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  • Luca Narracci

COLUNA: CRONENBERG E NIETZSCHE: ESQUECIMENTO E HISTÓRIA A SERVIÇO DA VIDA E O RESSENTIMENTO FÚNEBRE.

Atualizado: Abr 16

Já parou pra pensar sobre o poder da memória?


A memória tem um papel muito importante servindo ao presente e ao futuro. Ou melhor dizendo, a interpretação do passado é responsável por muitas das ações no presente, o que consequentemente molda o futuro... A gente sabe que ao longo do tempo, as canetas e páginas onde foram escritas as memórias da História estiveram em mãos monopolizadoras, repetidas vezes, mãos essas de pessoas muitas das vezes de ímpeto mesquinho, ressentido e mantenedor do que sempre existiu de pior na humanidade.


Mas e o esquecimento? O esquecimento tem um papel? Qual a sua importância?


Isso foi pra introduzir o que eu quero pensar aqui sobre o filme do Cronenberg, "Marcas da Violência" e a reflexão sobre o "Ressentimento" e o "Esquecimento" desenvolvida por Nietzsche em algumas de suas obras.



Antes quero analisar brevemente alguns pontos sobre o cinema de Cronenberg enquanto só, para podermos melhor aprofundar sobre o assunto aqui discutido; os personagens do diretor são sempre introduzidos em mundos alternativos, realidades distópicas e ficcionais como em "Mistérios e Paixões" (Cronenberg, 1991) ou "EXistenZ" (Cronenberg, 1999), assim como eles mesmos são modificados pelo próprio ambiente, tendo sua fisiologia ou estrutura psíquica alterada durante a trama, como por exemplo em "A Mosca" (Cronenberg, 1986) ou em "Crash - Estranhos prazeres" (Cronenberg, 1996). Os corpos dos personagens são, em sua maioria, super-excitados em carnificinas, mutações, neuroses, alucinações, libidos violentas, tomados por memórias dolorosas e/ou pulsões mortais eróticas e/ou violentas, manifestando-se de diferentes e múltiplas maneiras na vida do personagem.


O filme aqui discutido se trata, resumidamente, da história do personagem principal, Tom Stall, que cometeu um crime na Flórida, já a muitos anos, e que agora conquistou uma vida pacata e tranquila, na pequena cidade de Milbrook em Indiana, onde tem seu próprio comércio, tem uma ótima relação com a sua nova família e com a comunidade, até que; após ter seu rosto aparecido com frequência nos canais de notícia da televisão após um incidente, chega na cidade Carl Fogarty, um misterioso homem do seu oculto passado, que alega ter "contas a pagar" com Tom, dando então a faísca para vir à tona a memória dolorosa que perturba o personagem principal e muda sua vida ao ponto de ter que haver um verdadeiro sanguinário conflito e uma perturbadora reconfiguração das relações entra a família e consigo mesmo. É incrível como o incômodo desse "fantasma" atinge o protagonista, deteriorando aspectos diversos de sua individualidade e relações, como por exemplo a sua enorme violência que nos é exposta, sendo ela forte e impessoal, em como sua relação sexual com a esposa muda, sendo ela agora também tomada pela violência e pela estranheza, assim como sua relação com o filho mais velho, que o vê como um monstro dentro de casa, desconfiado de que seja capaz de o ferir e de ferir sua própria mãe.


O problema à nós introduzido sobre a filosofia de Nietzsche e a História, e como ela deve ser encarada, pode ser facilmente relacionado ao obscuro e omitido passado de Tom Stall, onde, uma memória vêm lhe perturbar, atrapalhando sua construção de uma vida boa já em andamento, descolada das coisas ruins do passado, enquanto o esquecimento (ou a leitura do passado que ele mesmo foi responsável por criar para sua atual família e comunidade), lhe foi útil para conseguir criar uma vida pautada não mais em violência e sofrimento, como já fora antes, mas em valores dos quais ele criou para si próprio.


Nietzsche quando se refere à História, como ciência, sempre evoca uma "história à serviço da vida"; ou seja, que façamos uma leitura do passado que dialogue e transforme o presente, a favor da vida – a favor da Vontade de Potência, criadora de valores. É importante lembrar que a gente lê o passado (e o cria) de acordo com o nosso projeto de futuro. O autor, utilizador de muita linguagem imagética para se expressar, nos dá de exemplo a seguinte passagem:


"Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz com seu prazer e desprazer à própria estaca do instante, e, por isto, nem melancólico nem enfadado."

(NIETSZCHE, 1873, p.7)


Os animais não tem memória que lhe atrapalhe o presente, são dotados de um poderoso esquecimento que, de acordo com o conceito criado pelo, é tido como uma força plástica, uma importante e potente faculdade humana; é transformador, inovador, e capaz de dar espaço para o "novo" se alojar no presente. O autor inclusive determina que o esquecimento está relacionado à moralidade na seguinte passagem:


(...) Como o mundo pareceria pouco moral sem o esquecimento! Um poeta poderia dizer que Deus instalou a faculdade de esquecimento como portão no umbral do templo da dignidade humana."

(NIETSZCHE, 1878, §92)


Somente o presente sendo encarado como transição, o novo poderá vir-a-ser, mas para tal entendimento devemos encarar a vida a-historicamente, o que significa que entenderemos os fatos como não acabados, ou seja, teremos fenômenos históricos com um poder histórico potente para a vida, convidativo do novo, que irá mudar o presente.


A grande questão aqui é o perigo que o excesso de memória (ressentimento) traz à vida, ao novo. A memória, no filme, se personaliza pelo personagem Carl Fogarty e o irmão mais velho do protagonista, que vai "cobrar" e lembrar o passado de Tom Stall, e aparece como um fantasma que, tomado por ressentimento, faz com que a memória se "presentifique" e imobilize Tom num passado já esquecido, superado, que o impede de ter a sua (já corrente) "segunda chance". O esquecimento do passado, ou melhor, a leitura do passado feita pelo próprio protagonista, que propiciou a criação de uma nova vida para tal, foi conduzida [a leitura do passado] pelo diretor do mesmo modo que Nietzsche, em sua reflexão sobre uma "História à serviço da vida" propõe que seja feito o modo de lidar com a produção historiográfica – ainda que afirme que se deve achar um equilíbrio entre o esquecimento e a memória.

Apesar de um passado repleto de violência e sofrimento, nós – assim como Nietzsche – queremos que haja uma segunda chance, queremos que haja a criação do "novo", queremos a vida, queremos portanto, um presente sendo entendido como instante de transição, e que ao recolher uma memória, ela seja útil à vida, para intervir no presente de modo a criar um futuro qualquer que desejemos (ou precisemos), o que no caso de Tom Stall seria sua pacata e tranquila vida na pequena cidade em Indiana, diferente dos seus antigos tempos sombrios.


Que essa lição dada por Cronenberg e Nietzsche sirva de inspiração para nós como seres políticos, e possamos nos ver como protagonistas de uma História viva que nunca cessa de ser escrita.


Texto por: Luca Narracci.