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  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: SONHOS (AKIRA KUROSAWA, 1990)

Texto por: Leonardo Bloise.


Revisão: Laura Bloise.


"Nós podemos comprar pêssegos. Mas onde se pode comprar um pomar florido?"


Até hoje, me lembro do dia em que, há muitos anos, meu professor de filosofia da escola passou o filme "Sonhos", de Akira Kurosawa, para a minha turma. Sabia que já tinha ouvido o nome do diretor em algum lugar, mas, como não me interessava tanto por cinema na época, nunca tinha procurado assistir nada dele.


Foi nesse dia que eu, pela primeira vez, entendi o cinema como uma experiência sensorial que transcende a narrativa. Lembro que assistimos até a metade do filme, quando a aula acabou e ele foi interrompido. Eu fiquei maravilhado com a obra e a primeira coisa que eu fiz ao chegar em casa foi procurá-lo em todos os serviços de streaming e aluguel online... infelizmente sem sucesso.


Anos depois (em 2020) assisti ao filme completo pela primeira vez e foi tão bom quanto eu esperava. Hoje, revisto a obra que cada vez ganha um lugar maior no meu coração.


“O Túnel”

Há quem diga que os sonhos são manifestações dos nossos desejos e medos mais profundos, misturados com experiências que já vivemos. Sonhos não seguem uma ordem cronológica nem acompanham a lógica do mundo real, sonhos são sonhos. Aqui, Kurosawa nos presenteia com o que parece ser uma de suas obras mais pessoais. Um verdadeiro mergulho no subconsciente do diretor.


“Um raio de sol através da chuva”

O filme é uma antologia, portanto, não iremos encontrar nele uma única história, mas oito sonhos, apresentados no formato de curta metragens e divididos por títulos. São eles: “A Raposa”, “O Jardim dos Pessegueiros”, “A Nevasca”, “O Túnel”, “Corvos”, “Monte Fuji em Vermelho”, “O Demônio Chorão”, “Povoado dos Moinhos”. Os sonhos abordam temas muito variados... culpa, morte, ambientalismo, arte e até o medo de um apocalipse nuclear.


É bem curioso como essa consegue ser uma das portas de entrada mais comuns da filmografia do diretor e uma de suas obras mais subestimadas. Vejo muitas pessoas tentando analisar os sonhos do filme de maneira individual, mas, apesar de eu gostar de revisitar meus preferidos individualmente de vez em quando, entendo que "Sonhos" é uma obra magnífica em sua totalidade. Uma experiência sensorial das mais poderosas. Um filme que pode ser desafiador por seus planos longos, silenciosos e contemplativos, mas que não poderia ser mais recompensador.


Kurosawa opta por filmar com poucos planos, estender as cenas e, por várias vezes, manter a câmera a uma certa distância dos personagens. Essas escolhas ajudam muito na construção dos ambientes nos quais os personagens estão inseridos, afinal, os verdadeiros protagonistas são os sonhos.


“O Jardim dos Pessegueiros”

Outro elemento essencial e de imenso destaque, é a utilização das fotografias com cores vibrantes, que amplificam o caráter onírico da experiência. Talvez um dos poucos diretores na história do cinema a terem tirado o máximo da cinematografia em preto e branco e colorida. Temos, de um lado, filmes como “Trono Manchado de Sangue”, que cria uma atmosfera poderosa, etérea e surreal com a utilização da fotografia em preto e branco, e, de outro, filmes como “RAN” e “Sonhos”, que alcançam o mesmo com o uso das cores. São filmes tão bons, que não conseguimos sequer imaginar outra possibilidade para eles... a falta ou presença das cores é essencial para que esses filmes sejam o que são.


O diretor Martin Scorsese interpretando o pintor Vincent Van Gogh no sonho “Corvos”.

Esse é um filme que eu pretendo revisitar muitas e muitas vezes. Aconselho, a todos que ainda não assistiram, que deem uma chance para essa obra muito subestimada da filmografia do mestre Kurosawa. Separem um tempo para embarcar na experiência e eu garanto que não irão se arrepender.


Texto dedicado a meu professor de filosofia no ensino médio. Obrigado Pedro!


NOTA: 5/5 - OBRA PRIMA