jogo de Cena" (e de qualquer obra artística, na verdade), em fazer do público uma cobaia... terminar a sessão identificando um questionamento que nunca ao menos havia passado pela sua cabeça... Absorver a mensagem, sentar, escrever e tentar traduzir sua experiência, para no fim, perceber ainda mais a genialidade daquela obra.


Descanse em paz Coutinho, obrigado por tudo!


NOTA: 5/5 - JOGO DE CENA (2007)