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  • Giulio Bonanno

CRÍTICA: KILLA (AVINASH ARUN, 2014)

Texto por: Giulio Bonanno.


A experiência de assistir a um filme indiano, falado na língua marata, pode parecer, a princípio, distante ou desinteressante para qualquer espectador mal-acostumado. O filme de Avinash Arun teve sua estreia no festival de Berlim em 2014 e seus direitos de exibição foram adquiridos pela Netflix, que o disponibiliza em seu catálogo para vários países do mundo, incluindo o Brasil. Escondido em meio a séries de terror nostálgicas e superproduções de diretores consagrados, Killa (“o forte”) revela ser uma obra sensível ao apresentar realidades geograficamente distantes, porém convergentes, com a de outras vidas ao redor do mundo.


Chinu (Archit Deodhar) é um garoto de 11 anos que vive com a sua mãe, Aruna (Amruta Subhash), uma funcionária pública. Enlutados pela perda da figura paterna, a família encara essa dor concomitantemente aos desafios de viver numa cidade rural e desconhecida. Sem conhecer as particularidades do lugar, mãe e filho precisam conviver com a desonestidade e a indiferença de seus colegas e com as incertezas do futuro.


Dirigido e fotografado por Avinash Arun, Killa é um exemplo bem executado de tramas de crescimento, conhecidas pelo termo “coming of age”. Seu protagonista é um garoto de perfil mediador, que busca evitar conflitos diretamente ao mesmo tempo que observa com muita atenção o comportamento das pessoas ao redor. Na busca pela aceitação, oferece ajuda durante as provas, mas não deixa de fazer o que considera justo, como no momento em que salva uma cadela vira-lata de ser violentada pelos colegas.



Seja nos entornos da escola, nos jantares silenciosos com a mãe ou nos primeiros contatos com a sua futura turma de amigos, acompanhamos a rotina de Chinu de forma bastante subjetiva. Semelhante ao que fez Rob Reiner em Conta Comigo, a câmera insiste em manter uma baixa profundidade de campo, de modo que o ambiente apareça muitas vezes desfocado e distante, onde sempre há algo novo para explorar. Ao mesmo tempo, a luz natural é um recurso usado pelo diretor para realçar o contexto rural com traçados bucólicos, reforçando um teor de nostalgia e ternura que acompanha toda a experiência. Não há os traços realistas de um Ken Loach ou um Richard Linklater, aproximando o estilo de Arun a cineastas que apostam no saudosismo como Terrence Malick, Steven Spielberg ou até mesmo Hayao Miyazaki.


Tematicamente, Killa é um filme sobre superação. Seja da perda do pai, seja das intempéries da vida escolar e profissional ou com a mudança de casa, mãe e filho estão sempre imersos numa tentativa de reunir forças, aceitar suas condições e buscar um rumo. Há um processo de resistência por parte do garoto, que insiste em voltar para a cidade antiga e sente saudades do primo Sagar, com quem troca correspondências e confidências e cuja fisionomia jamais tornamos a conhecer. Sua mãe busca educá-lo pelo exemplo, se preocupando com o trabalho e mantendo certa frieza na hora de abordar assuntos pessoais, mas sem nunca deixar de exibir preocupação quanto à saúde física e mental de seu filho. A dinâmica entre ambos trabalhada aqui é um dos pilares do filme, e ganha destaque quando realizam um passeio turístico pelo farol da cidade e conversam sobre o acolhimento espacial e a passagem do tempo



Outro pilar é a relação de Chinu com seus colegas. Inicialmente assustado, ele passa a nutrir uma curiosidade, ao mesmo tempo que chama atenção dos garotos pela inteligência. É escolhido para ser o juiz nas corridas de bicicletas até ganhar uma própria, a partir da qual aproveita a oportunidade de se enturmar numa competição até o forte que dá nome ao filme. É nesse momento que Killa assume seu cume dramático em que o diretor explora as propriedades geográficas como possíveis rimas para situar o garoto em seu momento de vida.


Um dos discursos mais evidentes da obra é a retratação da solidão, ou da percepção desta, como gatilho para o amadurecimento. O diretor não economiza em planos contemplativos, com algumas inclusões da câmera lenta, para conferir uma sensação de isolamento aos personagens. Podemos ver isso já no começo do filme, quando, em primeira pessoa, acompanhamos Chinu voltando para casa após um passeio noturno em seu primeiro dia na cidade. Essa abordagem é repetida diversas vezes, tanto antes, quanto após a famigerada corrida de bicicleta, e inclui não só enquadramentos sobre o garoto, como também trabalha essa lógica no drama em que se encontra a mãe enquanto esta lida com uma situação delicada em sua vida profissional.



Um elemento estético do qual Avinash Arun se aproveita bastante é a trilha sonora composta por Naren Chandavarkar e Benedict Taylor. Combinando com a tonalidade bucólica e com a questão do isolamento, as notas de violão surgem de forma difusa e de caráter modal, em que mal se percebe a formação de acordes ou a subordinação a uma escala. Estabelecem os degraus de uma escada contornados, esporadicamente, por harmonias lúdicas de violinos e sintetizadores meditativos. Trata-se de um caso interessante em que as escolhas temáticas e formais do diretor encontram ecos nas abordagens impressionistas das composições.


Além do tato pessoal conferido por Avinash Arun ao roteiro de Tushar Paranjape, há também um cuidado técnico apurado, vide às atribuições da gramática visual e das apropriações sonoras ao andamento da trama. O filme foi laureado com o Crystal Bear no festival de Berlin, uma premiação dedicada a obras de temáticas infanto-juvenis, e seu diretor, além de cuidar da fotografia de grandes produções do cinema indiano, participou da criação da série policial Paatal Lok.



Sempre defendi minha paixão por cinema como uma forma de conhecer visões de mundo diferentes da minha. É engraçado como Killa, mesmo realizado tão longe e com características tão próprias do seu lugar de origem, desafia essa argumentação. É uma peça conciliadora com muitas de minhas experiências na infância, na adolescência e na juventude. Numa visão automatizada, o classificaria como um comfort movie. Percebo uma identificação com o personagem, tanto pela personalidade, quanto pela situação em que se vê traído ou desconfiado de seus pares. Encontro na visão do diretor um resgate de memórias em comum. Paradoxalmente, me sinto menos sozinho.