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  • Jonathan Freitas

CRÍTICA: O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (1968)

Atualizado: Abr 27

Um retrato do subdesenvolvimento enquadrado por Sgarnzerla.


Como um casamento entre a realidade e a ficção, o longa de 1968 dirigido e roteirizado por Rogério Sgarnzela, aborda a história de João Acácio Pereira da Costa, mais conhecido como "O Bandido da Luz Vermelha", um dos maiores psicopatas que já pisou em solo brasileiro. Utilizando desta premissa, a obra explora os mais atípicos aspectos das mazelas sociais latino-americanas, indo desde às suas caricaturas externas, até o existencialismo introspectivo de seu povo.


Abdicando do sentimentalismo, o filme articula a figura do Bandido da Luz Vermelha, fugindo das narrativas convencionais onde o criminoso possui uma justificativa para provocar o horror. Na trama o mal é movido apenas pela terrível crueldade, e nem os momentos de pura navegação existencialista soam como motivo para tais atitudes do protagonista, que está sempre apresentando sua personalidade sarcástica e debochada, principalmente quando comete seus crimes.


O ato de comer uma omelete feito pela própria vítima enquanto executa suas barbaridades é uma demonstração perfeita disto.



Além disso, a dimensão da grandeza deste personagem ainda se profere simbolicamente e analogicamente de forma crítica as grandes autoridades, sendo um símbolo representativo de toda a catástrofe que é o nosso ambiente sócio-político. É notável uma forte ligação entre a figura do Bandido da Luz Vermelha, e o Político J. B da Silva, já que ambos são movidos pela destruição e não se importam com os seres humanos ao seu redor, assassinando-os de forma fria, seja com uma facada no estômago ou desviando alguns milhões de reais.

Por sinal, qualquer semelhança entre as iniciais de J.B com as do atual presidente da República Federativa do Brasil é mera coincidência. Como já diziam os radialistas:


“Qualquer semelhança com tais pessoas vivas. Mortas ou Imaginárias. É Mera Coincidência.”

Radialistas do filme O Bandido da Luz Vermelha.


É interessante como o universo da obra é moldado de forma a sempre explicitar o Terceiro Mundo, ou seja, o mundo subdesenvolvido, apresentando toda a desilusão das pessoas que o habitam. Porém, o filme não se permite a utilizar deste fator como algo que venha a defender as atitudes do criminoso. Sgarnzela ancora-se na diversidade cultural do nosso continente para reforçar estes pontos, conectando-se com uma pluralidade de gêneros, e criando assim uma autenticidade que talvez apenas o Cinema Marginal poderia nos entregar.


Temos, por exemplo, a figura dos radialistas transitando magistralmente entre o documental e a ficção, além de nos servirem diversos alívios cômicos que flertam diretamente com a comédia, fazendo com leveza uma pesada crítica as mídias sensacionalistas. O clima Noir se apresenta nas cenas de teor policial e a fotografia fortemente luminosa eclodi nos momentos introspectivos, um contraste que facilmente se perderia caso não fosse manuseado primorosamente. É imensurável essa abundância de riquezas cinematográficas acasaladas pelo autor da obra, que escreveu o seguinte durante as gravações deste filme em seu Manifesto do Cinema Fora-Da-Lei:


“Meu filme é um far-west sobre o III Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; um far-west, mas também musical, documentário, policial, comédia (ou chanchada?) e ficção científica. Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia, o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann).”

Rogério Sgarnzela.


Como o próprio diz, seu filme é um far-west do terceiro mundo, e O Bandido da Luz Vermelha, formula toda uma desconstrução do faroeste americano durante sua uma hora e trinta e dois minutos de filme. Fazendo assim uma parodização do gênero western e ridicularizando o imperialismo cultural norte-americano.


Por fim, temos um desfecho completamente apoteótico que apresenta diversas paranoias pertinentes para o período de surgimento da obra, principalmente paranoias estadunidenses, como, por exemplo, invasões alienígenas e guerras nucleares. Porém, o povo brasileiro segue de pé e sambando sobre o caos, pois a paranoia não reside no povo em si, mas sim em quanto as negligenciamos em pró de uma cultura massificada do entretenimento.



Crítica realizada por Jonathan Freitas.