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  • João Bornhofen

COLUNA: MILES MORALES.

Atualizado: Abr 8

Porque o micro espaço precisa ser salvo.



Miles Morales apareceu pela primeira vez em 2011, após a morte de Peter Parker (Homem Aranha original) no universo Ultimate da Marvel comics. Na época a Marvel comics tinha como objetivo expandir seus universos alternativos com novos personagens, que trariam histórias originais e continuariam a revitalizar a marca. Porém aparentemente a indústria dos quadrinhos está com os meses contados, e já antecipando isso a Marvel migrou para a indústria cinematográfica, graças em partes à aquisição pela Disney, que almejava o contínuo suporte da demografia que estava perdendo: público jovem adulto masculino.


Nessa leva de novos personagens Miles Morales foi um dos precursores dessa nova investida da gigante dos quadrinhos, seguido pela excelente Kamala Khan (Ms Marvel) e o adorável novo Hulk, Amadeus Cho, dentre outros. Além de expandir as demografias que liam quadrinhos (até então poucos heróis eram parte de grupos minoritários), havia ali a oportunidade de novas perspectivas serem contadas, e com isso expandir ainda mais o grandiloquente universo Marvel, porém sem perder o peso mercadológico que o branding propiciava. Há de se relatar que Miles nunca foi um personagem raso, vivendo às sombras de seu antecessor ou sendo mero escapismo mercadológico que forçava inclusão para impulsar vendas. Miles conquistou seu carinho pelo público com ótimas histórias, complexidade em sua persona e como dito anteriormente, uma perspectiva nova e necessária ao universo do Aranha.


E como tudo atualmente, se fez sucesso em uma mídia que não seja o cinema, nada mais financeiramente interessante do que levar esse produto para às telas. E assim tivemos Miles protagonizando o vencedor do Oscar de melhor animação de 2018, “Homem Aranha no aranhaverso”. Até então Miles só tinha sido visto fora dos quadrinhos em episódios esporádicos nos desenhos protagonizados por Peter Parker.


A Sony, detentora dos direitos de tudo relacionado à Homem Aranha, encomendou de sua atual subsidiária, Insomniac Games, um jogo exclusivo para seu console, o Playstation 4, e em 2018 o jogo foi lançado, com altas notas da mídia especializada e vendendo o suficiente para justificar prontamente um novo jogo do herói o quanto antes. Foi então anunciado que em 2020 seria lançado um novo jogo do herói, porém dessa vez, o game seria protagonizado por Miles, e Peter (protagonista do primeiro jogo) seria apenas um personagem secundário na trama, agindo como eventual mentor de Miles. No jogo de 2018 nós novamente fomos apresentados à Miles, e vimos como seus traumas o encaminharam para o caminho da jornada do herói, porém ele era apenas mais um dos personagens secundários, mas ainda assim ele foi apresentado e já estabelecido como sucessor de Peter.


O público já tinha aplaudido seu filme, os desenhos já haviam normalizado sua presença, o game apenas pavimentou o final do caminho para Miles enfim ter um jogo para chamar de seu.


Para quem não sabe Miles Morales é um jovem negro, oriundo do Brooklyn (nos quadrinhos), tendo sua ascendência por parte de mãe como hispânica. Ele seria nosso perfeito herói "lacrador", usando de sua origem e ascendência marginalizadas para justificar sua inadimplência social. Isso claro, se ele fosse criado hoje, o que não é o caso. Miles nunca se traja de suas origens, eles as abraça, mas nunca como muleta. Ele faz questão de sempre homenagear e ter orgulho de onde veio, agindo como um "representante mainstream" , mas nunca tendo o viés como agente que o define. Morales é, acima de tudo, um bom personagem, com motivações convincentes, núcleo de personagens secundários competentes e sempre com muito a agregar. Nada em sua história é uma "muleta", ou inserido de forma forçada para vender uma ideia pseudo-progressista.

Sua jornada é um convite para um entretenimento da melhor qualidade, assim como um sugestivo olhar para novas culturas, que até hoje são menosprezadas pela grande mídia. Haveria forma melhor de conhecermos novas culturas, senão por um olhar já inserido nelas, e que de fato se faz presente, mas nunca distante de olhares terceiros? Creio que não.


Nesse game, lançado em novembro de 2020 para Playstation 4 e 5, Miles ainda está aprendendo a domar seus poderes, com a ajuda de seu mentor, Peter. Ainda relutante sobre seu papel para com a cidade e sobre as responsabilidades que o manto carrega. Logo após a missão inicial, Peter precisa se ausentar da cidade, deixando a responsabilidade de proteger Nova York nas mãos de Miles. Enquanto isso a mãe de Miles, Rio Morales, está se candidatando à Vereadora do Halem, em meio à uma guerra entre uma agência de segurança privada, Roxxon, e um grupo rebelde liderado pela antagonista Tinkerer.


Um dos pontos altos da história é colocar Miles não como prodígio típico dos princípios de Campbell, e sim como um agente do meio, e no caso do meio micro. Suas ações afetam diretamente seu arredor, e gradativamente isso vai cobrando decisões cada vez mais cruciais por parte do nosso protagonista, Morales afinal, não faz parte do meio, ele é o meio.

Enquanto Peter é o protetor de Nova York, Miles vive no Halem, cresceu no Halem, seus laços e raízes fazem parte do Halem, ele é o ambiente em que vive, e vive para garantir que seu ambiente continue a existir. O grande diferencial nessa abordagem é que dessa vez o escopo se vira para o micro. Temos um bairro para salvar, e não uma cidade inteira, e dessa forma posso estar soando como um diminutivo em grau de periculosidade, mas está longe de ser o caso.


Nas primeiras horas do jogo a mãe de Miles está fazendo um comício, no centro do Halem, e nosso herói faz questão de cumprimentar cada vizinho, amigo de infância ou conhecido do bairro antes de ver sua mãe. A convivência ao longo dos anos com essas pessoas moldou quem Miles é. Muito antes de ser mordido por uma aranha radioativa ele já visava proteger sua comunidade, porém agora a responsabilidade do manto que carrega exige sua eterna vigilância. É uma dádiva, assim como uma maldição.


O senso de comunidade está envolto de todo o bairro, Todos os habitantes ali presente fazem parte da vida de Miles, e consequentemente tornam os riscos no qual o bairro está exposto muito mais severos. Cada vida ali atingida irá afetar diretamente a vida de Miles. Diferente do jogo de 2018, em que lidava com um macro espaço semi-infinito, em que víamos cidadãos nova yorkinos , todos sem personalidade e sem um senso de pertencimento, aqui Halem não é somente nosso lar, mas também parte de quem somos (encarnando Miles).


O jogo nos oferece a oportunidade de lutar para salvar um espaço que acima de tudo é nosso, é parte de quem o protagonista é. De certa forma, é uma forma de lutar pela sua identidade, pelas pessoas que moldaram suas experiências sociais., pelas suas memórias. Um ambiente nada mais é do que uma justificativa para nos tornarmos indivíduos sociáveis, ao mesmo tempo que ele sempre será moldado pelas consequências das nossa interações. A luta dessa vez é intimista. Não lutamos para salvar um lugar que conhecemos só pela vista dos arranha-céus. Lutamos para salvar o nosso então chamado lar.


O mais interessante é a composição do grupo de antagonistas, um deles um industrialista da Roxxon, que deseja à todo custo forçar um empreendimento colocando a vida dos habitantes do Halem em perigo, em contra posição com uma extremista que deseja à todo custo impedir este mesmo industrialista.

Veja que interessante : um extremo ( um empresário visando atender demandas mercadológicas acima da vida humana), gera outro ( uma terrorista disposta à impedir o industrialista no tom mais maquiavélico possível).


Novamente o apelo do jogo em especificar a importância do micro espaço. Tudo que recorre em escala menor acaba crescendo conforme os riscos vão gradativamente subindo. Nesse meio temos nosso herói, ainda inseguro de si, com receio de falhar e não poder ser o símbolo de esperança que seu bairro precisa. Ainda assim, logos nas primeiras horas da campanha principal, no primeiro confronto entre os soldados privados da Roxxon e os terroristas comandados pela Tinkerer, Miles aparece no meio entre os dois grupos, arrancando a arma de um dos soldados privados, e falando para os dois grupos não se matarem. O significado disso transcende toda a ideia do personagem, desde suas origens em 2011: Miles Morales poderia, como seu mentor, lançar teias e prender os dois grupos na surpresa, porém ele entende que para salvar seu micro espaço, não basta agressividade, não basta imediatismo. Ambos os grupos estão disputando o mesmo espaço, e ao invés de guerrear pelo território, por que não se deixar acolher por ele? O micro espaço precisa ser salvo. Não somente, merece. As lutas mais intensas sempre são as interinas. Que tenhamos Miles como exemplo e busquemos mais engajamento nos nossos micro espaços diários. Assim como tudo que se olha com uma lupa à curta distância , a importância sempre está nas pequenos detalhes.


A lição que fica, numa sociedade cada vez mais mal acostumada à "lacrar", simpatizando com dissertações idiossincráticas, MIles Morales nos convence à ir além do óbvio. Diferente de 99 por cento do Twitter, ele não tem tempo para "lacrar", porque no fim das contas, ele é um herói, ele quer resolver o problema, e não situar seu ego nos arranha-céus. Por mais heróis, menos lacradores.