Buscar
  • Giulio Bonanno

CRÍTICA: O GIGANTE DE FERRO (THE IRON GIANT, 1999)

Ao longo da vida, percebemos pontos de vista diferentes com certa recorrência. Se tem algo que faz parte da definição de maturidade, eu chamaria de descrença. Seja ela positiva, como quando abandonamos a ideia de que vivemos para sempre, ou perigosa, quando percebemos que a humanidade caminha para em direção ao autoextermínio. É complicado, mas acho que, desde criança, fui ensinado a juntar partes de heróis do passado para não me perder em meio à descrença absoluta.


Por isso me identifico com o jovem Hogarth Hughes, que adora explorar os arredores de Rockwell, onde reside, em busca de novas emoções. Órfão de pai e com a mãe sempre atarefada no trabalho, o garoto transforma sua solidão em oportunidade para reproduzir as aventuras dos quadrinhos que lê e dos filmes de terror que assiste. Quando um misterioso artefato gigante se alimenta das fiações elétricas de uma usina, cortando seu barato e o deixando no escuro, Hogarth sai armado e de capacete querendo tirar satisfações com aquela suposta ameaça.



O diretor Brad Bird é famoso principalmente pelas parcerias com a Pixar, garantidora de liberdades criativas que escancaram uma certa profissão de fé em fazer da animação um pilar da história do cinema - e da qual me alinho fervorosamente. Ao lado de Tim McCanlies, adaptou a obra do britânico Ted Hughes de modo a reproduzir impressões de mundo pertinentes a uma criança da década de 1950. Somos convidados a refletir sobre aquilo que faz de nós um cidadão, um ser social integrado a uma ideia de nação e subordinados a um sistema de governo, enquanto contemplamos a gênese de uma improvável amizade entre Hogarth e o gigante que dá nome ao filme.



Quando analisamos O Gigante de Ferro dentro do contexto de seu lançamento, percebemos uma certa afobação da Warner perante uma concorrência avassaladora. Em 1999 tivemos Tarzan, Toy Story 2 e produções derivadas de South Park e Pokémon que fizeram um bom barulho nas bilheterias. O investimento publicitário do filme foi precário e ele poderia virar só mais um desenho esquecido de uma década em que o mercado estava superaquecido. Contudo, as críticas favoráveis e o gradativo sucesso em home video, associadas ao hype em torno do diretor com seus filmes subsequentes, garantiram à obra um status de pequeno clássico.


Eu acredito que boa parte dessa trajetória de discreta ascensão com o público reside na aparente simplicidade da trama. Afinal, é mais uma história de amizade envolvendo estigmas sociais. Animação ou não, quantas outras já não vimos antes? É fácil parar para ver e se emocionar com King Kong, O Homem Elefante, E.T. O Extraterrestre, O Cão e a Raposa, O Corcunda de Notre-Dame, além de praticamente todo filme envolvendo a morte de um cachorro. Tematicamente, vejo rimas sólidas com O Dia em que a Terra Parou, adaptado para o cinema por Robert Wise em 1951, sobre a chegada de um OVNI gerando prognósticos de destruição sem motivo racional aparente.


Quanto à parte estética, há traços mais do que evidentes para posicionar Brad Bird como um dos pupilos mais vorazes de Chuck Jones, principalmente ao equilibrar os humores da trama com sacadas visuais inerentes à mídia de animação. Existe um trabalho de ‘câmera’ bastante chamativo, especialmente se tratando de uma animação por célula. Há curiosa insistência no contra-plongée, como aquele no começo que mostra Hogarth mostrando um esquilo capturado para sua mãe, colocando o espectador numa posição de espião. Os pannings em três pontos contribuem muito para o alívio cômico ao ilustrar as consequências de uma artimanha, enquanto que o tilt superior que intermedia uma sequência de luto atribui ao filme certa carga de esoterismo.



Dentre as animações que me recordo, O Gigante de Ferro possui uma das premissas mais diretas e denotativas sobre polarização, indústria bélica e propaganda política. Sentimos o peso do contexto em momentos da rotina de Hogarth, como a aula ufanista que o ensina a se proteger de um ataque nuclear, como também na própria ausência do pai, cuja explicação prescinde de diálogos extensos. O vilão, Kent Mansley, é um agente federal chamado para investigar a chegada do gigante na região. Seus traços são trabalhados de modo a emular tanto uma figura paterna e protetora quanto a própria aparência de Bird (o mesmo foi feito com o Síndrome, de Os Incríveis). O papel de Mansley é contrastado ao de Dean, um escultor de sucatas que faz amizade com Hogarth e abriga o gigante de ferro enquanto o exército sai à sua procura.



Enquanto Hogarth é apresentado de forma impiedosa às engrenagens do mundo, O Gigante de Ferro se revela um filme igualmente sensível e provocador. Detalha a promoção do medo que vingou nos tempos de guerra fria e como somos afetados diretamente por decisões políticas precipitadas, equivocadas ou sustentadas por ideologias excludentes. Um olhar do passado que, mediante a oceanos de informações falsas e tendenciosas, pode trazer discussões produtivas sobre como entendemos e nos adaptamos ao mundo de hoje.


No fim das contas, o robô destrutivo que colocaria fim à humanidade era o cometa que sonhava em ser estrela. Foi projetado como arma bélica, mas cultivou a alma do super-homem, o que lhe custou baterias e parafusos. Para cada crença, um sacrifício. Fato é que, navegando sozinho na turbulenta maré das conspirações, precisamos de uma luz para inspirar nossa alma e nos servir de guia. Seja esta emitida pelos faróis antigos que ainda funcionam, pela beleza de corpos celestes que nos orbitam, ou pelo mero olhar afetuoso de um amigo.



Texto por: Giulio Bonanno.






1 comentário