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  • Bruno Madeira

CRÍTICA: NOITES DE CABÍRIA (1957)

Atualizado: Jan 12


É bastante comum em nossa cultura, vermos o conceito de "virgindade" relacionado frequentemente ao conceito de "inocência", "pureza". Sendo assim quem é desvirginado, automaticamente perderia seu teor - qualquer que fosse - de inocência, e passaria então a ser um ser de maturidade e frieza elevada quanto as matérias da vida. Um daqueles seres com um olhar quase niilista perante o que o cerca, e de certo um tanto maligno em suas próprias intenções. Dessa maneira, se seguirmos esta lógica, então de fato uma prostituta provavelmente seria uma das pessoas mais frias, impessoais, egoísta, e acima de tudo não inocentes que se poderia ser. Porém não se engane, Federico Fellini em toda sua maestria é capaz de provar a nós o completo contrário, e mostrar-nos que Cabíria, apesar de sua profissão, consegue muitas vezes ser tão inocente quanto uma criança ou um idoso. Característica tal que por vezes a é favorável, e em outras se é quase o fim de sua vida.


NOITES DE CABÍRIA é uma das obras máximas desse diretor tão cultuado, e uma das mais importantes de seu movimento. Uma película recheada de camadas e pormenores, tão exemplares quanto pode-se ser, em cada campo que se propõe atuar. Um filme de design de produção impecável e ao mesmo tempo flexível, indo de cenários minimalistas e ruralistas (tão comuns do neo-realismo italiano), até ambientes exóticos e de extrema luxúria. O mesmo se segue pelo figurino e a fotografia; variando entre imagens mais lavadas - retratando a simplicidade do rural - e iluminações fortes, vivas e variadas - intensificando todo o erotismo e ar de desejo que permeia estes momentos.


A película de 57 é uma das obras de fato mais duras do diretor. Porém ainda uma obra de teor esperançoso, assim como Cabíria: uma jovem mulher, que não se deixa abalar pela vida tão mísera, e que ainda em seu estado profissional, e em experiências ruins do passado, segue sonhando com um possível amor. Um sonho bastante improvável e contraditório, mas que com ajuda de sua inocência, segue a persistir-se sem qualquer sombra de abalo.

No entanto, ainda assim não pense que Fellini é tão inocente quanto nossa querida protagonista. O diretor possui completa noção de que grande parte de seus problemas, são oriundos dessa necessidade de amor. Essa necessidade de um companheiro. Um parceiro. A tão besta carência de se casar, alimentada pela igreja cristã, de fato é a faísca capaz de explodir a terrível bomba, que é a leviana confiança em alguém que não o ama. É exatamente esse dogma irracional, que move pessoas tão distintas a se casarem, e levarem a vida inteira com alguém que não as ama, alguém cheio dos interesses, alguém incompatível, ou alguém que queira sua morte. O filme orquestra perfeitamente um ar de ação e reação, e uma dicotomia de plena contradição, mostrando a nós uma personagem que certamente melhoraria a vida caso casasse, porém que tem muitas vezes essa necessidade movida exclusivamente a uma influência exterior. A igreja.


É inegável a emoção causada por NOITES DE CABÍRIA. Esse é um filme forte e evocativo, capaz de tocar de varias maneiras quem o assiste, transcendendo seu próprio lugar como expressão artística em qualquer um dos meios. Talvez esse seja um dos filmes mais memorados do diretor exatamente por isso. Pois ele não é só um filme; ele é um musical, uma pintura, uma orquestra, um poema, uma crítica, e ainda um belo por do sol.


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