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  • Isabela Faleiro

CRÍTICA: O HOMEM DE PALHA (1973)

Texto por: Isabela Faleiro.


Uma análise clara e belíssima executada do ritualismo como forma de expressão da fé inerente ao ser humano em algo maior que ele, independentemente de como, quem ou o que se cultua.


A presença de cantigas highlanders me soaram estranhas, e sinceramente, um pouco engraçadas inicialmente, mas me envolvi com facilidade, e me surpreenderam com a beleza e a facilidade com a qual as imagens foram me conduzindo ao estilo de vida e linha de pensamento dos habitantes locais.



Difícil não admitir logo de cara o quão fácil é desvencilhar-se do protagonista, apesar de ele ser o mais próximo do público. Por mais estranho e suspeito que o povoado seja, a figura autoritária e rígida em nada encanta o público, por mais que sua intenção esteja no lugar certo. Ele é percebido como bronco, antipático, e, inevitavelmente, um intruso.


A grande beleza do filme mora na exploração das semelhanças e na linha tênue em que se divide o cristianismo do paganismo. De um lado, no início do filme mostra-se uma missa em que os fiéis comem o corpo e bebem do sangue de Cristo, celebrando a sua morte, e assim o fazem todo domingo (particularmente tenho dificuldade em pensar em ritual praticado em massa mais próximo do paganismo que tenha sobrevivido aos dias de hoje) e em paralelo, na ilha, temos bolos em formato de uma mulher (há também uma variedade de coelhos de chocolate ao lado dos bolos de mulher, todos a serem apreciados no dia “da morte e da ressurreição” da ilha, sendo seu equivalente na fé cristã, a Páscoa.


Algumas referências cristãs foram feitas ao longo do filme, e está em particular me chamou a atenção:


“‘Partenogênese(...) reprodução sem união sexual’ ‘Mas o que é isso? Essas crianças nunca ouviram falar de Jesus?’ ‘Ele mesmo é filho de uma virgem, fecundada, acredito, por um fantasma.’”

Se colocado em perspectiva o nascimento virginal de forma arquetípica, percebe-se que esta mesma façanha já havia sido citada anteriormente na Mitologia Grega, quando Danae é fecundada por Zeus, também sem união sexual, e dá origem a Perseu, um dos heróis mais legendários de todos os tempos. A integração do Sagrado e do carnal, personificados.


A presença de arquétipos como o tolo (bobo da corte) e dx virgem sacrificadx se fazem claras e são evidenciadas da forma mais ilustrativa possível, através do uso de fantasias, no caso do louco, e de reencenação como no caso do (quase) sacrifício da virgem, que em muito se parece com o sacrifício de Ifigênia, em Ilíada (tendo as duas, em ambos os casos, escapado de uma morte horrível, por intervenção de força maior).



É impossível inicialmente não desenvolver certo encanto pelo carisma e espirituosidade do povoado mesmo com toda a sua energia quase alienígena se posta ao lado dos nossos valores judaico-cristãos representados pelo oficial rude. As cantorias, e rituais e boemia tornam a estranha e alegórica ilha fascinante, e com frequência me fez questionar se eles eram realmente tão estranhos assim, e se na verdade nós não deveríamos aprender um pouco com eles. E é claro, o filme chegou ao final e eu me vi redondamente enganada.


A direção impecável e a escolha cuidadosa dos elementos para criar estranhamento nos momentos corretos, além da originalidade da obra fazem dela uma verdadeira obra prima. Os takes através dos olhos dos personagens tornam-nos acessíveis e, muitas das vezes, divertidos. É um filme intrigante, cheio de reviravoltas e trama riquíssima, e posso dizer com tranquilidade que é um dos meus favoritos dos anos 70.



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