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  • João Bornhofen

COLUNA: AS INVASÕES BÁRBARAS.

Atualizado: Jan 3



CRÍTICA POR JOÃO GUILHERME F.B.


Ode à família tradicional com receitas progressistas para não salgar o jantar.


Com os mais diversos avanços sociais, oriundos de uma globalização que enxotou os continentes, aproximou culturas, eliminou distanciamentos comerciais, e o surgimento cada vez maior de tendências progressistas na grande mídia, não era difícil de imaginar eventuais conflitos geracionais conforme o revisionismo manda. E obviamente se nas redes sociais os choques opinativos são entretenimento é em família que o clímax acontece. Seja em jantares , nos grupos de Whatsapp com memes políticos de veracidade duvidosas, seja nos textões lacradores escritos por adolescentes de condomínio no Leblon ou até mesmo nas piadas do tio distante pouco antes do peru ser servido no fim de ano, não há contingência psíquica que tolere ou, no caso, impeça o choque de ideais entre a temporalidade social.


Muito se fala na tolerância que a atual geração deve ter para com seus ancestrais, porém pouco se convém à necessidade que a velha guarda possui em se manter atualizada. Seja pelos progressos sociais adquiridos à duras penas, ou pela singela vontade de receber parentes em casa e evitar aquele climão pré aniversário de Jesus. Como então gerir uma confraternização familiar sem ceder aos debates ideológicos? Caso você perguntasse ao protagonista de INVASÕES BÁRBARAS (LES INVASIONS BARBARIES, DENYS ARCAND, em seu vigésimo primeiro filme, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2003), Rémy, historiador e defensor do socialismo radical, ele provavelmente não te convenceria em um primeiro momento. Porém, assim como o filme, em seu tom novelesco, com roteiro sutil, porém eficaz, nos abre uma reflexão: Muito se é falado sobre os invasores, porém pouco se é dada atenção aos invadidos. E os filhos dos antepassados que foram invadidos.


Como uma cultura que sofre com um hibridismo entre a intervenção e a reação à essa reação pode gerar algo além de conflitos interpessoais? Em certo momento a personagem Nathalie nos deixa uma reflexão que permeia o filme e auxilia a ascensão da própria metalinguagem que o filme propõe para nós. O tom sépia do filme auxilia a fixar o protagonista em seu próprio espaço e tempo, passando um tom anacrônico, que entra em choque com os outros membros da família. Há uma elegância visual em diversos momentos que pedem um retrato mais pessoal, sempre com belos travellings, que dão ótima noção do espaço cênico, apenas não espere um vislumbre visual à lá Tarkovsky ou Bergman. Porém o suficiente é feito para manter um tom novelesco sem incomodar, com vários planos estáticos e excesso de plano e contra plano.

O filme não abusa de invencionismos estéticos, sendo em suma maioria neutro em sua linguagem visual e eventualmente abusando de um tom mais ou menos rebuscado para pontuais vislumbres, sempre a favor da história e dos personagens.


Um grande mérito do longa-metragem, diga-se de passagem, é sempre tratar cada personagem como um indivíduo remetente à algum ideal comportamental ficção à fora. Cada um de nós será espelhado de forma ou outra em algum personagem ou alguma situação, e novamente o roteiro acerta em manter uma sutileza constante, permitindo que o filme transite entre a comédia leve e o drama existencial, sem cair no extremo e sempre habitando o híbrido. A complexidade de alguns assuntos tratados nunca pesa ou fere o ritmo do filme, que acompanha e centraliza o protagonista Remy, e aos poucos inserindo membros da sua família e amigos, dando espaço necessário para que não haja desinteresse aos personagens secundários, ao mesmo tempo que não se perde em desenvolvê-los em demasia. Afinal o filme é conduzido por Remy, e o ator de mesmo nome transita magistralmente entre o peso do fim da vida e os arrependimentos que acarretaram desavenças, ao mesmo tempo que não recai sobre clichês. Claro existe uma previsibilidade em diversos pontos narrativos, mas há uma sutileza pouco vista no cinema de gênero, o que impede o longa de ficar excessivamente piegas. Tanto a comédia quanto os momentos de choro tendem ao banal, mas o filme é bem dirigido e muito bem interpretado, de forma a não prejudicar a condução narrativa.


Há uma dose carregada de comentários sobre a atual condição humana, porém o humor, eficaz e pontual, nos garante a leveza desejada para que certas reflexões sejam levadas a qualquer um disposto ao exercício. Não menos, o humor auxilia no desenvolvimento dos personagens, trazendo empatia em pouco tempo de tela e não deixando frear o ritmo com tantos personagens, seja ele obscuramente observador ou habilmente espirituoso, permeia o filme com o crescimento de maneira bastante natural, sempre com muito a dizer.


E muito é dito no filme, sendo justamente o humor a melhor maneira de tornar muitos temas acessíveis. A medida certa de meta diálogo para com o espectador mantém uma possível futura revisita ainda mais interessante. Quem sabe hoje simpatizemos com Nathalie, para daqui a alguns anos cogitarmos a ideia de tomar uma xícara de café com Sebastian.


Ao final, o filme nos deixa a reflexão da concordância na discórdia, que em um cenário ideal e por vezes impossíveis de projetarmos nos dias de hoje, talvez possamos unir a idealização de um meio melhor previsto por Marx, sem deixar de lado o pragmatismo consequente do nosso desenvolvimento político-social, muito menos largando mão de Lock e seu contratualismo.


Ao menos fica o acordo mútuo para o fim de ano, ambas as gerações, do tio coxinha mais distante até a prima de segundo grau pseudo marxista: pra amenizar qualquer clima, é só colocar o mais novo filme da Larissa Manoela, típico de final de ano, isto caso Roberto Carlos já tenha passado do ponto alcóolico necessário para sua apreciação. Ambas as obras garantem reclamações coletivas, unificando a integração geracional. Nada melhor para a socialização familiar. Fica aqui o muitíssimo obrigado à Larissa, ficamos no aguardo do próximo desastre nuclear à ser disponibilizado no Netflix. Meu tio bolsonarista de Araruama e minha sobrinha, de dreadlock recente, mal podem esperar.


Quanto ao filme? Minha recomendação é vê-lo em família, de preferência com todos juntos no Skype, tanto em função da atual pandemia, mas também para aquecer possíveis debates e dissertações quanto ao futuro do nosso país. E na falta do sonho inalcançável do apogeu à paz e bem-estar mútuo, ao menos não faltarão memes nos grupos de whatsapp.

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