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  • Jonathan Freitas

CRÍTICA: MARTYRS (2008)

Atualizado: Abr 8

Brutalidade, sangue, insanidade, escuridão... Realmente é uma tarefa quase impossível descrever Martyrs em poucas palavras. O filme de 2008 escrito e dirigido por Pascal Laugier, sem dúvida, é uma das obras mais marcantes do Novo Extremismo Francês. Demonstra de forma nítida, como, a palavra limite é inexistente quando abordamos sobre esse movimento cinematográfico.



Mesmo não o reconhecendo, o longa consegue trazer o limite de forma diferente, atuando como uma incógnita. Tornando-o, um conjunto de letras que persiste nos questionamentos que impregnam em nossa cabeças.

Afinal, qual é o limite do psicológico humano?

Seja na visão dos torturados, que carregam consigo traumas e dores que permeiam a eternidade de uma vida. Podendo até leva-la ao fim de extremamente trágica.

Seja na visão do torturador, onde a psicopatia ultrapassa todos os graus do que podemos considerar como extremo. Nos conduzindo até um estágio em que, a humanidade do ser vivo, ou melhor, “ser morto”, torna-se algo que vai além do inexistente. Nem possuindo a maior quantidade universal dos sinônimos de monstruosidade, teríamos o suficiente para descrever tamanho nojo que temos desta espécie.

E pensando bem, até mesmo os limites na visão do espectador, que mesmo tratando-se de uma ficção, aceita visualizar por quase duas horas, uma conjuntura de amostras em tela que vão além do que consideraríamos perturbador.

Ao mergulhar neste mar de reflexões, uma desses questionamentos mais marcantes, é semelhante ao que fazemos diariamente quando ligamos um noticiário. Até onde os seres humanos irão para obter respostas que atendam aos seus próprios interesses?


É extremamente chocante, a forma que a obra apresenta a realidade cotidiana de mentes, que infelizmente, encontram-se mergulhadas sobre sobre a psicopatia das perturbações. Em uma cena temos um café da manhã familiar passivo, em outra, visualizamos um tipo de calabouço no subsolo da residência destes parentes. Já mais a frente, vemos o torturador de Anna, tomando banho calmamente logo após espanca-la. Enquanto isso, uma mulher que também a tortura, prepara tranquilamente a “comida” que empurrará goela abaixo da personagem.

É interessante como o gore é trazido de forma a agregar a obra, não buscando ser algo cem por cento gratuito, pois além de ser fundamental para a criação de uma atmosfera suja, também intensifica o conflito pertinente entre o físico e o mental. Outro ponto que chama bastante atenção, é a forma que articula-se a figura demoníaca, pois ela surge como uma ferramenta que leva-nos até grandes sensações de mistério, e vem a servir de metáfora aos traumas que perseguem Lucie.

Tecnicamente, o filme apresenta-nos, uma diversidade de características extremamente marcantes através de seus elementos expressivos. Duas das quais, com certeza, destacam-se bastante, são a decupagem e a montagem.

A escolha de trabalhar com uma quantidade considerável de planos fechados, juntando isso com uma câmera em mãos intensamente trêmula, funcionou perfeitamente com os frenéticos e rápidos cortes.

Esse conjunto traz uma alta carga de adrenalina e uma sensação de sufocação contínua, fazendo com que determinados momentos tornem-se mais macabros e extremamente angustiantes. Em algumas vezes, até claustrofóbicos.

As atuações de Mylène Jampanoï (Lucie) e Morjana Alaoui (Anna), também são impressionantes. As duas protagonistas se entregam por completa a perturbação da narrativa, passando através de suas expressões faciais um misto de revolta e melancolia extremamente impactante.



Por fim, temos um desfecho que brinca na gangorra do existencialismo, e sua não unilateralidade funciona excepcionalmente neste momento. O filme abre margem pra um debate extenso, podendo ser visualizado desde os campos das ciências humanas, até a alta cúpula da religiosidade.

Aquele famoso ditado: "Um filme nunca acaba quando termina". Nunca fez tanto sentido como aqui.

E Martyrs, só chegará ao final no momento que atravessarmos o carnal e furarmos o próximo plano metafísico. Porém, quem sabe não estamos errados neste exato momento ao chegarmos nessa conclusão? Só o futuro irá responder estas questões, ou talvez, nem ele.


Crítica realizada por Jonathan Freitas.