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  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: MANK (2020)


David Fincher é um dos nomes mais reconhecidos de sua geração. Um diretor que sempre teve olhos especiais para o suspense, já tendo nos entregado obras magníficas como "Seven", "Zodíaco" e "Garota Exemplar", Fincher é um mestre na arte de manipular o telespectador, apresentando obras com tramas envolventes e finais surpreendentes. Sua direção sempre opta por uma certa "formalidade", com um estilo de decupagem mais "clássico", a escolha de planos objetivos, movimentos de câmera cuidadosamente calculados, e uma utilização recorrente das cores azul e amarelo.


Tendo dito isso, como seu estilo tem bastante apelo com o público, fiquei surpreso ao encontrar em "Mank" (2020) uma obra mais "restritiva", que opta em se direcionar para um nicho de telespectadores, uma escolha que contrasta com a filmografia do diretor.


No filme, acompanhamos Herman J. Mankiewicz, durante o período em que escreveu o roteiro que viraria a obra prima de Orson Wells, um dos filmes mais importantes da história, o clássico: "Cidadão Kane", lançado em 1941.


Isso nos leva um ponto importante da análise que é:

NÃO VÁ ASSISTIR A "MANK" SEM TER ASSISTIDO A "CIDADÃO KANE"*

*Está disponível para aluguel em HD (com uma qualidade incrível) no Google Play.

O filme se utiliza de vários diálogos entre Mankiewicz e outras figuras da Hollywood clássica, para tentar buscar interpretações acerca da história do filme de Orson Wells. Fincher presume que você já assistiu ao filme, e caso você não tenha, a experiência pode se tornar tediosa, já que você simplesmente não vai entender a finalidade daquelas diálogos e seu significado.


Isso eu já esperava, mas algo que realmente me surpreendeu, é o fato do filme exigir um conhecimento mais aprofundado sobre as figuras da Hollywood clássica para um aproveitamento integral da obra. É um filme que gera, após a assistida, a busca por uma leitura complementar acerca daquelas pessoas. Esse é até um dos motivos pelo qual eu digo que é uma obra que destoa da filmografia do diretor, por não possuir (nem almejar) um apelo maior com o público mais casual.

Pra mim, o ritmo do filme foi um pouco problemático, ele começa muito bem e fecha muito bem, porém senti que o segundo ato se alongou mais que o necessário. Até alguns flashbacks "menos essenciais" acabam quebrando a história principal, o que ressalta esse problema de ritmo. Para quem não conhece bem aquelas figuras históricas, ou o contexto histórico do período, a experiência pode se tornar um pouco confusa e repetitiva, pois Fincher faz questão de não contextualizar todas as situações e nem explicar detalhadamente quem são todos os personagens secundários.



A fotografia é muito bem pensada e sobram acertos para Erik Messerschmidt (que já havia colaborado com Fincher na série "Mindhunter", também da Netflix), a fotografia em preto e branco e a granulação tentam simular um filme passado naquela época. O trabalho de superexposição, bem como a utilização do contraste entre sombras são referências visuais que remetem diretamente ao filme de Wells, o que torna uma escolha estilística interessante.

Como a obra apresenta a sequência de acontecimentos de uma forma não linear, intercalando a narrativa principal com flashbacks, o filme utiliza outro recurso interessante para não confundir o público. A utilização de cartelas em forma de cabeçalho de roteiro, uma escolha elegante e que remete diretamente a temática do filme.


As atuações são ótimas (como de costume nos filmes do Fincher). Lily Collins, Tom Burke e Amanda Seyfried estão excelentes. Gostei bastante da escolha do Garry Oldman para o protagonista, acho que seu carisma acrescenta muito a narrativa. O maior destaque, porém, vai para Allis Howard como Louis B. Mayer, que, com uma performance fantástica, deve conseguir uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Falando no Oscar, esse projeto vem para ser indicado em praticamente todas as categorias técnicas, além das possíveis indicações de Allis Howard, Amanda Seyfried e Garry Oldman.

O longa se utiliza, de modo muito interessante, do contexto político da época, mais especificamente da eleição para governador que ocorreu na Califórnia em 1934, o que propõe ainda mais uma leitura complementar posterior por parte do telespectador. O filme tem um teor político forte (o que é muito positivo), e isso adiciona mais camadas a narrativa, além de desenvolver discussões bem interessantes. Só acho uma pena a simplificação de alguns personagens e situações... Penso que o roteiro poderia ter trabalhado mais o personagem do Orson Wells, por exemplo. Roteiro que, por sinal, é assinado pelo pai de David, Jack Fincher, o que reforça ainda mais o caráter extremamente pessoal do projeto. Creio que a beleza de "Mank" se encontra justamente nesse ponto, é o filme mais pessoal de um dos maiores diretores de sua geração, e isso certamente tem um peso incrível. É um projeto caro e grandioso, e fico feliz que a Netflix produziu. É uma pena, porém, que essa não conseguiu adquirir os direitos de "Cidadão Kane" para seu catálogo, seria lindo pensar nas pessoas assistindo ao clássico de 1941 e a "Mank", um após ao outro, na mesma plataforma, o que, infelizmente, ainda não é possível.



Mank é um filme grandioso, pessoal, político e restritivo, assinado por um dos diretores mais talentosos da geração. Possui alguns problemas no ritmo, e é claramente direcionado a um nicho específico, porém é um lançamento obrigatório para fãs de cinema, do diretor e de Cidadão Kane.


NOTA: 3,5/5 - Mank (2020)



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