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  • Bruno Madeira

CRÍTICA: SANGUE NEGRO (2007)

Atualizado: Jan 31

"SANGUE NEGRO" e a essência da ganância no sonho americano.

Apesar de muito se dizer, que dentro os sete pecados capitais não há uma ordem específica mediadora; e sim, uma importância transcendental que rodeia todos eles num só eixo. Tem-se em concreto que a "avareza"; ou melhor chamada "ganância", pode se encontrar listada como a segunda dentre tão duros pecados populares. A "vice". Ficando atrás somente da gula, é claro, sua fiel companheira - a fome por poder. No entanto, em toda essa dicotômica fome insaciável, jamais tal ganância fora retratada tão bem nas telas como aqui - não só por Daniel a interpreta-la magnificamente - porém por ele simplesmente a sê-la; enaltecendo toda avareza degenerada e todo seu caráter pecaminoso/caótico; exatamente como o filme o é.


THERE WILL BE BLOOD como é tido no título original (e realmente tem aos montes); conta de forma concisa e extremamente vistosa, a temporal e atemporal história de "Daniel Plainview", um derrotado mineiro, que após ficar sabendo inesperadamente sobre uma milagrosa terra de petróleo, resolve abrir seu próprio negócio de extração. Fazendo enfim dezenas de milhares, e se tornando rico a qualquer que seja o custo, passando por cima de todos que ousam esbarrar em seu caminho: rivais, família, igreja. O que for.


A analogia entre causa e consequência é perfeitamente demonstrada diante a obra, porém não perfeitamente instaurada nela. Isto é; toda a fé e a culpa cristã se opõem ao desejo desenfreado de posse; no entanto não existe um certo ou errado - somente extremos repudiáveis. De um lado se tem a sede pelo puro e simples poder - passando por cima de amores, desejos ou valores. E do outro a extrema moralidade, sem escrúpulos - abominando seu oposto, e trazendo suas poucas e únicas consequências, diante de tão árduos pecados que raros são castigados.


Ainda assim, tal estigma cai como uma luva - ou jorra como um petróleo - para nosso filme. Nada poderia representar mais uma nacionalidade cultural tão doentia como a americana; do que o abraço mal dado entre a moralidade pervertida/hipócrita, junto ao egoísmo centralizador - duma ganância que se transfigura de ambição. Tudo isso rodeado ainda pelas terras romantizadas do velho oeste, e cercadas por grandes torres e símbolos fálicos; formando enfim o quarteto suprassumo estadunidense, da ideologia (homem, rico, hétero, branco e cis). Ou seja, SANGUE NEGRO representa tão bem uma cultura e um período temporal, simplesmente por retratar sem qualquer romantismo seus verdadeiros pilares - a sua essência. E por ser tão atemporal, mesmo com sua vistosa temporalidade.


Essa é uma daquelas obras "preto no branco" (de fato a fotografia demostra fortemente esse contraste), mas que consegue nos mostrar que ambas as cores no fundo são cinza. Ambas são a mistura e a união perfeita entre si. Pois é sempre nos grandes opostos que encontramos as semelhanças. Quem pune os pecados é o mesmo que os comete. Mesmo Eli Sunday abominando a fome de Daniel por poder; ele mesmo se rende a seus ódios carnais se deparando ao inimigo, e por vezes até assume o exato papel, profanando suas crenças em mesmos intuitos avarentos - passando por cima de tudo e todos.

Talvez que no fundo, Nietzsche estivesse ao todo certo em sua teoria do "super-homem", e realmente - quem sabe - seja necessário ultrapassar os próprios limites morais e socialmente aceitos para atingir a grandiosidade. Não há quem possa nos parar, se não nós mesmos, e a grandiosidade só se vem com sacrifícios; escolha você ou não seus lutadores. E já que falamos em Friedrich; "Daniel" nosso protagonista, de fato é o ápice dos pecados capitais, e o ápice da ganância principalmente - a mãe de todos eles. Em suas atitudes vemos o desprezo por qualquer sentimento alheio e descaso com qualquer coisa, até a si mesmo. Seu maior opositor é "Eli", um pastor voraz, fanático, ferrenho em suas crenças e a personificação de tudo que iria contra Daniel, ou seja, a caricata figura cristã do que pode vir a ser Deus. Sendo assim, podemos analisar de forma pragmática e categórica essa obra magnífica de Paul Thomas Anderson, como um grande apanhado referencial de conceitos sociológicos, filosóficos, psíquicos e religiosos. E que na cena final, quando enfim Daniel assassina a todo ódio Eli; ele está na verdade matando seu oposto - Deus. Logo Deus está morto!

Contudo e também por causa de tudo, SANGUE NEGRO é o que é; de fato uma película (repitam comigo) IMPERDÍVEL, feita nos propósitos certos; para pensar e reconfigurar a capacidade de se sentir raiva. Raiva desse sonho americano infundido, raiva da ganância e dos pecados em geral, raiva da hipocrisia religiosa, raiva do descaso generalizado; mas principalmente, raiva de Daniel, e dos tantos Daniels que existem por aí, mesmo nos mais altos dos cargos, e que se transfiguram até em "Donald".