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LISTA: RECOMENDAÇÕES DE HQ's

Atualizado: Mar 1

Muito antes de sagas grandiosas como “X-MEN” ou “VINGADORES” tomarem notoriedade no mercado cinematográfico, e serem por vezes mais reconhecidas nas telas do que em seus próprios hq’s. O vasto universo das histórias em quadrinho, já se unia e mesclava-se a sétima arte com extrema afinidade; desde os princípios do cinema, e em seus primeiros passos como entretenimento. Muito já se fora adaptado, advindo da própria nona arte; e muito se fora criado, partindo de seus próprios estigmas e convenções. O cinema como uma arte de vanguarda, bebeu bastante da linguagem já estabelecida e dos arquétipos de sucesso dos quadrinhos, para então se firmar, e ser tudo o que é hoje em dia. Porém ainda assim temos um estigma – um estigma real – de que essa união de universos só se vem por meio dos heróis. Por meio das diversas séries semanais dos grandes selos, e dos clássicos personagens que a muito conhecemos. E esse estigma até que se sustenta em certas partes. Por um lado, vemos diversas adaptações de grandes mangás que fizeram sucesso, ou alguns quadrinhos independentes que furaram a bolha; como é o caso de “SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO”. No entanto, na esmagadora maioria, seguimos vendo apenas obras do suposto “mundo geek” tomando seu devido lugar, e tendo esse querido reconhecimento espectro audiovisual finalmente atingido.


E pra que digo isso tudo? Estaria eu querendo falar sobre as grandes franquias? Os heróis? Os vilões? As Marveis e DC’s da vida invadindo nossos filmes? De maneira alguma! Reconheço o grande feito que toda a nona arte, em todas suas roupagens, já fizera ao cinema. E tenho a completa gratidão, pelo avanço que esta mídia proporcionou as demais películas. Porém como um amante de quadrinhos, eu sei que há muito mais a se explorar. Sei que há toda uma galáxia de obras, vertentes, estilos e nichos que são simplesmente ignoradas. Obras magníficas, que tem tanto direito e poder de se tornarem algum filme; tão quanto as dos grandes selos. No entanto, mais do que uma mera apologia ao desenvolvimento adaptativo, dos hq’s para as películas; pretendo propor nesta lista, uma diversificada indicação de quadrinhos, para todos aqueles que por conta dos filmes se interessaram por esse mundo, mas que ainda não foram capazes de furar a bolha “heróis/grandes selos/maistream/geek”, e agora finalmente vão poder.


Segue a lista:


1 – MOONSHADOW – (J.M. DEMATTEIS e JON J MUTH)

Esta é simplesmente uma das mais icônicas obras em quadrinhos já feitas! E mesmo que fuja do nicho independente, sinto que é de suma importância indicá-la. Por que digo isso? Bem, Moonshadow apesar de ser uma obra originalmente publicada pelo selo Epic da Marvel – um selo mainstream. Esta é uma hq que transcende muito as convenções que se tem dessa arte, e nos propõe de fato uma abordagem espiritual, fantasiosa e literária completamente diferente. Sem se falar que há de existir um ótimo potencial para um grande filme em adaptação.


Enfim, sem mais delongas; esta obra acompanha o enredo/as aventuras e desventuras de “Moon”: Um jovem menino, filho de uma hippie com um ser cósmico chamado “Des-mesu”; e que é levado com a mãe a um zoológico espacial, onde vive boa parte da sua vida preso, tendo acesso somente a livros e ficções, que o seduzem, mas não o preenchem.


Cansado e insaciado desta vida, o jovem menino se une a um ser repugnante chamado “Ira” e os dois fogem em encrencas pelo vasto universo, lidando tanto de forma direta, quanto indireta, com assuntos políticos, religiosos, sexuais e existenciais. Tá aí a magia do quadrinho.


2 – UMBIGO SEM FUNDO – (DASH SHAW)

Após quarenta anos de casamento, David Loony e Maggie decidem se divorciar, alegando não nutrirem mais qualquer amor um pelo outro. Desta feita, todos os filhos são chamados a casa isolada onde eles vivem, para enfim seus pais os anunciarem a inesperada e repentina separação. Tal notícia então, ressoa assustadoramente para cada um dos filhos; Dennis por exemplo começa uma busca insana por pistas e razões para o fim de tão bela relação, negando qualquer sentimento dos pais; Claire aceita de maneira tranquila o divórcio, porém se mostra ser, e cada vez mais se tornar uma mãe temerosa com sua filha; já Peter, o caçula, se vê num eterno dilema de personalidade – lidando com questões de insegurança, depressão, reclusão, sexualidade e muitos outros temas que o fazem se sentir sempre de fora da família, se vendo como um próprio sapo.


Esta é uma hq tão delicada, porém simples ao mesmo tempo. Todos os temas são extremamente palpáveis, nos permitindo facilmente compreender o sofrimento dos personagens e imergir numa temática que pouco se é vista nos estereótipos da nona arte. Além de tudo isso, Dash Shaw nos propõem um traço bastante desconstruído, e uma linguagem simplesmente genial, brincando e subvertendo sempre que possível o formato dos quadrinhos.


3 – UMA IRMÃ – (BASTIEN VIVÈS)

Não podia faltar nesta lista, um romance de formação tão delicado quanto “Uma irmã”. Aqui Bastien Vivès faz de forma extremamente sutil, minimalista e não invasiva, uma fiel descrição sobre o despertar sexual e todo o amadurecimento que se decorre disto.


Na história acompanhamos o jovem Antoine, que ao sair de férias com sua família para uma viagem sem possíveis atrativos; acaba conhecendo e se aproximando de Hélène; uma garota mais velha, que abala seus sentimentos e passa a introduzi-lo a todo um universo que lhe era distante, como: o amor, os ilícitos, a rebeldia, a sexualidade, e tudo mais que revoluciona a mente de um jovem menino e para sempre ressoa a marcar sua vida. Ou seja, um quadrinho simplesmente lindo, banhado em nostalgia e afago.


4 – O HOMEM SEM TALENTO – (YOSHIHARU TSUGE)

Esta indicação de fato é especial; primeiro por ser a primeira indicação oriental - no caso um mangá -; mas também, por quebrar sua própria quarta parede, sendo uma obra em si autobiográfica e falando muito sobre o justo fazer, criar e vender quadrinhos. Junto a isso, “O homem sem talento” se aproveita de seu formato, e retrata uma realidade nem um pouco romantizada e engrandecida dos hq’s – pelo contrário. Aqui Yoshiharu faz questão de mostrar todo o universo tóxico que também permeia esta arte, e como esse estigma pode afetar e degringolar uma pessoa de sensibilidade tão aguçada.


A história em si acompanha este alter ego do autor, que apesar dum certo sucesso como quadrinista num geral, e de seu talento; ele se recusa a comprometer todo o próprio trabalho artístico, em troca de se submeter a problemática e vigente indústria editorial que o pressiona. Dessa maneira, o homem passa a viver ao pé da miséria e a margem do fracasso; muito pouco ajudando sua família, e vendendo pedras do rio que ninguém parece se interessar; como que ao oposto do que seria seu sucesso.


5 – AURORA NAS SOMBRAS – (FABIEN VEGHMANN & KERASCOËT)

Na sinopse da edição já nos é dito: “Uma fábula que remete a Alice no país das maravilhas aos olhos de David Lynch...”. Quer algo mais cinematográfico e vistoso que isso? Uma união belíssima em forma de quadrinhos, de toda a vastidão e fantasia de um clássico como “Alice...”, junto a visão surreal e deturpada de nosso querido Lynch.


O hq em si, é de uma inventividade e conceituação tremenda. O clima proposto na arte e no texto, é algo simplesmente inenarrável. Uma história que se desenrola mais em suposições do que em concreções, mas que nos imerge em plena veemência do conceito.


O enredo puramente conta a história de um grupo de pequenos seres, que são obrigados a sair do lugar onde moram (o cadáver de uma garota na floresta), e se direcionarem então de forma hiper climática para o nosso próprio mundo. Este que vivemos. Toda a dicotomia e metáfora é belamente preenchida pela ficção, mas segue a discutir indiretamente temáticas de diversos teores nas divergentes realidades; subvertendo completamente uma visão simplista e apática deste vasto mundo quadrinístico; opondo o belo ao tradicional e fazendo uma colaboração de estéticas, que pouco seria possível em formatos que não o próprio quadrinho.


6 – PACIÊNCIA – (DANIEL CLOWES).

Paciência é, sem sombra de dúvidas, uma das melhores HQS de ficção científica desta década. Daniel Clowes, autor do também excelente Ghost World, narra aqui uma trama que transcende tempo e espaço, tornando a singularidade comum de um personagem na busca pela salvação de quem ama. Simples? Sim. Sutil? Muito. Eficaz? Extremamente. Clowes subverte todos os clichês esperados do gênero, e desenvolve um intimismo poucas vezes vista na mídia. É uma obra que segura tanto quem não é fã de ficção/viagem no tempo, como também entrega conceitos e narrativa bem originais para segurar qualquer fã do gênero, já cansado das repetições que acercam o meio.


7- SEM VOLTA – (CHARLIE BURNS).

Autor do também incrível Black Hole, Charlie Burns é um autor seco, por muitas vezes bruto e sem medir esforços para expor o grotesco. Essa talvez seja sua marca mais reconhecida, porém engana-se quem erroneamente cogita ser a única marca autoral de Burns. Temos aqui uma intrínseca viagem ao lado mais podre do ser humano, ocorrendo duas narrativas paralelas, uma realidade surrealista e paralela, e outra bizarramente real e próxima a todos nós. O resultado é uma obra incômoda e tão verossímil quanto lúdica. Uma das melhores obras do autor, e uma obra para qualquer fã de desconforto e narrativas não lineares da melhor qualidade.


8- AYAKO – (OZAMU TESUKA).

O mangá de Ozamu Tesuka é uma das melhores HQS que já pisaram em solo tupiniquim. É um retrato que ascende entre as décadas, do Japão pós segunda guerra até os tempos modernos, acompanhamos a jovem Ayako, de seu nascimento prematuro até sua ínfima vida adulta a nossa protagonista nada mais é do que uma coadjuvante de uma trama complexa, adulta e recomendada para qualquer pessoa que preze uma história que no mínimo é tão profundo quanto é irretocável. Leitura definitivamente obrigatória.


9- LONE SLOANE- (DRUILLET).

Phillipe Druillet é para a ficção científica o que Jack Kirby foi para a era de ouro da Marvel. Temos aqui umas das melhores obras interestelares já produzidas, em qualquer mídia. Uma saga completa com uma textura tão intensa quanto sua história, que além de original, até mesmo quando analisada hoje em dia, reflete um autor no ápice de sua genialidade, nos brindando com uma das, se não a melhor, saga de ficção científica da história. Não quero entregar nada da história, porque Lone Sloane não é meramente uma história épica, é uma experiência, que garanto a você caro leitor, vai mudar sua perspectiva de narrativa futurista. É preciso experimentar para crer. Obrigatório, sem mais.


10 - DIOMEDES - (LOURENÇO MUTARELLI).

Não poderíamos deixar de citar aqui uma das melhores obras brasileiras dos últimos tempos. Diomedes é um detetive particular excessivamente excêntrico e sutilmente aloprado, na medida certa. A saga acompanha suas desventuras, com traços peculiares, personagens divertidíssimos e tramas que fazem jus à toda crítica sócio-política que o texto afiado de Lourenço Mutarelli propõe. Gostoso de ler e sem deixar salgar demais no humor ácido, Diomedes é uma das melhores sagas brasileiras que já tive o prazer de ler, e reler, e quem sabe novamente reler, num futuro não tão distante. A comédia de erros tem aqui seu grande aliado.



Esperamos que você, amado leitor, possa prover dessa lista que preparamos com tanto carinho para você e com isso almejar, quem sabe, novos olhares e se aventurar em novas perspectivas. Infelizmente o cenário atual da indústria de quadrinhos não é dos mais promissores, e bem antes de qualquer pandemia também estava em atenuada queda. Por isso esperamos que talvez, você que nunca deu uma chance à essa mídia, ou possivelmente deu e se decepcionou com os clichês excessivos presentes no mainstream, possa buscar um novo olhar, uma nova forma de consumir essa mídia tão especial. Talvez faltasse o incentivo. Esperamos não ser mais o caso.



Atenciosamente, Equipe Cinema Alternativo.



Artigo Escrito por Bruno Madeira e João Guilherme F.B.