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  • Leonardo Bloise

CRÍTICA: VIDEODROME (1983)

Texto por: Leonardo Bloise.

Revisão: Laura Bloise.


Reza a lenda que, quando os irmãos Lumière projetaram “A Chegada do Trem na Estação” (1895) pela primeira vez, o público ficou aterrorizado com a imagem do trem vindo a sua direção. Relatos contam que as pessoas chegaram a entrar em pânico e correr para o outro lado da sala de projeção, pensando que o trem poderia vir a atingi-las.


A chegada do trem na estação (Irmãos Lumière, 1985)


A verdade é que as pessoas daquela época não estavam preparadas para a mentira que viria a ser o cinema. A arte de, a partir de imagens que passam a uma velocidade que o olho humano não consegue enxergar, enganar as pessoas e imergi-las em uma realidade que, na verdade, não existe.


Dando um salto de quase 100 anos:


Nos anos 80, com o aumento do número de residências com aparelhos televisivos, também cresceu a quantidade de programas e de emissoras de TV, as quais precisavam se reinventar para se diferenciar das concorrentes. Outro fator de destaque foi a popularização das câmeras de vídeo, que possibilitavam gravações caseiras com maior facilidade. Gravações tanto cotidianas, quanto artísticas (com o surgimento da “videoarte”). Em meio a esse contexto, surge o protagonista de “Videodrome”, Max Renn, um sócio de uma pequena emissora de TV que exibe programas de teor sensacionalista, erótico ou violento.



Harlam, funcionário da emissora cuja função é interceptar e piratear outros programas, encontra um novo show chamado “Videodrome”, no qual pessoas são torturadas e mortas. Ao ter acesso ao programa, o protagonista fica surpreso com o quão realista são as imagens. É aí que entra o primeiro grande questionamento que o filme nos proporciona: se, nos anos 1890, a primeira reação do público ao ver a imagem de um trem projetada a sua frente foi a de imaginar que aquelas imagens seriam reais, 90 anos depois, Max vê uma imagem reproduzida em um vídeo e, imediatamente, acredita que aquilo se trata de uma mentira.


Como o diretor brinca com a paranoia do vídeo e das imagens filmadas, poderia ter ficado restrito a uma ansiedade daquela geração, porém, assim como Coppola fez com “A Conversação”, o filme é quase premonitório. Cronenberg imagina cenários que, atualmente, quase 40 anos depois de seu lançamento, se tornaram parte de nossas vidas. Hoje, traçar uma linha sobre o que é real ou não, se torna uma tarefa cada vez mais difícil. Isso ocorre em diversas esferas. Desde a propagação de Fake News e a popularização e acessibilidade de aplicativos que fazem “deepfake” até a compra de produtos que só existem em meio digital com um dinheiro que também está no meio digital. Compramos roupas para avatares de videogame utilizando cartão de crédito. Nenhum dinheiro físico está envolvido nessa transação, apenas números em uma tela, para comprarmos algo que “não existe” (ou existe?).



Quando o filme nos avisa que, algum dia, a imagem em vídeo vai se tornar a imagem real, é impossível não pensarmos na internet e nas mídias sociais. Para a nossa geração, um momento não é vivido se não compartilhado no Facebook, uma música não é ouvida se não compartilhada nos stories do Instagram, um amor não é correspondido sem milhares de fotos de casal no feed e um filme não é visto se não for adicionado ao diário do Letterboxd.

A potência de “Videodrome” está na possível atemporalidade de sua narrativa e na condução magnífica de David Cronenberg, retratando a decadência do protagonista através de seu estado mental de paranoia. Tal decadência é reforçada pelos efeitos práticos, por meio um body horror do mais alto nível. A partir da utilização de elementos do cinema experimental, o cineasta induz essa confusão e deixa o telespectador junto ao protagonista, tentando traçar a linha entre o que é ou não real. Parece que o filme se torna mais assustador conforme o tempo passa.... os anos vão correndo e aquilo exposto em 1983 parece não mais uma possibilidade, mas sim uma realidade. Cronenberg estava certo afinal de contas, a imagem digital, hoje, parece ser a verdade. O mundo físico se torna cada vez menos real.



Também vou deixar a recomendação de dois filmes de terror mais recentes que lidam muito bem com a paranoia das imagens digitais e foram muito injustiçados por público e crítica: “Cam”, terror psicológico lançado pela Netflix em 2018, e “Amizade Desfeita: Dark Web”, também de 2018.