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  • Jonathan Freitas

CRÍTICA: MARTYRS (2008)

Atualizado: Fev 16

Brutalidade, sangue, insanidade, escuridão... Realmente é uma tarefa quase impossível descrever Martyrs em poucas palavras. O filme de 2008 escrito e dirigido por Pascal Laugier, sem dúvida, é uma das obras mais marcantes do Novo Extremismo Francês, e demonstra como o limite é uma palavra totalmente inexistente quando abordamos sobre esse movimento cinematográfico.



Apesar desta obra desconhecer o significado do limite, principalmente quando falamos sobre sua abordagem, o longa traz consigo esse conjunto de letras como algo pertinente nos questionamentos que impregna em nossas cabeças.

Afinal, qual é o limite do psicológico humano?

Seja na visão dos torturados que carregam consigo traumas e dores que permeiam a eternidade de uma vida ou mesmo a finalizam.

Seja na visão do torturador, onde a psicopatia ultrapassa os graus de extremidade e nos conduzem a um estágio em que a humanidade do ser vivo, ou melhor, “ser morto”, torna-se algo que vai além do inexistente. Os sinônimos de monstruosidade se tornam insuficientes para descrever o tamanho nojo que temos desta espécie.

E até mesmo os limites na visão do espectador, que mesmo tratando-se de uma ficção, aceita visualizar por quase duas horas uma conjuntura de amostras em tela que vão além do que consideraríamos perturbador.

Dentre tantas reflexões, uma das mais marcantes é semelhante à que fazemos diariamente quando ligamos um noticiário. Até onde os seres humanos vão para obter respostas que atendam aos seus próprios interesses?


A maneira que a obra mostra a naturalidade cotidiana da psicopatia em mentes perturbadas também é extremamente chocante. Em uma cena temos um café da manhã familiar passivo, em outra visualizamos uma espécie de calabouço no subsolo daquela residência. Já mais à frente do filme vemos o torturador de Anna tomando banho calmamente logo após espanca-la, enquanto isso uma mulher que também a tortura prepara tranquilamente a “comida” que empurrará goela abaixo da personagem.

É interessante como o gore é trazido de forma a agregar a obra e não busca ser algo cem por cento gratuito, pois além de ser fundamental para a criação de uma atmosfera suja, também intensifica o conflito pertinente entre o físico e o mental proposto pelo roteiro. Outro ponto que chama bastante atenção é a forma que é articulada a figura demoníaca, fortalecendo as sensações de mistério e servindo de metáfora aos traumas que perseguem Lucie.

Tecnicamente o filme nos apresenta uma diversidade de características extremamente marcantes através de seus elementos expressivos, duas das quais com certeza se destacam bastante são a decupagem e a montagem. A escolha de trabalhar com uma quantidade considerável de planos fechados e juntar isso com uma câmera em mãos intensamente trêmula funcionou perfeitamente com os frenéticos e rápidos cortes. Esse conjunto traz uma alta carga de adrenalina e uma sensação de sufocação contínua, além de tornar os momentos mais macabros extremamente angustiantes e em algumas vezes até claustrofóbicos.

As atuações de Mylène Jampanoï (Lucie) e Morjana Alaoui (Anna) também são impressionantes, as duas protagonistas se entregam por completa a perturbação da narrativa e passam através de suas expressões faciais um misto de revolta e melancolia extremamente impactante.



Por fim, temos um desfecho que brinca na gangorra do existencialismo e sua não unilateralidade funciona excepcionalmente neste momento, o filme abre margem pra um debate extenso podendo ser visualizado desde os campos das ciências humanas, até a alta cúpula da religiosidade.

Aquele famoso ditado: "Um filme nunca acaba quando termina". Nunca fez tanto sentido como aqui.

E Martyrs só irá chegar ao final no momento que atravessarmos o carnal e furarmos o próximo plano metafísico, porém quem sabe não estamos errados neste exato momento ao chegarmos à esta conclusão? Só o futuro irá responder estas questões, ou talvez nem ele mesmo.


Crítica realizada por Jonathan Freitas.

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