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  • Bruno Madeira

CRÍTICA: O ESPANTA TUBARÕES (2004)

Atualizado: Mai 12

SHARK TALE, ou O ESPANTA TUBARÕES de Bilbo Bergeron, Vicky Jenson e Rob Letterman é uma clássica animação dos anos 2000, onde se fora muito comum obras dessa envergadura abordarem de maneira criativa, os aspectos, as características e os dramas sociais do nosso cotidiano como seres humanos, no entanto, os adaptando para uma realidade completamente a parte; neste caso a vasta vida marinha. Esse é o ponto proeminente aqui neste brilhante filme de 2004 da DreamWorks que vemos. Porém, mais do que uma mera replicação tradicional do que esse formato se propõe, aqui os criadores vão além; e vão além em diversos sentidos, tornando dessa, uma de suas peças mais ricas e relevantes durante anos.


Antes de nos aprofundarmos na trama e nos aspectos técnicos em si, devemos listar alguns dos muitos colaboradores da obra, para que assim se possa entender o quão genial esta película é, e o porque dela ser. Dentre os muitos envolvidos, se destacam nomes icônicos como: Will Smith, Jack Black, Angelina Jolie, ROBERT DE NIRO e MARTIN SCORSESE; estes dois últimos meticulosamente glorificados, por motivos que especificamente tornam desse filme não só "mais uma animação divertida para as crianças e para seus pais", porém também uma rica e admirável homenagem reflexiva a todos aqueles engajados de alguma maneira na sétima arte.


Então vamos a trama: em Southside Reef, uma cidade magnificamente inspirada em Nova york – porém sob o mar – acompanhamos a vida de Oscar, um jovem malandro e desajeitado, que trabalha muito mal em um lava-jato de baleias, a mando dum chefe neurótico e magnata. Lá acompanhamos sua relação de amor e inocência por Angie – a atendente do lugar, e seus trambiques com o chefe e seus capangas. Em meio a isso tudo, e seu tolo sonho de algum dia se tornar rico e reconhecido, Oscar se encontra em uma situação peculiar onde por uma mentira sua, ele vem a ser considerado o grande assassino de tubarões da cidade: como se este fosse um herói nacional. Porém tudo desanda, assim que o chefe de uma máfia de tubarões ouve rumores de que a morte de seu filho teve ligação direta com esse falastrão metido a durão, e decide lutar por vingança.

A trama, por mais que simples, já abre um leque gigantesco de possibilidades para ótimas sacadas e criatividades capazes de enriquecer a experiência cinematográfica para todos os públicos. Minha primeira a citar seria a genial criação de universo; aqui, mais do que uma replicação barata de Nova York sob o mar, vemos também toda uma aura própria dada ao cenário que vem a se desenrolar para nós sonora e visualmente. Cada detalhe é milimétricamente pensado e concretizado em tela; e não só para o fascínio dos que o veem pela primeira vez, mas também para o público mais maduro, que não vai se entediar ou sentir falta um momento sequer de referências – fazendo a cada oportunidade uma ótima e genial sacada quanto a nossa realidade, e a dos nossos comparsas marinhos – tão iguais e tão diferentes.


Dito isso, gostaria de aqui fazer minha segunda citação, sendo esta a que mais me agrada – e não atoa –, que são as inteligentíssimas piscadelas que a animação dá a nós cinéfilos. Melhor dizendo: as piscadelas dos realizadores cinéfilos, para seus espectadores e apreciadores cinéfilos de todo o mundo; me trazendo assim, enfim para os glamourosos nomes ressaltados no início de que tanto quero falar. Martin Scorsese e Robert De Niro; sim, duas das maiores figuras de toda a história do cinema. Dois homens que se uniram, partilharam de seus talentos e juntos tornaram-se grandiosos e aclamados. Mas por que? Bem, se formos analisar de forma generalizada, De Niro obviamente teve e continua tendo relevância por todos (literalmente todos) os papéis que já fez. E o mesmo pode ser dito para o querido Martin, por mais que tenha seguido diferentes rumos em sua carreira, cada obra sua é amplamente aclamada e quase sempre compartilhada ao lado de seu compatriota Robert. Porém, quando pensamos na prosaica união desses dois gênios e em seus particulares destaques canonizados individualmente, logo nos vêm à mente suas figuras como os grandes nomes e disseminadores do subgênero dos filmes de "gangsters". Vemos seus épicos, seus sucessos e todo este reconhecimento friamente interligado com a densidade violenta do subgênero mafioso. E bem, aqui chego ao ponto que mais me excita e faz dessa obra um "petardo". Não é atoa a união desses dois gênios nesta animação completamente fora ao que ambos costumam fazer – principalmente a Martin. Não conheço bem o trabalho e as particularidade de nenhum dos três diretores envolvidos aqui – talvez já tenha visto singulares obras, porém nada de que eu viesse a saber – no entanto, é extremamente palpável a homenagem e o respeito que eles tem por esses grandes mestres (sem deixar de os provocar quando necessário). O ESPANTA TUBARÕES ou SHARK TALE é de forma sútil e maravilhosa uma homenagem a esses revolucionários do cinema. É uma carta de amor que mostra o como nos mais variados âmbitos da sétima arte, figuras como estas continuam mais relevantes do que nunca, e ainda uma ótima crítica sem perder jamais o respeito – tanto que os dois queridinhos se disponibilizaram de pronto e fizeram um trabalho de ponta, como é de praxe a ambos. Nessa divertida animação, mais do que fascinar as crianças, arrancar boas sacadas dos adultos, homenagear o cinema, tratar sobre disfunção familiar e até temas como homofobia; vemos ainda uma incrível (e digo isto com todas as letras) reflexão sobre todo o discurso e elucidação da temática "gangster" reinada por Scorsese e Robert. Por mais que ambos tenham sido gênios, e tenham mudado toda a história do que essa temática poderia vir a ser, o enredo em sua essência ainda possuía uma grandiosa aura a romantizar e glamourizar esse submundo do crime, mesmo que a evidenciar a violência e as tragédias decorrentes disso tudo. Eles não se prendiam a pudores, nem na riqueza nem na tristeza, deixando ao público a função de decidir o que possui mais validade. Sendo assim, a animação aqui falada segue o rumo exatamente contrário, ela explicita a burocracia e as relações magnatas, porém ao chegar no glamour e na violência ela nos contra ataca com a comédia – nos pegando de surpresa. Fazendo nós não simplesmente rirmos de um causo atroz como a violência e a luxuria, mas sim a imensa estupides por trás disso tudo. A estupides humana, e sua lógica violenta. Reflexão essa proposta lá em 2004, nesta mera animação, mas que ao meu ver, Scorsese só foi capaz de fazer jus a tão digna discussão como esta (e neste âmbito), 15 anos depois, ao realizar seu clássico instantâneo O IRLANDÊS.