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  • João Bornhofen

COLUNA: POSSESSÃO (1981)

Atualizado: Jan 27

Quando as alegorias tornam-se paródias normativas.



Obs: Para esse artigo irei me conter ao máximo para revelar o menor número possível de detalhes sobre a obra.


O sucesso de crítica e bilheteria de Coringa (2019, Todd Phillips), nos prova duas coisas : A falta completa de um senso vanguardista ao público mainstream, visto que a película nada mais é do que uma colcha de retalhos de obras-primas do século passado, com uma linguagem levemente acessível ( isso pra não ser deselegante e chamar de completamente escatológica), uma única atuação consistente, mas que não merecia o Oscar, ganho por Joaquin Phoenix, e que aparentemente assuntos voltados ao inconsciente coletivo em respeito à insanidade gerada pelo sufocamento social geram dinheiro, e consequentemente recebem atenção da mídia e do público.

Porém muito antes de Coringa( 2019, Todd Phillips) incitar debates acerca das deturpações cognitivas alheias o próprio personagem já conduzia uma série de estudos comportamentais, fosse uma análise psicossocial, outrora sendo um antagônico traço do cavaleiro das trevas sob a óptica psicanalista. E nesse meio tempo tivemos algumas obras à frente de seu tempo. Algo oriundo de um movimento trash à la vanguardista, ao mesmo tempo que possuía uma atmosfera exclusivamente intimista , e que tenha um mínimo de qualidade, diferente da obra citada no inicio deste artigo.

Falaremos hoje sobre POSSESSÃO, filme de 1981, dirigido e escrito pelo Ucraniano Andrzed Zulawski, e protagonizado pela francesa Isabelle Adjani, em umas das melhores atuações da década, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz pelo júri de Cannes.



Na trama, ambientada na Alemanha temos o retorno de Marc ( Sam Neill) à sua residência em Berlim. Saudoso por sua esposa e filho, ele se surpreende ao ver o ímpeto desejo de sua mulher, Anna ( Isabelle Adjani), em divorciar-se. Marc deduz que a vontade é oriunda de uma possível infidelidade, porém pouco sabe o que realmente ocorreu em sua ausência.

Uma sinopse dessa não faz nada além de ferir a proposta do filme, tanto a narrativa como constrói um arquétipo de filme de gênero. Gênero é uma palavra remanescente do termo "Genérico", usado para protocolos de padronização, o que novamente, só desmerece o valor da obra.

Não pense em Possessão, como um mero filme melodramático, com camadas de suspense psicológico e até momentos de "breguice" pontual. Não! Temos aqui uma das melhores obras do último século. Possivelmente você, caro leitor, após assisti-la, deteste a película, ou cogite ter perdido seu precioso tempo, porém, posso garantir que você jamais terminara-lo e estará apático da sucessão de eventos que acabara de presenciar.


Muitos paralelos são feitos entre a estética de Possessão(1981) e filmes do diretor francês Gaspar Noé, porém com um olhar mais atento percebemos que o choque oriundo do filme de Zulawski sempre é consequente e diretamente ligado à narrativa, diferente de Noé, que muitas vezes opta em ilustrar o choque somente com a finalidade finita de promover o absurdo pelo absurdo.


A história ocorre durante o período da guerra fria, e para qualquer pessoa levemente atenta à historicidade mundial sabe que, Berlin , durante esse período, estava dividida por dois ideologias, simbolizadas pelo famoso muro. E não à toa tal divisão político-social é mais uma das diversas alegorias presentes na obra para ilustrar a complexidade e dicotomia eterna que é a manutenção das relações íntimas. O cenário urbano nada mais é do que uma expansão máxima da intimidade do casal. Tanto para ilustrar a separação óbvia, como também como alusão à um cenário perplexo e bipolar, assim como nosso casal de protagonistas.

Obviamente não faltam alegorias macabras para adentrar não somente o teor social crítico, como também para explorar as camadas cognitivas dos indivíduos presos na morbidade do casório . As fugas ou "escapadas" das rédeas matrimoniais servem para questionar o quão desesperados os personagens estão a ponto de colocarem em risco perder o que construíram, tão fácil de destruir e , por obséquio, tão altamente improvável de se reerguer.

O contraste entre o íntimo e o público não se limita apenas na exploração de camadas problemáticas, sem haver juízo de valor, seja na infidelidade mútua, ou no patriarcalismo recorrente ao estigma do "homem provedor" que tem em sua mulher primeiro uma submissa, depois uma parceira.

O filme brinca com esses arquétipos, sem escatologia, e se aproveita deles para se descontruir o melodrama criado nos primeiro ato, e se jogar de cabeça nas temáticas provocativas que lideram o filme até seu desfecho.


Zulawski quer incomodar, quer te deixar desconfortável. A todo momento. Isso porque os personagens nunca estão confortáveis, e quando estão menos desconfortáveis estão quase sempre interagindo fora de seu ambiente íntimo, que por lógica deveria ser o local donde Anna e Marc estivessem sempre na serenidade mais plena. São contrastes como esse, aliados à uma fotografia brilhante e irretocável de Bruno Nuytten, de longe o melhor trabalho de sua carreira, à câmera , que assim como quem assiste, é uma mera presença, atenta à todos os detalhes minuciosos, e sempre olhando para o todo, com arrojados planos abertos que se movimentam com uma fluidez ímpar. A lente da câmera é um olhar, um terceiro olhar, que não se furta do olhar próximo, por mais grotesca que a situação fique. A composição da cidade e dos ambientes internos garantem uma aflição condizente com a psique da dupla de protagonistas.


Há uma cena ( que não vou detalhar para evitar spoilers), em que Anna anda pelos túneis de Berlim, e é uma das cenas mais marcantes do filme. Marcante não porque é belissimamente filmada, ou por conta da atuação magistral de Isabelle Adjani, mas porque a cena se entrega a ultrapassar a linha imposta até então, entre as divagações psicológicas da personagem e a ilustração delas no âmbito físico. Perder-se a separação entre o que o personagem concebe em sua mente e o que nós, espectadores, estamos observando, é algo que já compensa assistir o filme.

Ao término da película fica a incompreensão de boa parte do que foi visto. O filme não tem a prepotência de se resguardar como dono da interpretação. É uma obra inteligente ao ponto de instigar o espectador a olhar além do que os olhos enxergam, ao mesmo tempo que é sagaz e meticuloso para a possibilidade das mais intrínsecas interpretações , tendo fundamento porque o filme coordena a entregas das informações com uma precisão cirúrgica, nunca deixando tudo óbvio demais, tampouco carecendo de entregar sutilezas ao espectador. Dessa forma cada indivíduo irá tirar algo do filme, seja algo positivo ou não. Porém, repetindo aqui, apático jamais.

Falando em apático, uma ode aqui para concluir : por menos Coringas(2019, Todd Phillips), e mais empatia ao bizarro e grotesco.


Este artigo foi realizado por um pedido de uma das nossas seguidoras do Instagram, e aproveitando, muito obrigado pelo carinho. Caso você, leitor, tenha alguma obra que deseje análise ou coluna não se acanhe em falar conosco pelas nossas redes sociais. Grande abraço :).



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